Governos e partidos de pelo menos 70 países organizaram campanhas de desinformação em 2018, diz estudo
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Governos e partidos de pelo menos 70 países organizaram campanhas de desinformação em 2018, diz estudo

Relatório da Universidade de Oxford mapeou atuação de "tropas virtuais" ao redor do mundo que tinham objetivo de manipular a opinião pública

Alessandra Monnerat

03 de outubro de 2019 | 17h00

Em ao menos 70 países, “tropas virtuais” de governos ou partidos políticos organizaram campanhas para manipular a opinião pública nas redes sociais em 2018, de acordo com um relatório recente da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Este número representa um aumento de 45% em relação ao ano anterior, quando os pesquisadores identificaram 48 países com ações de manipulação. Na comparação com 2016, o salto foi de 150%.

Em 52 dos países analisados, essas tropas virtuais participaram ativamente na criação de sites de notícias falsas e de conteúdo manipulado para enganar internautas. Parte dessas campanhas de desinformação usava dados sobre usuários para mirar segmentos específicos do público, com uso de propaganda direcionada nas redes sociais.

O Brasil foi um dos países em que os pesquisadores identificaram o uso de “bots” (contas automatizadas), “trolls” (usuários que provocam brigas online) e “ciborgues” (humanos com comportamento parecido com o de bots) para atacar adversários, confundir o debate político e provocar divisões na opinião pública. No País, as principais redes sociais usadas foram o Facebook, o WhatsApp e o YouTube.

Propaganda computacional está cada vez mais presente no dia a dia, diz estudo de Oxford. Foto: Pixabay/kaboompics

“A disponibilidade das tecnologias de redes sociais — algoritmos, automação e big data — altera enormemente a escala, o escopo e a precisão de como as informações são transmitidas na era digital”, afirma Samantha Bradshaw, uma das autoras do relatório. “As  redes sociais têm sido cada vez mais analisadas por seu papel em ampliar a desinformação, incitar a violência e diminuir a confiança na mídia e nas instituições democráticas.”

O estudo “The Global Disinformation Order: 2019 Global Inventory of Organised Social Media Manipulation” (A Ordem de Desinformação Global: Registro Global de Manipulação Organizada nas Mídias Sociais 2019) define as tropas virtuais como atores do governo ou de partidos políticos que têm como objetivo manipular a opinião pública online. 

As formas de manipulação são variadas, e incluem, além da desinformação, o uso de “bots” para disseminar conteúdo de ódio e de exércitos de “trolls” para atacar inimigos políticos e jornalistas nas redes sociais. 

Essas técnicas para moldar a opinião pública online foram utilizadas por pelo menos 26 governos autoritários como China, Cuba, Coréia do Norte e Rússia para suprimir a liberdade de expressão, desacreditar vozes críticas e calar a oposição. De acordo com os pesquisadores de Oxford, em alguns desses países a propaganda computacional é usada estrategicamente junto com ações de vigilância, censura e ameaças de violência. 

“A manipulação da opinião pública nas mídias sociais continua sendo uma ameaça grave à democracia, pois a propaganda computacional se tornou parte da vida cotidiana”, afirma o professor Philip Howard, diretor do Oxford Internet Institute e co-autor do relatório. “Embora a propaganda faça parte da política desde sempre, o amplo escopo dessas campanhas suscita preocupações sérias pela democracia moderna.”

Os manifestantes convocaram uma greve geral de uma semana no mês de outubro Foto: Anthony Wallace / AFP

Os acadêmicos apontam ainda que a China despontou como um importante agente no cenário de desinformação global. Se antes havia evidências de  que o governo chinês raramente utilizava as redes sociais para manipular a opinião pública em outros países, o jogo mudou após as manifestações pró-democracia em Hong Kong. Agora, o relatório de Oxford informa que a China começou a usar as plataformas sociais para pintar os manifestantes como radicais violentos sem apoio popular. 

Segundo os pesquisadores, seria um sinal de que Pequim estaria usando essas tecnologias como “ferramenta de poder e influência geopolítica”. O relatório identifica outros seis países com tropas virtuais engajadas em operações de influência estrangeira: Índia, Irã, Paquistão, Rússia, Arábia Saudita e Venezuela.

Para traçar um painel global da desinformação, os autores do estudo analisaram informação disponível publicamente na imprensa profissional sobre campanhas de manipulação online. Os pesquisadores também consultaram documentos governamentais, estudos acadêmicos e pesquisas conduzidas pela sociedade civil. Depois, eles também ouviram especialistas que contribuíram com a revisão dos resultados encontrados. 

Assinam o estudo os pesquisadores Samantha Bradshaw e Philip Howard, do Oxford Internet Institute. Veja o relatório completo:

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