Entrevista antiga de senadores sobre Toffoli e Moraes circula sem contexto

Entrevista antiga de senadores sobre Toffoli e Moraes circula sem contexto

Vídeo com senadores Alessandro Vieira e Randolfe Rodrigues ainda está disponível publicamente na TV Senado, ao contrário do que alegam postagens

Pedro Prata

28 de abril de 2022 | 11h56

Circula fora de contexto um vídeo antigo no qual os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Alessandro Vieira (PSDB-SE) fazem críticas ao inquérito das fakes news. O vídeo é compartilhado no WhatsApp com uma legenda que diz que o vídeo teria sido reproduzido pela TV Senado “hoje de manhã”, sem informar a real data da gravação. Também fala que o Senado teria “intimado” todos os telejornais a retirarem o vídeo, o que teria causado uma remoção das falas “até mesmo do YouTube”.

Entrevista é antiga e permanece disponível publicamente. Foto: Reprodução

As alegações que sugerem uma conspiração para esconder o posicionamento dos senadores é falsa. Um vídeo gravado de outro ângulo, no qual os mesmos parlamentares fazem alegações semelhantes, ainda permanece disponível no site da TV Senado, onde foi postado em 17 de abril de 2019. Alessandro Vieira estava anunciando que apresentaria uma denúncia de crime de responsabilidade contra Dias Toffoli e Alexandre de Moraes por, respectivamente, ordenar a abertura e conduzir um inquérito que apurava ofensas, em ambiente digital, a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Confira:

No site da TV Senado há também uma reportagem explicando que Vieira acreditava que os ministros cometeram abuso de poder ao “instaurar um inquérito e executar medidas judiciais por conta própria”, sem a participação do Ministério Público. “Eles avançaram qualquer linha razoável na democracia. Abusaram flagrantemente do poder que têm para constranger denunciantes e críticos”, disse Vieira.

O inquérito causou polêmica quando Moraes determinou a retirada do ar de uma reportagem da revista Crusoé sob acusações de que ela estaria passando uma notícia falsa sobre o ministro Dias Toffoli. Posteriormente, a veracidade da informação foi reconhecida e a decisão judicial, retirada.

Por meio de nota, Alessandro Vieira disse ao Estadão Verifica que o vídeo é antigo mas que seu posicionamento “continua exatamente o mesmo”. No entanto, lembra que o inquérito foi legitimado no plenário do STF (saiba mais abaixo). “Então o caminho passa a ser uma emenda à Constituição que defina com maior clareza os limites de atuação em casos similares. Na democracia é preciso contar com equilíbrio entre os Poderes.”

Entrevista antiga de Randolfe viraliza

No texto da TV Senado é possível ver que Randolfe Rodrigues realmente apoiou a ação contra os ministros do STF. O senador pertence ao partido Rede, responsável por questionar a constitucionalidade do inquérito no plenário do STF. Por 10 votos a 1, a turma de ministros deu aval à continuidade das investigações. Único voto contrário, Marco Aurélio Mello considerou ser ilegal que o processo tenha sido instaurado pelo próprio Supremo, sem ser provocado pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Outro vídeo que voltou a viralizar sobre o assunto mostra Randolfe chamando o inquérito que tramitava no STF de “retrocesso completo, ofensa à ordem jurídica e constitucional do Brasil”. A entrevista foi concedida ao canal Jovem Pan.

As postagens acrescentam uma legenda ao vídeo que questiona “Ué, o que será que aconteceu para o senador mudar de ideia tão rapidamente?”, referindo-se ao fato de ele ter mudado seu posicionamento com relação ao inquérito. Isso porque o inquérito das fake news, como ficou conhecido, acabou investigando empresários e blogueiros ligados ao presidente Jair Bolsonaro (PL), além de deputados de sua base mais fiel.

Por meio de nota, Randolfe Rodrigues disse ao Estadão Verifica que à época da fala havia controvérsia, do ponto de vista jurídico, na instauração do inquérito, mas que atualmente ele acredita que Alexandre de Moraes estava correto. “Hoje, esse inquérito das fake news e o dos atos antidemocráticos, são os últimos instrumentos de defesa da democracia brasileira e de combate às hostes criminosas de Bolsonaro e de seus lacaios.”

Fique de olho

Conteúdos com expressões imprecisas, como “aconteceu hoje de manhã”, sem uma data específica, permitem que um conteúdo continue se espalhando por muito tempo. Os comentários nas postagens mostram que os usuários se confundiram, acreditando ser um vídeo recente. Uma pessoa escreveu que “As coisas estão mudando”, enquanto outra citou as eleições deste ano e a atuação de Vieira na CPI da Pandemia – posterior ao vídeo (veja aqui e aqui).

Além disso, a postagem analisada também convida a “repassar sem dó”. Esse tipo de expressão é utilizado para apelar ao sentido de urgência para que quem recebe a mensagem compartilhe rapidamente e não tenha tempo de pesquisar se o conteúdo é verdadeiro.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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