Para atacar arcebispo de Aparecida, postagem cita doação transportada pelo Exército em março

Para atacar arcebispo de Aparecida, postagem cita doação transportada pelo Exército em março

Ação solidária foi organizada por empresários, com produtos arrecadados pela Ceagesp, sete meses antes do sermão de Dom Orlando Brandes contra desarmamento; foto usada em post viral é de outra doação de alimentos, em Itu

Samuel Lima

22 de outubro de 2021 | 14h30

Circula nas redes sociais um post afirmando que o Exército Brasileiro, que representaria a vontade do presidente Jair Bolsonaro, teria levado 300 toneladas de alimentos para o município de Aparecida, no interior de São Paulo. A intenção é atacar o arcebispo da Igreja Católica Dom Orlando Brandes, que fez um apelo ao desarmamento e criticou a disseminação de fake news em uma missa no Dia da Padroeira.

A postagem com 9,4 mil compartilhamentos no Facebook diz que, enquanto Brandes critica a facilitação do acesso a armas, o “Exército Brasileiro de Jair Messias leva 300 toneladas de comida para o povo daquela cidade que vive em volta da Basílica”. A foto usada para ilustrar o post, no entanto, é de uma doação feita à cidade de Itu. O Exército ajudou no transporte de alimentos a Aparecida em março, mas a ação solidária foi organizada por empresários.

 

A doação a que o post faz referência ocorreu em 25 de março deste ano — ou seja, quase sete meses antes da fala de Dom Orlando. A doação não foi feita pelo Exército, e sim por empresários, comerciantes e funcionários da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), mas os militares de fato ajudaram na distribuição. A origem é um banco de alimentos da empresa pública federal, que arrecadou os produtos em 13 entrepostos do Estado.

Em resposta ao Estadão Verifica, o Comando Militar do Sudeste afirmou que foram transportadas 223 toneladas de alimentos para o município de Aparecida, com o objetivo de atender 26 mil pessoas em situação de vulnerabilidade social. A página oficial do CMSE menciona que foram empregadas 11 viaturas e 22 militares na operação, que ocorreu durante a madrugada de 25 de março.

Já a origem da foto que acompanha a mensagem não tem qualquer relação com a cidade e pode ser facilmente verificada em uma placa que aparece no prédio ao fundo, de onde os militares retiram os sacos para abastecer os caminhões. A imagem mostra a fachada do Fundo Social de Solidariedade de Itu, que fica a cerca de 260 quilômetros de Aparecida.

Por meio de uma busca reversa de imagem no Google, a reportagem chegou a um texto divulgado pela Prefeitura de Itu em 24 de abril de 2020. Assim como no caso de Aparecida, os militares apoiaram a logística de transporte das cestas básicas. Os kits, cerca de 600 naquela etapa, foram arrecadados pelo Fundo Social e pela Secretaria Municipal de Promoção e Desenvolvimento Social.

Texto divulgado pela Prefeitura de Itu, em 24 de abril de 2020. Foto: Reprodução / Prefeitura de Itu

Além da doação organizada pela Ceagesp, o Estadão Verifica encontrou registro da entrega de 350 toneladas de alimentos a Aparecida por um projeto do governo federal chamado “Brasil Fraterno”, no dia seguinte, 26 de março.

O Ministério da Cidadania disse que a ação ocorreu na cidade “pela situação de calamidade relatada pelo prefeito” com a redução da circulação de turistas na cidade-santuário durante a pandemia de covid-19. Essa ação é coordenada pelo programa Pátria Voluntária, presidido pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

O Estadão entrou em contato com a Prefeitura e com a Arquidiocese de Aparecida e questionou sobre a doação de alimentos e a promoção de ações semelhantes pela Igreja Católica no município. 

Em nota, a gestão do prefeito Luiz Carlos de Siqueira, conhecido como Piriquito, disse que a cidade recebeu contribuições de vários lugares depois que houve um apelo para socorrer comunidades que perderam renda com a paralisação do turismo religioso em Aparecida. A Prefeitura confirmou as doações da Ceagesp, com participação do Exército, e do “Brasil Fraterno”.

Em relação à Arquidiocese, a Prefeitura relatou que o Santuário Nacional é o “maior gerador de postos de trabalho da cidade” e “conta com pelo menos sete obras sociais que têm por intuito investir na transformação social e humana da população mais vulnerável da cidade e região”. 

A Arquidiocese não retornou o contato até a publicação desta checagem. O arcebispo não foi localizado.

‘Pátria amada não pode ser pátria armada’

Durante o sermão no dia de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro, o arcebispo Dom Orlando Brandes disse a frase “Para ser pátria amada não pode ser pátria armada”, em uma sinalização de que não concorda com o acesso ampliado de armas de fogo a civis do País. “Que seja uma Pátria sem ódio, uma República sem mentira e sem fake news”, completou. Ele defendeu ainda a vacina e a ciência, mas em nenhum momento citou as Forças Armadas. O trecho pode ser visto em uma transmissão do Santuário Nacional de Aparecida no YouTube, a partir de 1h20min.

Grupos e políticos que defendem a facilitação do acesso a armas de fogo responderam ao arcebispo. O presidente Jair Bolsonaro disse que respeita  a posição de Dom Orlando, diferente da sua, e depois comparou a política de facilitação de regras para a obtenção de armas como uma defesa da “liberdade”

Já o deputado estadual Frederico D’Avila (PSL-SP) gerou reação da Igreja Católica ao chamar o arcebispo e o Papa Francisco de “vagabundos”, “safados” e “pedófilos” na tribuna da Assembleia Legislativa. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou uma carta pedindo punição da Alesp ao deputado, que depois reconheceu ter se “excedido” na fala.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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