Post distorce fala de Gilberto Gil para menosprezar novo eleito da Academia Brasileira de Letras

Post distorce fala de Gilberto Gil para menosprezar novo eleito da Academia Brasileira de Letras

Crítica ao cantor menciona um suposto erro de português em rede nacional que, na verdade, não existe

Samuel Lima

23 de novembro de 2021 | 10h00

Uma postagem enganosa acumulou mais de 4,3 mil compartilhamentos no Facebook ao registrar um suposto erro de português do cantor e compositor Gilberto Gil em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo. A intenção é criticar a sua eleição recente para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Quem erra, porém, é o autor do post: a frase dita por Gil está correta.

“Para mim, chegar lá e estar indo para lá não está mudando muita coisa”, responde o artista sobre ter se tornado imortal, em uma conversa informal com a jornalista Poliana Abritta. “Não deve mudar, a não ser esse sentimento profundo de gratidão à vida por me proporcionar coisas desse tipo”. A entrevista na íntegra pode ser vista no site do G1.

O post viral sustenta que o trecho inicial da fala — “para mim chegar lá”, reproduzido sem vírgula — seria um equívoco, o que é falso. E sugere que, por esse motivo, Gil não seria qualificado para a ABL. 

A construção só estaria incorreta se o pronome oblíquo “mim” estivesse desempenhando a função de sujeito na frase. Em uma situação como essa, a palavra deve ser substituída pelo pronome pessoal do caso reto (“eu”). Um exemplo corriqueiro é a expressão “para eu fazer”.

Porém, isso não se encaixa na afirmação de Gil. A frase apenas está invertida, com a ordem direta deixando tudo mais claro: “Chegar lá e estar indo para lá não está mudando muita coisa para mim”. O termo, portanto, funciona como complemento e está empregado conforme a norma padrão da língua portuguesa.

Imortal da ABL

Gilberto Gil foi eleito para a cadeira nº. 20 da Academia Brasileira de Letras, em 11 de novembro de 2021, aos 79 anos. Gil ocupou a vaga deixada pelo advogado, escritor e jornalista Murilo Melo Filho, falecido em maio de 2020, e se tornou assim o segundo imortal negro da formação atual da ABL, entre 40 integrantes da instituição.

O soteropolitano passou a infância em Ituaçu, no interior da Bahia, onde o pai exercia a medicina, mas começou de fato sua carreira artística em Salvador. Foi um dos criadores do movimento tropicalista, venceu diversos prêmios, tornou-se uma das vozes mais marcantes da música popular brasileira e virou símbolo de resistência contra a ditadura militar no Brasil.

Fora dos palcos, teve atuação política. Foi vereador e depois ministro da Cultura no governo Lula (PT), entre 2003 e 2008; nomeado pela Unesco como Artista pela Paz; e embaixador da ONU para agricultura e alimentação, entre outros projetos. Ele também apresentou produção literária escrita ao longo da carreira, apesar de não ser esta a sua principal atividade.

Sua nomeação ocorreu poucos dias após a eleição da atriz Fernanda Montenegro para a instituição, outra personalidade que também não trilhou sua trajetória por meio da literatura. Em entrevista ao Estadão, o cantor disse que a sua escolha mostra uma ABL “mais pop”.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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