Em entrevista, ator usa informações falsas para desincentivar vacinação

Em entrevista, ator usa informações falsas para desincentivar vacinação

Vacina da Pfizer não é 'terapia genética' e não pode ser considerada 'experimental', diferentemente do que diz Felipe Folgosi

Daniel Tozzi Mendes, especial para o Estadão

03 de março de 2022 | 16h26

Um vídeo viral no Facebook compartilha um trecho de uma entrevista com o ator Felipe Folgosi, em que ele usa informações falsas para justificar o porquê de não ter se vacinado contra a covid-19. Ao contrário do que Folgosi afirma na entrevista, os imunizantes não podem ser consideradas uma “terapia genética”. E diferentemente do que dá a entender o entrevistado, mesmo pessoas consideradas saudáveis devem se vacinar. Além disso, até agora, os efeitos adversos registrados foram raros, e os benefícios de se vacinar superam, e muito, seus riscos

Enfermeira segura frascos de vacina Pfizer em 1º de março de 2022 nos Estados Unidos. Foto: AP Photo/Rogelio V. Solis

A entrevista com Felipe Folgosi foi concedida ao “Blá Podcast”, em agosto de 2021. O vídeo que é objeto desta verificação tem pouco mais de dois minutos, foi postado em janeiro de 2022 e segue obtendo alcance ainda hoje. Até o dia 3 de março, o conteúdo tinha alcançado mais de 425 mil visualizações. 

No início da conversa, um dos entrevistadores pergunta se o ator já havia se vacinado. Ele responde que não e, em seguida, os apresentadores perguntam como essa condição interfere no dia a dia dele. Folgosi responde que não se vacinar é uma opção sua, que “quem está vacinado está imune” e que não se imunizar é um risco seu. Na sequência, ele começa a insinuar que as vacinas contra a covid-19 não seriam eficazes e nem seguras. 

O Estadão Verifica procurou o ator Felipe Folgosi por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem. 

Vacinação entre quem não possui comorbidades

No vídeo, Folgosi começa argumentando que, entre pessoas sem comorbidades que pegam covid-19, 99,6% sobrevivem, independentemente de estarem vacinadas ou não. Não foi possível esclarecer se essa estatística se refere a todo o período da pandemia, à população brasileira ou à população mundial, e nem quais comorbidades seriam as citadas pelo ator. De todo modo, a vacinação é incentivada por especialistas e autoridades sanitárias do mundo inteiro, independente das condições de saúde da população. 

Mesmo pessoas sem comorbidades têm riscos ao contrair a covid-19. Nos primeiros meses de 2021, quando a campanha de vacinação estava apenas começando no Brasil, mais de 36% dos mortos pela covid-19 no País não tinham comorbidades registradas, de acordo com números do Ministério da Saúde

Por fim, a vacinação é defendida por especialistas porque é uma estratégia de combate coletivo à pandemia, capaz de reduzir a circulação do novo coronavírus e, consequentemente, o número de infectados. Conforme indica , também, o último levantamento da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) de monitoramento da pandemia, divulgado no último dia 24 de fevereiro, sempre que há uma nova onda de infecções, os indicadores de transmissão da covid-19 tendem a cair, primeiro, em regiões com alta taxa de cobertura vacinal.

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Eficácia das vacinas 

Em seguida, o ator diz que muitas pessoas se infectaram com o novo coronavírus mesmo após terem recebido duas doses dos imunizantes, citando especificamente as vacinas da Pfizer. Mas é preciso lembrar que, como afirmam especialistas e autoridades sanitárias, nenhuma vacina é 100% eficaz. A imunização ajuda a diminuir significativamente a evolução para casos graves da covid-19

De acordo com levantamento feito pelo portal G1, até as primeiras semanas de 2022, a maioria das vítimas da covid-19 no Brasil era de não vacinados. O levantamento compilou dados das secretarias estaduais de saúde do Amazonas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Os dados apontam, por exemplo, que, no Amazonas, de cada 10 mortes registradas, 6 eram de pessoas sem esquema vacinal completo (sem três doses); no Rio de Janeiro, pessoas não vacinadas ou que receberam apenas uma dose tinham 73% mais risco de serem internadas e, no Paraná, a taxa de de mortalidade para a faixa-etária de 12 a 59 anos entre os não vacinados era de 6,59/100 mil habitantes, enquanto que, entre os imunizados com duas doses e com a dose de reforço, na mesma faixa-etária, o índice cai para 0,29/100 mil.

Recentemente, levantamentos nos hospitais Emílio Ribas, em São Paulo, e Ronaldo Gazolla, no Rio de Janeiro, indicaram que a proporção de mortes por covid entre idosos vacinados com três doses cresceu no fim de fevereiro. Segundo pesquisadores ouvidos pelo Estadão, as vítimas eram principalmente idosos que tomaram a terceira dose em novembro, indicando a necessidade de um novo reforço da injeção entre os mais velhos. Os especialistas apontam que há menor eficácia da vacina na população mais idosa, por causa de um fenômeno conhecido como imunosenescência. A proteção concedida pela vacina é menor entre os maiores de 70 anos, e tende a cair depois de quatro a cinco meses da vacinação.

Da mesma forma, nos Estados Unidos, uma pesquisa divulgada pela Casa Branca mostrou que, em meio ao surto da variante Ômicron no país, em duas semanas, a proporção de hospitalizações entre não vacinados subiu de 30 a cada 100 mil habitantes para 80 a cada 100 mil habitantes. No mesmo período, entre os vacinados, o índice subiu de um patamar próximo a 0 para uma proporção ainda inferior a 10 hospitalizações para cada 100 mil habitantes. Também nos Estados Unidos, estudo do Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) de janeiro de 2022 indicou uma chance de óbito por covid-19 53 vezes maior entre não vacinados. 

“Vacinas funcionam no sentido de prevenir a infecção em um número alto de pessoas, mas não todas, afinal, não existe imunizante 100% eficaz ou considerado ‘esterilizante’. O principal papel das vacinas é fazer com que uma pessoa vacinada, mesmo infectada, tenha chance muito maior de sobreviver do que uma não vacinada”, resume o professor Flávio Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

Efeitos adversos

Ao comentar sobre efeitos adversos após a vacinação, Folgosi menciona riscos como o desenvolvimento de trombose, miocardite e de abortos espontâneos em mulheres. Conforme já demonstraram diversas checagens, como esta do projeto Comprova, efeitos adversos após a vacinação são bastante raros e os benefícios de se vacinar superam em muito os riscos.  

Em relação aos efeitos adversos após a vacinação registrados no Brasil, boletim do Ministério da Saúde mais recente que traz dados sobre o tema, publicado em 12 de fevereiro de 2021, mostra que, desde o início da vacinação no País até o dia 31 de dezembro de 2021, em um universo de mais de 295 milhões de doses aplicadas, foram registrados 82 casos de trombose após a vacinação. Desses 82 casos, até o momento, 32 estão classificados como “possíveis”, 23 como “prováveis” e apenas 20 estão classificados como “confirmados”. A incidência de casos reportados de trombose é de 1 a cada 100 mil doses aplicadas (0,001%). 

Sobre casos de miocardite, o boletim do Ministério da Saúde mais recente com dados sobre o tema, publicado em 14 de dezembro de 2021, mostrou que, até aquele momento, 90 notificações de efeitos adversos após a vacinação foram registradas no Brasil com alguma menção à miocardite. Desse total, sete casos evoluíram para óbito, também segundo o Ministério da Saúde. A incidência de casos reportados de miocardite é de 9 a cada 100 mil doses aplicadas (0,009%). 

Por fim, o suposto aumento de “abortos espontâneos” em mulheres grávidas que se vacinaram aparece recorrentemente em peças de desinformação, mas a relação já foi desmentida por estudos científicos, como este, publicado no The New England Journal of Medicine. A pesquisa demonstrou que não há nenhuma evidência de maior risco de aborto entre as mulheres que se vacinaram. Além disso, o Observatório Obstétrico Brasileiro também constatou que mulheres grávidas com covid-19 grave que não se vacinaram têm cinco vezes mais chances de morrer do que as vacinadas. 

Homem recebe vacina Nuvaxovid em Bruxelas, no dia 3 de março de 2022. Foto: NICOLAS MAETERLINCK / various sources / AFP

Vacina ‘experimental’ e terapia genética

Na sequência da argumentação, Folgosi insinua que as vacinas, especialmente a da Pfizer, seriam experimentais e que sequer poderiam ser consideradas “vacinas”, mas sim uma “terapia genética”. “[As vacinas usam] um trecho de RNA que reprograma a sua célula, reprograma a sua síntese proteica. Não é uma vacina”, afirma o ator.

De fato, as vacinas das fabricantes Pfizer e Moderna utilizam uma tecnologia chamada de “RNA mensageiro” que induz a produção da chamada “proteína S”, presente no novo coronavírus e que trazem imunidade à doença. Esse método, no entanto, de acordo com o professor Flávio Fonseca da UFMG, não é “experimental” e não tem nenhuma relação com a chamada “terapia genética”, mas sim, trata-se de uma forma comprovadamente eficaz e segura de se produzir vacinas. 

“As vacinas da Pfizer injetam diretamente no nosso corpo o RNA mensageiro que tem a receita para a construção da proteína S”, explica ele. “Esse RNA mensageiro entra dentro da nossa célula e se liga nas fábricas de proteína das células, os ribossomos. Essa proteína é produzida e, depois de apresentada na superfície da nossa célula, o sistema imunológico reconhece aquela proteína e gera resposta contra ela”.

A técnica utilizada pelas vacinas da Pfizer é diferente de outras vacinas contra a covid-19 aplicadas no Brasil, como a Coronavac (que usa o chamado “vírus inativado”) e os imunizantes da Jansen e Astrazeneca (as chamadas “vacinas de vetor viral”). 

Segundo Fonseca, a técnica da Pfizer realmente passou a ser utilizada em larga escala pela primeira vez no mundo no contexto da pandemia do novo coronavírus, mas já era estudada e testada de forma pré-clínica há anos. “A emergência da covid-19 criou a oportunidade perfeita para emprego dessas novas técnicas vacinais”, explica o especialista.

O professor reitera que não há nenhuma relação dessa técnica com o que é chamado de “terapia genética” ou “gênica”, um procedimento que existe desde a década de 1990 e que está ligado com a inserção de material genético no DNA humano. 

“A terapia gênica é um método para tratar doenças que podem ser causadas pela falta de um gene ou pela presença de um gene defeituoso dentro do nosso organismo”, explica. “Essa terapia consiste, primeiro, em construir um retrovírus (ou seja, um vírus que tem como material genético apenas o RNA) com capacidade de introduzir material genético dentro do DNA das nossas células. Em seguida, o gene defeituoso é colocado dentro do retrovírus, o retrovírus infecta a célula e coloca material genético no DNA da célula, para corrigir aquele gene defeituoso”.

Dessa forma, de acordo com o pesquisador, a vacina da Pfizer não pode ser considerada uma terapia genética justamente porque é feita a partir do RNA, e não do DNA. “E mesmo que a vacina tivesse alguma relação com o DNA, o DNA não tem capacidade de adentrar o núcleo da célula e muito menos de ser integrado ao genoma da nossa célula para realizar qualquer tipo de mutação. Falar que a vacina da Pfizer é terapia genética não passa de falácia”, acrescenta o professor da UFMG. 

Aprovação do FDA

Em outro momento da entrevista, Felipe Folgosi chega a afirmar que as vacinas que ele considera como “terapia genética” (no caso, a da Pfizer) não tiveram aprovação da Food and Drug Administration (FDA), órgão dos Estados Unidos equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil. A vacina da Pfizer, no entanto, já tem registro definitivo junto ao FDA desde agosto de 2021. No Brasil, a Pfizer tem registro definitivo da Anvisa desde fevereiro de 2021. 


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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