Comparação entre aumento da gasolina e patrimônio da família Bolsonaro usa dados imprecisos

Comparação entre aumento da gasolina e patrimônio da família Bolsonaro usa dados imprecisos

Postagem do senador Humberto Costa cita valor de aumento de gasolina que se refere a um período de três anos, enquanto a evolução de patrimônio ocorreu em período de 12 anos para Jair e Flávio e quatro anos para Eduardo

Projeto Comprova

12 de maio de 2022 | 18h34

Esta checagem foi produzida por jornalistas da coalizão do Comprova. Leia mais sobre nossa parceria aqui.

Conteúdo investigado: Um card com uma representação gráfica da evolução patrimonial do presidente Jair Bolsonaro (427%) e de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (397%), do PL/RJ, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (432%), do PL/SP, comparada à elevação de preços da gasolina (116%).

Onde foi publicado: Facebook

Conclusão do Comprova: É enganosa a postagem que compara a evolução do patrimônio da família Bolsonaro com o aumento no preço da gasolina. Os números exibidos na postagem, feita originalmente pelo gabinete do senador Humberto Costa (PT-PE) e depois reproduzidas em diversas contas, fazem referência a intervalos de tempo diferentes. Há a indicação do período de um ano apenas no preço da gasolina, o que sugere que os outros números, referentes à família do presidente, também se referem ao mesmo período.

Ao Comprova, a assessoria do senador informou que a origem dos dados são matérias da imprensa (12 e 3) e um levantamento feito pelo pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) junto com a Federação Única de Petroleiros (FUP).

O aumento de 116% no preço da gasolina que aparece na imagem investigada foi calculado a partir de um período de três anos, de janeiro de 2019 a janeiro de 2022, e não de um ano, como sinaliza o post. A evolução patrimonial dos políticos se deu em períodos distintos e maiores do que o apontado para o crescimento no valor da gasolina.

Os aumentos nos patrimônios do presidente Jair Bolsonaro e de seu filho Flávio levam em conta um intervalo de 12 anos (de 2006 a 2018). E a evolução no patrimônio de Eduardo Bolsonaro considera ainda outro intervalo de tempo, de quatro anos, entre 2014 e 2018.

Além disso, as barras do gráfico usado na postagem são desproporcionais e possuem tamanhos fora de um padrão. Com isso, a interpretação do leitor pode ser incorreta.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Somente no perfil do senador Humberto Costa no Facebook, a publicação alcançou mais de 4,1 mil reações e 3,4 mil compartilhamentos até o dia 12 de maio.

O que diz o autor da publicação: A assessoria de Humberto Costa ressalta que o valor patrimonial da família está atestado por dados públicos, publicados por veículos jornalísticos, e que a variação do combustível foi calculada pelo Dieese, “um órgão insuspeito, que, igualmente, pauta matérias da imprensa.”

Questionada sobre a diferença de períodos a que os números se referem, o que impossibilita comparações, a assessoria reafirmou seu posicionamento. “Todos os dados colocados no card têm fontes oficiais declaradas e foram publicados pela imprensa. Nós mantemos todas as informações publicadas e contestamos a ‘checagem’ de vocês”, diz a nota.

Como verificamos: A equipe do Comprova consultou a base de dados do TSE, na qual constam dados de declaração de patrimônio de candidatos a cargos eletivos, e identificou a evolução do patrimônio do presidente e de seus filhos.

Na internet, também localizou matérias que fazem referência a esse crescimento, tanto do pai, quanto de Eduardo e Flávio Bolsonaro.

A reportagem ainda conferiu a base de dados da ANP, que apresenta, entre outras informações, o preço médio da gasolina comum desde julho de 2001.

Por fim, o Comprova procurou a assessoria do senador Humberto Costa, que criou o card e fez a postagem.

Patrimônio da família Bolsonaro

Em cada eleição, municipal, estadual ou federal, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apresenta dados detalhados sobre todos os candidatos que pediram registro à Justiça Eleitoral e sobre as suas contas eleitorais e as dos partidos políticos. De acordo com a assessoria do senador, eles se basearam na publicação de reportagens, que utilizaram essa base de dados, para construir o gráfico.

Segundo a divulgação de contas do Tribunal, Jair Messias Bolsonaro declarou R$ 433.934,48 em 2006, quando tentava ser eleito deputado federal pela quinta vez. Na disputa pela Presidência da República, em 2018, o candidato afirmou que possuía um total de R$ 2.286.779,48.

A lista de bens inclui cinco casas, quatro veículos e ações na bolsa de valores. O patrimônio de Jair Bolsonaro cresceu 427% entre 2006 e 2018. O valor é o mesmo utilizado pela postagem no Facebook.

O filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro, foi candidato a deputado estadual pelo Rio de Janeiro inicialmente em 2006 e tentou o mesmo cargo nas duas eleições seguintes. Nesse meio tempo, entre 2006 e 2014, o patrimônio dele saiu de R$ 385 mil para mais de R$714 mil.

Em 2018, quando concorreu ao cargo de senador, informou ao TSE que possuía R$ 1.741.758,15. O valor engloba um apartamento, uma sala comercial e investimentos econômicos. De 2006 a 2018, o patrimônio do político aumentou em 352.40%. A porcentagem é diferente da utilizada pela postagem.

Os dados sobre Eduardo Bolsonaro são mais limitados porque sua primeira candidatura foi em 2014, sendo assim só há informações acerca de seu patrimônio a partir desse período. Uma outra matéria que baseou a postagem é do portal UOL e sinaliza que o patrimônio de Eduardo Bolsonaro em 2014 era de R$ 205 mil, o equivalente a R$ 262 mil em 2018, sendo corrigido pela inflação.

Nas últimas eleições estaduais, o candidato declarou possuir bens que totalizam R$1,395 milhão, sinalizando uma expansão de 432% durante o período. Com as alterações, o valor é correto. Ao conferir os dados no TSE, o Comprova apurou que o crescimento passa de 580% sem levar em consideração os impostos.

Preço da Gasolina

Os autores da publicação afirmaram que utilizaram uma pesquisa do Dieese que aparece em uma matéria no portal Yahoo. Trata-se de um levantamento realizado pelo departamento junto à Federação Única dos Petroleiros (Fup), organização que se declara como uma “entidade autônoma, independente do Estado” e que representa “13 sindicatos filiados”.

Em postagem em seu site oficial, a Fup afirma: “Desde janeiro de 2019, início da gestão do presidente Jair Bolsonaro, a gasolina teve reajuste de 116%, ante uma inflação de 20,6% no período. No gás de cozinha, a alta foi de 100,1%, e no diesel, de 95,5%, de acordo com dados da Petrobras, analisados pelo Dieese”. Sendo assim, o aumento de 116% é referente ao período entre janeiro de 2019 e janeiro de 2022.

Entre 2006 e 2018, o preço médio da gasolina comum passou de R$ 2,559 para R$ 4,447, ou seja, um aumento de 73,77%. Os valores do combustível foram apurados junto à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Nestes 12 anos, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 94,29%.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Neste caso, o alvo da desinformação é o presidente Jair Bolsonaro, pré-candidato à reeleição, e sua família. Conteúdos dessa natureza, que não trazem dados precisos, são prejudiciais porque confundem o eleitor que tem direito a fazer sua escolha a partir de informações corretas.

Outras checagens sobre o tema: O período eleitoral tem sido contaminado por conteúdos de desinformação frequentemente. Somente nos últimos dias, o Comprova já demonstrou ser enganoso um vídeo em que Lula chama colaborador da Petrobras de corrupto, que jovem que faz sátira de militantes de esquerda não é filha de deputada do PT e que publicação tira de contexto declaração de Djavan sobre Lei Rouanet e apoio a Bolsonaro.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.