Em CPI, ministro da Saúde faz comparação enganosa ao citar ranking de vacinação
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Em CPI, ministro da Saúde faz comparação enganosa ao citar ranking de vacinação

Usando números absolutos, que desconsideram o tamanho da população, Marcelo Queiroga disse que Brasil está entre os países que mais vacinam contra covid; pelo mesmo critério, está entre os que têm mais pessoas não imunizadas

Alessandra Monnerat, Pedro Prata, Samuel Lima e Victor Pinheiro

08 de junho de 2021 | 12h54

Atualizada às 19h12 com resposta do Conass a respeito da distribuição de testes rápidos.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, voltou ao Senado nesta terça-feira, 8, para depor na CPI da Covid. Leia abaixo a checagem do Estadão Verifica. 

Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, depõe na CPI da Covid pela segunda vez. Foto: Dida Sampaio/Estadão

“O Brasil, no ranking mundial da Our World in Data, é o terceiro país que mais aplicou a primeira dose de vacina: Estados Unidos, Índia e Brasil”

O ministro, seguindo o exemplo do presidente Jair Bolsonaro, cita dados sem contexto para difundir a versão fantasiosa de que o Brasil está entre os países mais eficientes na vacinação contra covid-19. Ao usar o ranking de números absolutos e exaltar o fato de “o Brasil é o terceiro país que mais aplicou a primeira dose da vacina”, Queiroga não traz nenhuma informação relevante sobre a qualidade de nosso programa de vacinação. Em números absolutos, o Brasil também está entre os países com maior número de pessoas sem nenhuma dose da vacina (é o sexto da lista, com cerca de 163,7 milhões). Isso decorre principalmente do fato de que o Brasil tem uma das maiores populações do mundo.  Quando se considera a vacinação em termos proporcionais, o Brasil é o 50º país que mais aplicou a 1ª dose (23% da população) e o 57º que mais aplicou a 2ª dose (11% da população). Os dados são da plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford.

 

“Foram distribuídos 3 milhões de testes para Estados e municípios” (respondendo a pergunta sobre a nova estratégia do ministério de distribuição de testes rápidos)

É verdade. O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) confirmou que os 3 milhões de testes rápidos foram distribuídos para as superintendências estaduais do ministérios e serão entregues às Secretarias Estaduais de Saúde.

Na plataforma Localiza SUS, é informado um número menor de testes distribuídos. O sistema registra a distribuição de 712 mil testes rápidos durante a gestão de Queiroga. Os dados da plataforma apontam queda constante desde março.

Número de testes rápidos distribuídos de março a junho. Fonte: Localiza SUS

Número de testes distribuídos de março a junho

Fonte: Localiza SUS

O Localiza SUS apresenta o número de 6 milhões de testes distribuídos desde março, considerando todos os tipos de exame. Desde o começo da pandemia no País, em fevereiro de 2020, o site informa que foram entregues 32,2 milhões de testes. Destes, 20,5 milhões foram do tipo RT-PCR, considerado o padrão-ouro para diagnóstico, e 11,7 milhões do tipo teste rápido.

 

“Aqueles policiais que estão na linha de frente já são considerados grupos prioritários, e 40% deste grupo prioritário já recebeu doses de vacinas”

A porcentagem citada pelo ministro é imprecisa. Segundo dados do LocalizaSUS, 55,5% do grupo prioritário de forças de segurança foi vacinado com uma dose e 16,7% com duas doses.

O Plano Nacional de Vacinação, atualizado em maio, coloca forças de segurança e salvamento (604.511 pessoas) e forças armadas (364.631 pessoas) como grupo prioritário para a vacinação. Em 31 de março, o Ministério da Saúde emitiu nota técnica na qual determinava o início da vacinação escalonada dessas categorias, restrito inicialmente aqueles profissionais envolvidos no combate à covid-19. O restante dos profissionais deve ser vacinado conforme as outras regras para o avanço da campanha.

O LocalizaSUS traz dados sobre as doses aplicadas em equipes de salvamento e as forças de segurança. O painel não informa qual percentual dos vacinados pertence ao grupo prioritário. Os dados mostram que até esta terça-feira, 8, foram distribuídas 335.872 injeções em 1ª dose e 101.505 em 2ª dose para forças de segurança e salvamento. Dessa forma, calculamos as porcentagens de que 55,5% deste grupo já foi vacinado com ao menos uma dose e 16,7% com duas doses.

 

“Na Copa das Américas, são 650 indivíduos envolvidos, entre jogadores e comissão técnica. Não é uma população grande”

Queiroga subestima o número de pessoas envolvidas com a Copa América. O ministro repetiu uma estimativa feita em uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira, 7 de junho. O número de 650 indivíduos é feito com base na delegação de atletas e comissão técnica das 10 seleções sul-americanas. Queiroga ignora, porém, que o evento envolve outros atores, como profissionais de apoio, dirigentes e jornalistas.

Apenas o staff da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) é formado por outras 450 pessoas nas quatro cidades-sede. A informação é dada na mesma coletiva pelo coordenador operacional da competição, André Pedrinelli, após comentários iniciais de Queiroga sobre o protocolo de segurança da competição. 

A Copa América também registra 2.300 jornalistas credenciados para a cobertura, de acordo com o colunista Ancelmo Gois, do jornal O Globo.

 

(Respondendo a perguntas sobre realização da Copa América) Eu pedi à diretora do Departamento de Ciência e Tecnologia para fazer uma revisão sistemática da literatura e, nessa revisão sistemática que eu posso passar para os senhores, não consta  que essa prática aumente o risco de circulação do vírus que possa colocar em risco a vida dos jogadores ou a vida dos membros da comissão técnica”

Falta contexto à fala do ministro. Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que a incidência de infecção pelo novo coronavírus entre os atletas da Federação Paulista de Futebol (FPF) durante a temporada de 2020 foi de 11,7% – um índice equivalente ao de profissionais de saúde que atuam na linha de frente do combate à pandemia.

Para chegar a esse número, os autores analisaram retrospectivamente quase 30 mil testes de RT-PCR aplicados em 4.269 atletas ao longo de oito torneios no Estado de São Paulo. As informações foram divulgadas pela Agência Fapesp, em 30 de março de 2021. Os dados ainda são preliminares e não passaram pela revisão de outros cientistas.

Em contrapartida, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) divulgou relatório, em 10 de março, sustentando que a atividade é segura e afirmando que não existem evidências de contaminação cruzada em campo, com base no resultado de 89.052 testes e 13.237 atletas monitorados em torneios masculino, feminino e de categorias de base.

De acordo com levantamento do site GloboEsporte.com, apenas nos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol, houve 320 casos de atletas e 18 técnicos contaminados pelo novo coronavírus em 2020.

O Estadão Verifica não encontrou a revisão sistemática citada pelo ministro.

 

Senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP): “Senhor ministro, só para o seu conhecimento, segundo informações, o Campeonato Brasileiro do ano passado teve 320 casos de Covid, entre atletas e técnicos”

Queiroga: “Transmissão em campo, um caso, senador Randolfe Rodrigues”

De fato, como mencionado anteriormente, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) divulgou em março deste ano que não identificou transmissão de covid-19 entre jogadores em campo. Mas, como pontuou Randolfe, isso não quer dizer que nenhum integrante de clube tenha se infectado durante o Brasileirão. De acordo com levantamento do site GloboEsporte.com, foram 320 casos entre atletas e técnicos. Os times com mais atletas afetados foram Vasco, Fluminense, Palmeiras e Santos. Nesse sentido, é importante notar que a realização do campeonato não compreende apenas os 90 minutos de partida, mas também inclui deslocamentos para jogos e treinamentos.

 

Senador Eduardo Braga (MDB-AM): “Os clubes da Taça Libertadores estão vacinados?”

Queiroga: “Não, não estão vacinados. Todos os clubes não estão vacinados”

A Conmebol anunciou, em abril, o início da distribuição de 50 mil doses de vacinas doadas pelo laboratório chinês Sinovac. Uma reportagem do Estadão mostra que, no mês seguinte, ao menos quatro equipes participantes de torneios da organização foram vacinadas, entre elas o Independiente Santa Fé, da Colômbia, que integrou o grupo D da Copa Libertadores da América.

A iniciativa divide opiniões de clubes brasileiros, mostra um artigo do GloboEsporte. O Atlético Mineiro sinalizou publicamente apoio ao programa da Conmebol. Por outro lado, Santos e Fluminense se opuseram por considerar “desumano” e “antipático” priorizar a vacinação de jogadores de futebol. 

 

“Desse total de 105 milhões de doses distribuídas, 71,7 milhões já foram aplicadas. Trinta por cento da população vacinável, ou seja, aqueles acima de 18 anos, que perfazem aproximadamente 60 milhões de habitantes do Brasil, já receberam a primeira dose da vacina. Isso, 48,8 milhões de habitantes. E 22,9 milhões tomaram a segunda dose; portanto 14,3% da população vacinável já recebeu a vacina”

De acordo com levantamento do consórcio de veículos de imprensa, com base em dados das Secretarias Estaduais de Saúde, 49.584.110 de pessoas foram vacinadas com a primeira dose até segunda-feira, 7 de junho de 2021, o que representa 23,42% da população brasileira. Entre esse grupo, 23.026.633 pessoas também receberam a segunda dose, o equivalente a 10,87% dos habitantes do País.

Queiroga fala em “população vacinável” para melhorar os dados — cálculo que não leva em conta menores de 18 anos, que não fazem parte hoje do programa de imunização contra a covid-19. O Ministério da Saúde trabalha com o número de aproximadamente 160 milhões de brasileiros, conforme nota recente da pasta. Dessa forma, a campanha atingiu 30,93% desse público com a primeira dose e 14,37% com a segunda aplicação.

De acordo com estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua Trimestral, o Brasil contava com cerca de 212 milhões de habitantes no primeiro trimestre de 2021 — sendo que 47,4 milhões de pessoas têm entre 0 e 17 anos.

Nas suas declarações, o ministro se baseia em informações oficiais dispostas na plataforma Localiza SUS. Essa fonte indica 48,8 milhões de brasileiros vacinados com a primeira dose e 22,9 milhões com a segunda dose, como dito na CPI da Covid.

 

“82% dos indígenas tomaram a primeira dose e 71% dos indígenas tomaram a segunda dose – e aqui eu me refiro aos indígenas aldeados, não é?”

Os dados coincidem com informações da plataforma Localiza SUS, do Ministério da Saúde, atualizadas na tarde desta segunda-feira, 7. De acordo com a pasta, de 408 mil indígenas que compõem o público-alvo de vacinação, mais de 333 mil receberam a primeira dose de imunizantes contra a covid, enquanto 288 mil foram submetidos à segunda aplicação.

 


Estadão Verifica entrou em contato com o Ministério da Saúde sobre esta checagem e atualizará o texto quando houver resposta.

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