Gravação de filme é usada fora de contexto para atacar decisão do STF sobre policiais em favelas no Rio
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Gravação de filme é usada fora de contexto para atacar decisão do STF sobre policiais em favelas no Rio

Cenas que mostram homens armados em confronto com a polícia são da obra 'Rocinha: Toda história tem dois lados'

Pedro Prata

26 de agosto de 2020 | 15h24

É cenográfico um vídeo que mostra homens armados descendo uma ladeira do Rio de Janeiro e rendendo policiais. A cena, que mostra atores em meio a uma filmagem de obra de ficção, viralizou no Facebook fora de seu contexto original após o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir impor limites à política de segurança pública do Estado. O Estadão Verifica checa postagens virais e verificou o vídeo após ele ser compartilhado 9,1 mil vezes.

As imagens foram compartilhadas com legendas que dão a entender que se trata de uma cena real causada pela decisão do STF. Enquanto uma postagem dizia “STF proibiu a polícia de agir no RJ, aí está o resultado”, outra falava “Veja quem está mandando agora…”. Outro perfil chegou a questionar “Até quando?”.

Vídeo usado em boato é cena de ‘Rocinha: Toda história tem dois lados’. Foto: Reprodução

A coordenadoria de comunicação social da Polícia Militar do Rio de Janeiro informou ao Estadão Verifica que a cena é ficcional. “Foi a gravação de um filme na Rocinha, no último dia 19/8. Todos são atores, inclusive os vestidos de policiais.”

O filme é Rocinha: Toda história tem dois lados. A produtora BS Produções compartilhou fotos das gravações e o vídeo utilizado pelo boato fora de contexto foi publicado no Instagram do ator Peter Brandão. Nas imagens é possível identificar pessoas segurando uma claquete, uma câmera e um microfone. Todos os equipamentos são utilizados em filmagens.

É possível ver que algumas pessoas portam instrumentos utilizados na gravação de filmes, como claquete, câmera e microfone. Foto: Instagram/@peterbrandaooficial/Reprodução

Limites à polícia no Rio

O STF julgou a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que questionava decretos estaduais para regulamentação da política de segurança pública do governador Wilson Witzel (PSC). Para o partido, a política de Witzel estimula conflitos armados e expõe moradores de áreas conflagradas a “profundas violações de seus direitos fundamentais”.

O plenário do STF decidiu na segunda-feira, 17, restringir a utilização de helicópteros nas operações policiais “apenas aos casos de estrita necessidade” e impedir a utilização de “qualquer equipamento educacional ou de saúde como base operacional das polícias civil e militar”. Os ministros ainda mantiveram indicadores de redução de homicídios como fator para cálculo de gratificações dos policiais e passaram para o Ministério Público as investigações de infrações penais cometidas por policiais.

Witzel foi eleito pregando o confronto armado com facções criminosas e causou polêmica ao gravar vídeo em um helicóptero com atirador de elite apontando um fuzil para uma comunidade de Angra dos Reis. Ele também atraiu atenção quando comemorou o assassinato, pela polícia, de um homem que fazia pessoas reféns em um ônibus na ponte Rio-Niterói.

Este boato também foi checado por AFP, Aos Fatos, Agência Lupa, Fato ou Fake e Boatos.org.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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