Imagens de queimadas e animais feridos circulam fora de contexto nas redes
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Imagens de queimadas e animais feridos circulam fora de contexto nas redes

Postagem no Facebook divulga fotos antigas e de fora do País; incêndios recordes já consumiram 10% do Pantanal brasileiro

Pedro Prata

16 de setembro de 2020 | 17h36

Uma postagem no Facebook tira de contexto imagens de queimadas e de animais machucados, e diz que todas foram registradas este ano no Pantanal e na Amazônia. O post viralizou em um momento em que incêndios recordes já consumiram mais de 10% de todo o Pantanal brasileiro. Esta publicação foi compartilhada 8,7 mil vezes na rede social.

Em meio a queimadas recorde que devastam o Pantanal, imagens circulam fora de contexto. Foto: Reprodução

“Isto está acontecendo tanto no Pantanal quanto na Amazônia! Isto é real! Isto não te perturba?”, diz a legenda. A publicação contém 11 imagens diferentes que retratam queimadas ou bichos machucados. É verdade que o Pantanal se tornou um cemitério de animais a céu aberto, mas nem todas as imagens do post foram tiradas no bioma brasileiro ou são recentes.

Para identificar a origem das fotografias utilizadas, o Estadão Verifica utilizou os mecanismos de busca reversa de imagens Google e TinEye. Eles permitem identificar outras vezes em que as fotos foram utilizadas anteriormente.

Assim, foi possível identificar que a foto de um cervo em frente a chamas na verdade foi tirada por LaFonzo Rachal Carter, do jornal The Sun, na região de Devore, na Califórnia, em 2003. Em outubro daquele ano, o estado norte-americano registrou um dos piores incêndios da sua história.

Foto: The Sun/Reprodução

Outra imagem mostra um animal correndo num caminho de terra batida em meio a uma vegetação que queima. Ela foi originalmente clicada por Silva Júnior, da Folhapress, em 2011. A foto mostra “animal fugindo da queimada em canavial” em Sertãozinho, no interior de São Paulo.

Foto: Folhapress/Reprodução

Uma das imagens que mostram um animal morto à beira de uma estrada não é recente. A pesquisa pela foto levou a um blog de 2012 que a publicou. Não há informação de autoria nem local onde o clique foi feito.

Foto: Reprodução

A foto do que parece ser um filhote de felino ferido tampouco é recente. O Estadão Verifica encontrou a imagem sendo utilizada ao menos desde 2016. Ela foi postada em um site de proteção animal e não possui indicação de autoria. O texto fala do risco de atropelamento de animais no Estado de Rondônia.

Foto: Olhar Animal/Reprodução

Também não é atual a imagem de um tamanduá-mirim morto em meio a uma terra calcinada. Ela foi publicada, em 2011, em um texto de um blog que falava se tratar de queimada em um canavial de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. O texto não traz indicação de autoria da foto.

Foto: Integração/Reprodução

O mecanismo de busca reversa também localizou a foto de uma das queimadas no banco de imagens Shutterstock. O perfil responsável pela publicação não indicou informações sobre a localização ou data da foto. Outras imagens postadas pela mesma pessoa mostram lugares nevados, paisagens europeias e florestas com árvores de folhas amareladas pelo outono, o que leva a crer que a fotografia da floresta queimando não é no Brasil.

Foto: Shutterstock/@minorov/Reprodução

Destruição é real

Nem todas as imagens utilizadas no post foram tiradas de contexto. Duas delas mostram a devastação às margens da rodovia Transpantaneira, que corta o Pantanal em Mato Grosso. Elas foram tiradas pelo fotógrafo Ernane Junior, que as publicou em seu Facebook em 30 de agosto.

Foi também em Mato Grosso, próximo à cidade de Poconé, que o fotógrafo João Paulo Guimarães registrou uma jaguatirica morta em uma estrada. A imagem foi publicada junto com o relato pessoal de Guimarães, “Ninguém quer ver de perto a morte que o fogo traz para o Pantanal. Eu vi”, no site Repórter Brasil.

Foto: Repórter Brasil/Reprodução

Os felinos do bioma estão ameaçados pelo fogo. Ele avança pela região de Porto Jofre, um dos últimos redutos de onças do Pantanal. Muitas delas são resgatadas por equipes de ambientalistas e ONGs de proteção animal com as patas queimadas pelo fogo.

A repórter Claudia Gaigher, da TV Morena, denunciou a situação em seu Twitter. Ela postou a foto de uma onça, tirada por Ailton Lara em 11 de setembro. A imagem também ilustra a matéria “85% de parque no Pantanal de MT que abriga maior refúgio de onças-pintadas no mundo foi destruído por incêndios”, sobre as queimadas no Parque Estadual Encontro das Águas.

Outra imagem mostra um jacaré que não conseguiu fugir do fogo. O registro foi feito por Ahmad Jarrah e Bruna Obadowski, às margens da rodovia Transpantaneira, para a reportagem “Fogo e devastação no Pantanal mato-grossense”, dos sites Mídia Ninja e A Lente.

Foto: A Lente/Reprodução

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informa que esta é a maior série de queimadas na região das últimas duas décadas. O fogo no Pantanal em 2020 é equivalente à destruição dos últimos seis anos. No total, ao menos dois milhões de hectares já queimaram, o mesmo que dez vezes a soma dos territórios dos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro somados. Após a cobertura do Estadão sobre a devastação, o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, anunciou o envio de um representante ao bioma e liberação de recursos.

O desastre sem precedentes levou à aliança de ONGs e empresas do setor do meio ambiente e do agronegócio, dois lados geralmente opostos. Elas apresentaram documento com seis medidas para combater o desmatamento. O texto foi tema de reunião da cúpula do governo. Compareceram o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, que preside o Conselho da Amazônia, e os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina (Agricultura).

Também estiveram presentes integrantes do Itamaraty. Em carta aberta a Mourão, oito países europeus alertaram que o aumento do desmatamento dificulta a compra de produtos brasileiros.

Confira abaixo uma galeria de fotos do repórter Dida Sampaio, do Estadão, sobre a devastação:

Este conteúdo também foi checado por Aos Fatos.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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