Grupos antivacina usam fotos sem contexto para atacar primeira enfermeira imunizada

Grupos antivacina usam fotos sem contexto para atacar primeira enfermeira imunizada

Mônica Calazans diz não ser a pessoa que aparece nas imagens; software de reconhecimento facial também aponta diferenças

Victor Pinheiro e Gabi Coelho, especial para o Estadão

21 de janeiro de 2021 | 18h25

Publicações nas redes sociais usam duas imagens falsamente atribuídas à Mônica Calazans, primeira pessoa vacinada contra a covid-19 no Brasil, para insinuar que a enfermeira é apoiadora do ex-presidente Lula (PT) e membro da maçonaria. Mônica afirmou ao Estadão Verifica que não aparece em nenhuma das duas fotos analisadas. Um cruzamento de imagens feito em aplicativo de reconhecimento facial também aponta que Calazans não tem os mesmos traços das pessoas retratadas.

Uma das fotos mostra uma mulher de óculos escuros com um filtro de texto escrito “Lula Livre”. O conteúdo foi publicado no Facebook na última segunda-feira, 18. Uma postagem com mais de mil compartilhamentos alega que a imagem foi compartilhada e posteriormente excluída do Facebook de Mônica. 

A outra imagem apresenta quatro mulheres com vestimentas e símbolos associados a organizações maçônicas. Com uma seta, as publicações indicam quem supostamente seria Mônica Calazans. O material ainda alimenta teorias conspiratórias. “O plano maçônico revelado!”, diz um post enganoso.

Questionada pela reportagem, a enfermeira negou a autenticidade das publicações. “Não sou eu. Apenas isso”, afirmou ela. 

O Estadão Verifica recorreu ao aplicativo BetaFaceAPI para comparar a semelhança das fotos com imagens de Mônica disponíveis em suas redes sociais e em veículos de imprensa. Essa mesma estratégia já foi utilizada pelo Projeto Comprova para verificação de vídeos apropriados por conteúdos enganosos. 

A pesquisa mostrou que o rosto de Mônica em uma foto recente disponível no Facebook não é compatível com o rosto da mulher representada no conteúdo que retrata a reunião maçônica. Por outro lado, o app indicou semelhanças com outras quatro fotos verdadeiras da enfermeira.

O rosto da mulher que é enganosamente associada à Mônica Calazans obteve apenas 71,7% de compatibilidade. Foto: Reprodução/BetaFaceAPI

A foto destacada em “Original Face” corresponde à imagem de referência usada pelo aplicativo para o reconhecimento facial. Uma vez que a ferramenta identifica todas os rostos presentes nas imagens, as outras três mulheres que aparecem na foto da reunião maçônica também foram avaliadas. O app estabelece um índice de similaridade entre os conteúdos analisados e marca a compatibilidade com contornos verdes, para resultados positivos, e vermelhos, para negativos.

A consulta inversa também apontou resultados semelhantes. O rosto da mulher que é apontada como Mônica na postagem enganosa não tem semelhança com as fotos legítimas da enfermeira.

As fotos reais de Mônica Calazans estão marcadas em vermelho

Na análise da imagem com o filtro “Lula Livre”, o Estadão Verifica acrescentou uma foto de Mônica Calazans em que ela também utiliza óculos escuros. De acordo com o BetaFace, ainda assim, o conteúdo é incompatível com todas as fotos da enfermeira presentes na consulta. 

A moça representada no segundo retângulo [esquerda para direita] estava na foto de Mônica na Praia (6.º retângulo). Foto: Reprodução/BetaFaceAPI

No Twitter, o filho da enfermeira, Felipe Calazans, afirmou que autoridades estão investigando perfis que disseminam informações falsas e discurso de ódio sobre sua mãe.

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