Estudo citado por Bolsonaro para criticar uso de máscaras é falho e chegou ao presidente graças a postagem de médico negacionista da pandemia

Pesquisa de universidade da Alemanha apresenta metodologia pouco confiável que envolve questionário na internet, percepção subjetiva dos pais, amostra enviesada e ausência de grupo controle

Samuel Lima e Gabi Coelho, especial para o Estadão

26 de fevereiro de 2021 | 18h13

O estudo alemão citado pelo presidente Jair Bolsonaro para criticar supostos efeitos colaterais do uso de máscaras em live na quinta-feira, 25 de fevereiro, é uma análise de pouco rigor científico e incapaz de comprovar relação com os problemas mencionados em crianças. O artigo também não foi revisado por pares, nem publicado em revistas científicas até o momento. 

Evidências apontam que, nesse mais recente ataque ao uso de máscaras, Bolsonaro se baseou em um tuíte de um médico negacionista chamado Alessandro Loiola, que já foi alvo de quatro verificações do Projeto Comprova por espalhar informações falsas e é autor de um livro chamado “Covid-19: a fraudemia”, um compêndio de teses anticientíficas e teorias conspiratórias. 

Especialistas ouvidos pelo Estadão apontam que é pouco confiável a metodologia da pesquisa, na qual pais de crianças que supostamente usam máscaras foram convidados a preencher um questionário na internet. Eles destacam ainda que os principais órgãos de saúde continuam recomendando o uso de máscaras como forma de proteger as crianças do contágio pelo novo coronavírus, inclusive na própria Alemanha.

Em vídeo para seguidores em redes sociais, Bolsonaro afirmou que um estudo de uma universidade alemã teria associado o uso de máscaras em crianças a fatores como “irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração, diminuição da percepção de felicidade, recusa de ir para a escola, desânimo, vertigem e fadiga”. Esses itens, escritos da mesma forma, foram enumerados pelo negacionista Alessandro Loiola no Twitter na quarta-feira, véspera da performance de Bolsonaro. “Após avaliar o uso contínuo de máscaras em 25.930 crianças, pesquisadores alemães da Witten/Herdecke University descobriram que 68% delas apresentavam algum tipo de problema relacionado ao acessório”, escreveu Loiola. A declaração é enganosa: os pesquisadores não avaliaram as crianças, apenas coletaram testemunhos das pessoas que responderam ao questionário na internet.

“Não vou entrar em detalhe porque tudo deságua em crítica em cima de mim”, disse Bolsonaro, no vídeo, depois de ler os dados em uma folha de papel. “Eu tenho a minha opinião sobre máscara, e cada um tem a sua. Mas a gente aguarda um estudo mais aprofundado sobre isso por parte de pessoas competentes.” No dia em que o vídeo foi transmitido, o Brasil registrou recorde de mortes diárias desde o início da pandemia.

O estudo em questão foi divulgado por cinco pesquisadores na plataforma Research Square em formato de pre print — ou seja, antes de passar pela revisão de outros pesquisadores da área e sem ter sido publicado em nenhuma revista científica. Os próprios editores da plataforma colocam um aviso no documento de que “devido a múltiplas limitações, esse estudo não é capaz de demonstrar uma relação causal entre o uso de máscaras e os efeitos adversos reportados em crianças”. A nota afirma ainda que “o uso de máscaras, juntamente com outras medidas de precaução, reduz significativamente a propagação de covid-19, e é considerado seguro para crianças com idade superior a dois anos”.

Os pesquisadores da Universidade de Witten/Herdecke obtiveram os supostos dados de 25.930 crianças por meio de questionários preenchidos voluntariamente pelos pais, pela internet, em outubro do ano passado. Eles concluem que 68% deles identificaram algum problema causado pelo uso de máscaras, como aqueles citados por Bolsonaro, com diferentes percentuais para cada caso. O problema é que esse resultado pode ter sido influenciado pela amostra e não permite concluir se as máscaras tiveram de fato alguma participação nos sintomas.

Os próprios cientistas apontam que os formulários foram distribuídos em fóruns de redes sociais que, em princípio, “criticam as medidas adotadas pelo governo para proteção contra o coronavírus”  – grupos em que há forte viés antimáscaras. Além disso, escrevem os autores, pais de crianças que não percebem mudanças de comportamento “têm menos probabilidade de participar desta pesquisa”. No meio científico, essa interferência é chamada de viés de amostragem e representa um grave erro metodológico que compromete a validade dos dados.

 “O trabalho é interessante, mas é cheio de problemas”, afirma o médico infectologista pediátrico do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) Marcio Nehab. “Pedir a impressão dos pais sobre o assunto é muito subjetivo.” O médico ressalta que, quando questionados pelos pais, os filhos que detestam usar máscara podem relatar sintomas inexistentes apenas para se ver livres dela. Nehab afirma ainda que essa é uma das poucas formas eficazes de evitar o contágio nessa faixa etária atualmente. “Eles não têm outro tipo de proteção além de máscara, higiene das mãos e distanciamento social.”

Nehab desconhece estudos robustos que demonstrem riscos do uso de máscaras pelas crianças e destaca que os principais órgãos de saúde recomendam essa utilização, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, o Centro Europeu de Prevenção e Controle das Doenças (ECDC) e o próprio governo da Alemanha. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) orienta que os pais incentivem a adesão a partir de dois anos de idade.

Ana Escobar, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), também avalia que o estudo é falho e “não comprova absolutamente nada”. Segundo ela, para determinar os supostos efeitos colaterais, a pesquisa precisaria monitorar grupos de crianças que usam ou não o material, com diferentes faixas etárias e estratos socioeconômicos, e depois comparar os resultados. Ela afirma ainda que a eficácia das máscaras já foi comprovada pela ciência e independe da idade. Não faz sentido, portanto, contraindicar o uso com base em dados pouco conclusivos.

A organização norte-americana Health Feedback, formada por especialistas da área da saúde que verificam alegações com base na ciência, também sugere uma série de limitações do artigo, entre elas a ausência de grupo controle. “Por causa disso, é impossível determinar se os efeitos adversos reportados estão relacionados ao uso de máscaras ou ocorreriam de qualquer maneira mesmo se as crianças não as estivessem usando”, mostra o texto.

 

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