Imunizados contra covid podem sim viajar de avião, ao contrário do que diz site antivacina
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Imunizados contra covid podem sim viajar de avião, ao contrário do que diz site antivacina

Texto que circula no WhatsApp afirma haver risco de formação de coágulos para quem já recebeu vacina, mas não há nenhuma evidência de que isso seja verdade

Luis Filipe Santos, especial para o Estadão

15 de junho de 2021 | 19h06

É falso que pessoas vacinadas contra a covid-19 não possam andar de avião por risco de trombose. Essa alegação, criada por um site antivacina alemão, circula no WhatsApp em texto que afirma que companhias aéreas estariam emitindo alertas a viajantes imunizados — o que não é verdade. Não há nenhuma recomendação médica contrária a viagens aéreas para pessoas que tenham recebido injeções contra a covid-19. Além disso, tanto a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) como a Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag) negaram ter emitido alertas sobre o assunto ou registrado casos de trombose em passageiros vacinados.

Leitores solicitaram a checagem desse conteúdo por WhatsApp, 11 97683-7490.

A informação falsa foi espalhada pelo site Hinzuu, que publica conteúdo antivacina e conspiratório da teroia QAnon. Um texto publicado na página em 29 de maio diz que, a partir de determinada altitude do voo, pessoas que receberam imunizantes contra a covid correm risco de desenvolver coágulo, trombose, AVC e enfarte. O médico Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBIm), explica que essa alegação é “uma grande bobagem”.

“Não há nenhuma sugestão, nem para quem recebe a vacina da AstraZeneca nem para quem recebe qualquer outra vacina, de ter medidas profiláticas, como usar meia elástica, não viajar de avião, parar pílula anticoncepcional”, diz ele. “Não há nenhum fundamento nesse tipo de recomendação”.

Não existe recomendação médica contra viagens aéreas de imunizados. Foto: Holger Detje por Pixabay

Alguns casos de coágulos foram detectados em mulheres europeias que receberam vacinas de vetor viral, que geram imunidade a partir de um vírus inofensivo com parte do DNA do SARS-CoV-2, incapaz de gerar a covid-19. Alguns países, como Dinamarca e Holanda, suspenderam a aplicação da vacina da AstraZeneca por conta deles, apesar da raridade.

Da mesma forma, nos Estados Unidos, a aplicação da vacina da Janssen foi temporariamente suspensa e depois retomada após análise de que casos de coágulos eram na ordem de menos de um para cada milhão de vacinados. 

Kfouri explica as diferenças entre os casos de trombose registrados após vacinação e os causados por outras razões. “(Nos casos pós-imunização) é uma trombose autoimune, não tem nada a ver com a trombose do avião, a trombose da pílula (anticoncepcional), do cigarro, das varizes, da embolia pulmonar, do enfarte”, diz. “É uma doença onde o indivíduo desencadeia essa doença produzindo anticorpos contra suas próprias plaquetas. Ainda está sendo pesquisado o que causa essa reação”.

Sem oferecer evidências, o site alemão coloca como certeza que todas as pessoas vacinadas contra a covid-19, com qualquer imunizante, não poderiam viajar de avião, já que esta forma de viajar seria contraindicada para pessoas com risco alto de trombose. O texto acrescenta que as companhias aéreas estariam tendo prejuízos por conta disso e alertando aos clientes vacinados sobre o risco de coágulos.

Não há registro de nenhuma companhia que tenha feito esse alerta. Na Alemanha, apenas pessoas vacinadas podem entrar no país sem passar por testes ou quarentena obrigatória. Nos Estados Unidos, a Delta Airlines e a United Airlines anunciaram que somente contratarão pessoas que foram completamente vacinadas contra a covid-19.

Nem a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) nem a Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag) disseram ter conhecimento de algum relato de trombose entre vacinados contra a covid-19. Também não há restrições oficiais no Brasil ou na Alemanha referentes à possibilidade de pessoas vacinadas embarcarem em voos.

Procurado, o site Hinzuu afirmou que seu texto era verdadeiro e sugeriu que o repórter “pesquisasse na internet”.

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