Boato atribui citações falsas a Hayek e Voltaire para alegar censura ao conservadorismo

Boato atribui citações falsas a Hayek e Voltaire para alegar censura ao conservadorismo

Não é verdade que economista austríaco tenha comparado perda de liberdade com o fatiamento de um salame; viral associa ainda filósofo do Iluminismo a discurso neonazista

Samuel Lima

08 de outubro de 2021 | 11h50

Atualizada em 13/10/2021 para incluir resposta do Instituto Hayek.

Uma postagem no Facebook teve mais de 127 mil compartilhamentos esta semana ao espalhar citações falsamente atribuídas ao economista Friedrich Hayek (1889-1992) e ao filósofo Voltaire (1694-1778). As frases que tratam de “liberdade” e “controle” sobre os indivíduos ganharam a simpatia de grupos conservadores nas redes, mas não fazem parte da obra dos autores.

Segundo a peça de desinformação, Hayek teria afirmado que “A liberdade não se perde de uma vez, mas em fatias, como se corta um salame”. Não há registro de que o austríaco realmente seja o autor da declaração. A primeira parte da citação provavelmente deriva da obra de um pensador que o influenciou, mas a singular comparação com o embutido de origem italiana permanece um mistério.

Já a verdadeira fonte da citação associada a Voltaire é, para dizer o mínimo, estranha aos ideais do Iluminismo — movimento que inspirou a Revolução Francesa (1789) e tinha entre seus ideais a igualdade social. “Se quiser saber quem controla você, é só observar a quem você não pode criticar”, mostra a postagem. A frase se baseia em um discurso de um fundador de um grupo neonazista dos Estados Unidos, que nega o Holocausto e prega o nacionalismo branco.

O conteúdo de maior alcance foi criado pela página “A Mídia Globalista”, que diz abordar assuntos como estudos bíblicos, ufologia, simbolismos ocultos e Illuminatis, entre outros. Veja abaixo em detalhes a checagem do Estadão Verifica.

Hayek e o salame

A pesquisa pelos termos “Friedrich Hayek” e “salame” — ou o equivalente em inglês e alemão “salami” — no Google não retorna nenhuma fonte confiável capaz de indicar a sua origem, o que acende o alerta sobre a veracidade do conteúdo. Para checar a informação, o Estadão procurou o Instituto Hayek, da Áustria, e um historiador familiarizado com a obra do vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 1974.

Em resposta a um formulário enviado pelo site, uma porta-voz do Instituto Hayek, Victoria Schmid, disse não haver qualquer confirmação a esse respeito. “Temos pesquisado nossa literatura, mas, embora a citação pareça caber a Hayek, não conseguimos encontrá-la até agora.”

“Nunca ouvi falar sobre Hayek ter dito alguma coisa semelhante a isso”, escreveu por e-mail Bruce Caldwell, professor, historiador e diretor do Centro de História da Economia Política da Universidade de Duke, dos Estados Unidos. Caldwell é o editor-chefe da série The collected works of F.A. Hayek (As obras coletadas de F.A. Hayek), composta por 19 volumes e publicada pela Universidade de Chicago desde a década de 1990.

Em meio a buscas na internet, a reportagem constatou que uma frase parecida com essa — mas, sem a parte do salame — foi escrita pelo filósofo escocês David Hume (1711-1716), em um ensaio político sobre a liberdade de imprensa. “It is seldom that liberty of any kind is lost all at once (É raro que a liberdade de qualquer tipo se perca toda de uma vez)”, escreveu em um trecho da obra Essays Moral, Political and Literary (Ensaios morais, políticos e literários), que data de 1742.

Essa mesma citação de Hume aparecia logo na abertura do original de The Road to Searfdom (O caminho da servidão), um dos principais livros de Hayek, mas acabou sendo excluída em edições posteriores. Essa obra é uma das que foram reeditadas por Caldwell. Ele fez questão de recolocar a citação abaixo do título após a introdução, na página 35, como pode ser visto em uma prévia disponível no Google Books.

Indícios apontam, portanto, que a frase de Hume foi erroneamente atribuída a Hayek em algum momento porque constava em um de seus livros. Ao longo do tempo, essa mesma citação foi modificada, de modo a incluir uma analogia com o fatiamento de um salame, de autoria desconhecida e que agora viraliza na internet. Até um deputado federal entrou na onda.

Voltaire e a censura

A frase atribuída ao filósofo francês Voltaire, por sua vez, já teve a autoria desmentida anteriormente pelos núcleos de checagem da AFP e do USA Today. A citação ganhou notoriedade depois que um proeminente ex-senador e líder conservador da Austrália, Cory Bernardi, a reproduziu no Twitter, em novembro de 2015.

Vários usuários da rede apontaram a gafe, e o site BuzzFeed e o jornal The Guardian rastrearam a real origem do comentário. A frase em inglês de Cory Bernardi é bastante próxima à que circula atualmente entre usuários do Facebook no Brasil: “To know who rules over you, simply find out who you are not allowed to criticise (Para saber quem manda em você, simplesmente descubra quem você não pode criticar)”.

A autoria mais provável é de Kevin Alfred Strom, fundador do National Vanguard, um grupo de ideologia neonazista da cidade de Charlottesville, dos Estados Unidos, segundo a organização de direitos humanos Southern Poverty Law Center.

Em agosto de 1993, em um discurso em um programa de rádio mantido por outro grupo extremista do qual fez parte, o National Alliance, ele disse algo parecido: “To determine the true rulers of any society, all you must do is ask yourself this question: Who is it that I am not permitted to criticize? (Para determinar os verdadeiros governantes de qualquer sociedade, tudo o que você precisa é se fazer esta pergunta: quem eu não posso criticar?)”.

Em março de 2017, o professor de Literatura Francesa da Universidade de Oxford e diretor da Fundação Voltaire para Estudos do Iluminismo, Nicholas Cronk, confirmou que a citação está sendo falsamente atribuída ao filósofo nas redes sociais

“Outro ditado que recentemente ganhou uma ampla circulação na web é este”, introduz o professor em um texto escrito no blog do grupo de pesquisa. “Isto parece ter se originado de alguma coisa escrita por um neonazista norte-americano e negacionista do Holocauso, alguém que obviamente não exala a sagacidade e ironia voltairiana.”

Kevin Strom respondeu a uma acusação de posse de pornografia infantil e coação de testemunhas em 2007. Ele se declarou culpado à Justiça e foi condenado a 23 meses de prisão pelo Tribunal de Distrito dos Estados Unidos em Charlottesville.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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