Governos e partidos de 48 países contratam empresas privadas para campanhas de desinformação, aponta estudo

Governos e partidos de 48 países contratam empresas privadas para campanhas de desinformação, aponta estudo

Relatório de grupo da Universidade de Oxford indica que 'tropas digitais' coordenam bots e canais de desinformação no Brasil

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

14 de janeiro de 2021 | 15h41

Cresceu o número de países em que governos e partidos políticos recorrem ao serviço de empresas privadas para manipular a opinião pública nas redes sociais em 2020, aponta um relatório da Universidade de Oxford, no Reino Unido. A pesquisa identificou que em ao menos 48 países companhias são contratadas para operar redes de desinformação ou de contas falsas nas plataformas digitais, em um negócio que movimentou US$ 60 milhões desde 2009. 

A quantidade de países onde esse fenômeno ocorre é 92% superior a registrada em 2019 e mais que o dobro do que o contabilizado em 2018. Os autores do estudo integram um grupo da universidade britânica que desde 2016 mapeia a ação global de “tropas virtuais” ligadas a atores políticos que disseminam a prática de propaganda computacional na internet — isto é, o uso de algoritmos, automação e contas operadas por humanos para espalhar informações e propagandas enganosas nas redes sociais.

“Estas empresas frequentemente usam contas falsas, identificam audiências para micro direcionamento, ou utilizam bots e outras estratégias para estimular a tendência de certas mensagens políticas”, diz o relatório 2020 Global Inventory of Organized Social Media Manipulation.

Documento

Tropas virtuais usam bots e contas ciborgues para manipular o debate público nas redes sociais. Foto: Willian Iven/Unplash

Para os pesquisadores de Oxford, o cenário indica que essas tropas virtuais se tornam cada vez mais profissionais. “Nossa pesquisa de 2020 mostra que agências governamentais, partidos políticos e empresas privadas continuam a usar meios digitais para difundir propaganda política enganosa, poluindo o ecossistema da informação digital e suprimindo a liberdade de expressão e de imprensa”, afirmou a líder do estudo, Samantha Bradshaw.  “Uma grande parte desta atividade foi profissionalizada, ao ponto de empresas privadas oferecerem serviços de desinformação”, complementa a pesquisadora. 

Crescimento global

O novo estudo  identificou que as “tropas virtuais” estão presentes em cada vez mais países ao redor do mundo. Atividades dessas redes ligadas a governos e partidos políticos foram observadas em ao menos 81 países, número 15% superior ao do ano passado. Para investigar o panorama global da desinformação, os pesquisadores analisaram informações publicadas pela imprensa profissional e consultaram documentos públicos e estudos acadêmicos.

Segundo o relatório, no Brasil há evidências da atuação de agências governamentais, partidos políticos, empresas privadas e também influenciadores, que trabalham em conjunto com atores políticos para disseminar propaganda computacional. Em geral, os autores observaram o uso de tropas digitais em temas relacionados a eleições de diversos países. 

Um exemplo citado no relatório é o uso de contas falsas no Twitter pela campanha de Michael Bloomberg nas primárias do Partido Democrata nas eleições norte-americanas. Outro ponto destacado pelos autores é a atividade de redes de países autoritários para interferir no debate público de outras nações.  “Países autoritários como a Rússia, China e Irã capitalizaram na desinformação do coronavírus para amplificar narrativas antidemocráticas destinadas a minar a confiança em funcionários da saúde e agentes públicos”, afirmam os autores. 

Estratégias

Para manipular o debate público nas redes sociais, as tropas virtuais se utilizam de diferentes estratégias e ferramentas. De acordo com o documento, o Brasil pertence ao grupo de 57 países em que foram registradas evidências do uso de bots ou contas automáticas. 

O País também está ao lado de outras 78 nações em que as redes de propaganda computacional recorrem a contas ciborgues, ou seja, que são operadas por humanos mas agem de maneira semelhante a bots — postando repetidamente para inflar o debate sobre um assunto nas redes sociais.

“Nos Estados Unidos, adolescentes foram convocados por um grupo de jovens pró-Trump para espalhar narrativas a favor do presidente e conteúdos enganosos sobre o voto por correspondência e o impacto do coronavírus”, exemplifica o estudo. 

Em outros sete países, dentre eles a Argentina, tropas virtuais atuaram em campanhas de denúncia em massa com o intuito de derrubar e bloquear temporariamente o conteúdo de atores políticos adversários. 

Plataformas de desinformação

O Brasil também aparece entre 76 países em que as “tropas virtuais” coordenam a criação de canais de conteúdos de desinformação. Os pesquisadores identificaram ainda a ação dessas redes na promoção de ataques a adversários políticos, ativistas e jornalistas. 

Em 90% dos países analisados, as campanhas de desinformação envolviam propagandas a favor de um governo ou partido político. Já a ação de tropas virtuais em ataque a adversários políticos ou à reputação de indivíduos foi identificada em 94% dos territórios.

Para ilustrar, o relatório cita que tropas virtuais chinesas seguem coordenando ataques em grande escala à reputação de manifestantes em Hong Kong, tendência que já foi destacada na edição de 2019. 

Além disso, em 73% das nações analisadas foram encontradas evidências de campanhas para intimidar e silenciar vozes opostas na internet; 48% promoveram conteúdos que favorecem a polarização. De acordo com pesquisadores, o crescimento e a profissionalização das tropas virtuais elevam o desafio de combate à desinformação nas redes sociais. 

“Mais do que nunca, o público precisa ter acesso a informação confiável sobre políticas e atividades governamentais. Companhias de mídias sociais precisam aumentar esforços em classificar desinformações e remover contas falsas sem a necessidade de intervenção do poder público”, afirma Philip Howard, coautor do estudo e diretor do Instituto de Internet da Universidade de Oxford.

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