Falso boato inventa ‘envenenamento’ de piloto de Eduardo Campos
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Falso boato inventa ‘envenenamento’ de piloto de Eduardo Campos

Texto alimenta teoria envolvendo acidente do presidenciável que circula no Facebook desde 2017 e atribui causa da morte de empresário ao piloto

Paulo Roberto Netto

17 de abril de 2019 | 14h24

Eduardo Campos desembarca do jato Cessna 560XL, Aeronave caiu em Santos (SP) em agosto de 2014. Foto: Rene Moreira / Estadão

O laudo médico de morte por envenenamento divulgado em notícia falsa não é do piloto que transportava o político Eduardo Campos no dia do acidente que o vitimou, em agosto de 2014. O boato de 2017 já teve mais de 100 mil compartilhamentos no Facebook e alimenta teoria sobre a queda da aeronave durante as eleições de 2014, quando Campos concorria à Presidência pelo PSB.

Segundo a notícia falsa, a Polícia Civil de Pernambuco finalizou laudo médico apontando envenenamento por chumbinho como a causa da morte do empresário Paulo Cesar de Barros Morato, descrito como o piloto que transportava Campos. O boato afirma que os policiais investigavam se o caso se tratava de suicídio ou homicídio. A informação é falsa.

O piloto da aeronave Cessna 560 XL era Marcos Martins, e não Paulo Morato. Além dele e Eduardo Campos, também estavam no jato no momento do acidente o copiloto Geraldo Magela, o assessor Pedro Almeida Valadares Neto, o assessor de imprensa Carlos Augusto Ramos Leal Filho, o fotógrafo Alexandre Severo Gomes e Silva e o funcionário de campanha Marcelo de Oliveira Lyra. Todos morreram no acidente.

Não há indícios nem informações oficiais que apontem para suposto envenenamento do piloto cometido por ele mesmo ou por outra pessoa antes ou durante o trajeto do jato entre aeroporto de Santos Dumont (RJ) até o momento da queda, em Santos (SP).

Segundo o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), Marcos Martins “não demonstrava problema de ordem psicológica, familiar ou financeira” à época do acidente.

Documento

O documento de 259 páginas atribui a queda da aeronave a uma série de falhas humanas, como a falta de treinamento de Martins para pilotar o jato Cessna 560 XL, uma tentativa de pouso equivocada e, principalmente, a situação sofrida pelo piloto conhecida como “desorientação espacial”. Ela ocorre quando se perde a referência do avião em relação ao solo e não se sabe em qual direção se está voando.

De acordo com o Cenipa, a desorientação espacial de Martins é perceptível nos últimos segundos antes do acidente, quando ele acredita estar subindo, mas está indo em direção ao solo em alta velocidade. Outros fatores como o tempo fechado e o tipo de pista da Base de Santos também podem ter contribuído para o acidente.

Em nota, a Polícia Federal informa que a conclusão do inquérito sobre a queda e morte de Eduardo Campos não indica “ter havido qualquer infração à legislação penal”, motivo pelo qual solicitou o arquivamento da investigação. A PF listou quatro hipóteses para o acidente: colisão com pássaros, desorientação espacial do piloto, disparo do compensador de profundor ou pane de profundor em posições extremas.

Turbulência. O empresário citado pela notícia falsa, Paulo Cesar de Barros Morato, de fato se matou ingerindo chumbinho, mas ele não era o piloto e nem estava no avião com Campos. Na verdade, Morato era um dos alvos da Operação Turbulência, deflagrada pela Polícia Federal em 2016 para apurar movimentação de R$ 600 milhões na campanha de Eduardo Campos e na aquisição da Cessna 560 XL, que transportava o candidato.

Ele foi encontrado morto no motel Tititi, em Olinda (PE), um dia após a deflagração da Turbulência. Morato era acusado de ser “testa de ferro” de suposta organização criminosa e ter contas bancárias pelas quais passaram R$ 18 milhões em depósitos feitos pela empreiteira OAS. O suicídio por envenenamento foi confirmado em laudo da Polícia Civil de Pernambuco.

A Turbulência levou o Ministério Público a denunciar dezoito pessoas por crimes contra o sistema financeiro, pagamento de propinas e lavagem de dinheiro procedente de obras públicas superfaturadas. No entanto, os processos foram arquivados pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região por falta de provas.