Foto de multidão em protesto é da União Soviética em 1991 e não de manifestação antivacina no Canadá

Foto de multidão em protesto é da União Soviética em 1991 e não de manifestação antivacina no Canadá

Justin Trudeau, primeiro ministro canadense, também não está escondido “em abrigo nuclear”, como afirmam postagens nas redes sociais   

Daniel Tozzi Mendes, especial para o Estadão

18 de fevereiro de 2022 | 14h25

Apesar de o Canadá estar enfrentando uma série de protestos contra a obrigatoriedade da vacina, uma imagem que circula pelas redes sociais não ilustra “mais de 4 milhões de canadenses” em manifestação liderada por caminhoneiros em frente à sede do parlamento do país. A foto original da multidão, na verdade, foi tirada em Moscou, em 1991, durante um protesto pela dissolução da União Soviética, em frente ao Kremlin, sede do governo russo. 

A mesma foto já foi utilizada em postagens recentes em inglês que diziam que a imagem era de um protesto de movimentos contrários à vacinação obrigatória contra a covid-19 na Áustria. Esses conteúdos foram verificados por veículos como o USA Today e a agência de checagem indiana Boom. Em 2012, durante protestos na Rússia contra o governo de Vladimir Putin, a mesma foto também circulou fora de seu contexto original. 

O conteúdo que é objeto dessa verificação tem sido compartilhado por perfis brasileiros no Facebook, e uma das postagens, do dia 2 de fevereiro, já tem mais de mil compartilhamentos. Além da menção às “milhões de pessoas” nos arredores do parlamento canadense, a legenda que acompanha a imagem chama o primeiro ministro Justin Trudeau de “ditador e progressista”, dizendo que ele se encontra “escondido em um abrigo nuclear com medo de seu povo”. 

De fato, quando os protestos no Canadá começaram a ganhar força, no final de janeiro, a notícia de que Trudeau teria se “escondido” com a família por motivos de segurança foi publicada por veículos como a rede de notícias canadense CBC e o jornal britânico Daily Mail. Essas mesmas notícias, no entanto, não faziam qualquer menção ao “abrigo nuclear” e diziam apenas se tratar de uma localidade “não revelada”. 

Em relação ao número de manifestantes, as estimativas indicam que na capital, Ottawa, havia cerca de 400 caminhões envolvidos em protestos e bloqueios de circulação de pessoas e mercadorias na última semana. 

A foto de 1991

A imagem original foi feita em 10 de março de 1991 por um fotógrafo da agência de notícias Associated Press. De acordo com a legenda, disponível no site da agência, a foto mostra “centenas de milhares de manifestantes” na Manezh Square, em Moscou, próximo ao Kremlin, pedindo o fim da União Soviética e a saída do poder do presidente Mikhail Gorbachev e do partido comunista. 

“A multidão, estimada em cerca de 500 mil pessoas, foi a maior manifestação anti-governo dos últimos 73 anos, desde que os comunistas tomaram o poder, e aconteceu uma semana antes do referendo nacional convocado por Gorbachev sobre a manutenção da união das Repúblicas Soviéticas”, afirma a legenda. 

Protestos no Canadá

Os protestos nos arredores do parlamento canadense, em Ottawa, tiveram início no dia 28 de janeiro e foram liderados por caminhoneiros. A justificativa inicial das manifestações foi a insatisfação com uma medida adotada pelo governo de Trudeau, que passou a exigir a obrigatoriedade da vacina contra a covid-19 para os caminhoneiros que entram no país pela fronteira com os Estados Unidos. Com o passar dos dias, os protestos foram ganhando adesão por parte da população contrária às medidas que envolvem a obrigatoriedade da vacina e movimentos de oposição ao atual primeiro-ministro canadense. 

Além dos protestos nas ruas de Ottawa, nas últimas semanas os manifestantes chegaram a bloquear diversas passagens da fronteira entre Estados Unidos e Canadá, entre elas a principal ligação entre os dois países, a Ponte Ambassador, que só foi reaberta no dia 13 de fevereiro, após ação da polícia. Há também relatos de um grupo de manifestantes armados, que foi desmantelado pela polícia na província de Alberta, na região central do Canadá.

Para conter o avanço das manifestantes, o primeiro-ministro Justin Trudeau, invocou poderes de emergência no dia 14. A medida permite que o governo federal suspenda o poder de província e autorize medidas temporárias para garantir a segurança do país. 

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