Vídeo espalha informações incorretas sobre a economia de Brasil e Estados Unidos

Vídeo espalha informações incorretas sobre a economia de Brasil e Estados Unidos

Não é verdade que previsão do PIB brasileiro passou de -2% para 3% este ano, nem que os norte-americanos estejam em recessão

Samuel Lima

24 de julho de 2022 | 07h30

Circula nas redes sociais trecho de um comentário de um programa de debates que contém informações incorretas a respeito de resultados e projeções para a economia de Brasil e Estados Unidos. O conteúdo acumulou mais de 245 mil visualizações e 21 mil compartilhamentos no Facebook esta semana, impulsionado por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Parte das informações realmente faz sentido, como o fato de os Estados Unidos terem registrado o maior índice de inflação em 41 anos e a tendência de queda na taxa de desemprego do Brasil nos últimos meses. Mas a comentarista, da TV Pampa, do Rio Grande do Sul, também espalha projeções inexistentes para o Produto Interno Bruto (PIB), confunde exportações com investimentos e erra ao afirmar que os norte-americanos estariam em recessão. Confira a checagem completa abaixo.

Projeções do PIB

A comentarista da TV Pampa alega que analistas supostamente estimaram um aumento de 2% no PIB dos Estados Unidos, mas hoje estariam projetando queda de 2%. A situação no Brasil seria inversa: o mercado financeiro teria previsto queda de até 2% do PIB, mas hoje revisou esses relatórios para um suposto crescimento de 3% neste ano.

No caso dos Estados Unidos, as principais fontes mantêm até o momento uma previsão de alta no PIB em 2022. O Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou, em 12 de julho, estimativa de crescimento norte-americano de 2,3% este ano e 1% em 2023. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima 2,5% este ano e 1,1% no próximo. A agência S&P acredita em alta de 1,4% e 1,3%, respectivamente.

O Brasil tem melhorado as perspectivas para o PIB, mas a reversão de cinco pontos porcentuais alegada na gravação é fantasiosa. Nem o Ministério da Economia prevê crescimento de 3% este ano — o boletim mais recente fala em 2%. Outras instituições projetam cenários menos otimistas, como 1,8% do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 1,75% do relatório Focus do Banco Central e 1,5% do Banco Mundial. Sobre a suposta projeção de queda de 2% que teria sido feita por analistas anteriormente, o blog não encontrou dados que sustentem essa alegação.

A comentarista afirma ainda que o Banco Central “está mostrando claramente” que a inflação nos próximos meses tende a diminuir. A estimativa atual é de que o Brasil termine o ano com uma inflação acumulada de 8,8%, o que representa um percentual mais baixo do que maio (11,7%), mas ainda acima do teto estipulado pelo BC (5%) e do centro da meta (3,25%). Além disso, o boletim mais recente trouxe uma estimativa para este ano 2,5 pontos porcentuais acima do que era projetado em março. 

Para conter a inflação, o Banco Central vem aumentando a taxa básica de juros desde março de 2021 — a Selic passou de 2% para 13,25% no período.

Estados Unidos não estão em recessão

A inflação nos Estados Unidos chegou a 9,1% no acumulado de 12 meses, o maior índice registrado em 41 anos. Em junho, o Federal Reserve anunciou alta de 0,75 ponto porcentual nos juros, para a faixa de 1,5% a 1,75% — foi a maior revisão desde 1994, em uma tentativa de controlar a alta geral nos preços. 

No entanto, ao contrário do que é dito no vídeo, os Estados Unidos não estão em recessão. Houve uma queda de 1,6% no PIB no 1º trimestre do ano, mas a economia norte-americana cresceu 6,9% no 4º trimestre de 2021. Fala-se em recessão técnica quando há retração em dois trimestres consecutivos, o que não é o caso, enquanto o conceito de recessão de fato pode englobar ainda outros fatores além do desempenho do PIB, como a atividade industrial e a situação do mercado de trabalho. 

Há instituições financeiras, como o Bank of America, que acreditam no risco de uma recessão nos Estados Unidos em 2023, e um indicador do Federal Reserve de Atlanta aponta que a economia pode ter encolhido 1% no 2º trimestre deste ano, o que configuraria recessão técnica. Até o momento, no entanto, os dados oficiais disponíveis não sustentam a alegação.

China e Alemanha

A comentarista acerta ao dizer que a China teve retração econômica em função da política de lockdowns e “covid zero”. O PIB da China teve queda de 2,6% no 2º trimestre deste ano, em comparação com os três meses anteriores. Na base anual, quando se compara com o mesmo trimestre do ano passado, o resultado é positivo em 0,4%. A desaceleração econômica está relacionada com lockdowns em abril e maio para conter a propagação da covid-19, mas a conjuntura global também é citada entre os fatores que explicam o desempenho recente abaixo do esperado da economia chinesa.

Em relação à Alemanha, as autoridades alertaram a população sobre a possibilidade de racionamento de gás, em um plano de emergência criado por conta dos temores de interrupção do fornecimento do gasoduto Nord Stream, operado pela Rússia. Da mesma forma, houve relatos de falta de alimentos em supermercados em março porque as pessoas estavam receosas do agravamento da guerra da Rússia contra a Ucrânia e fizeram estoques em suas casas. Esses dois fatores são de difícil comparação com a realidade brasileira.

Preço da gasolina

Ao comemorar uma legislação aprovada no Congresso que estabelece um teto para o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) nos combustíveis, a comentarista exagera o impacto da medida. Na média brasileira, a gasolina estava sendo vendida a R$ 6,07 na semana de 10 a 16 de julho, segundo relatório mais recente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), e não a R$ 5,39. É verdade, por outro lado, que o litro havia sendo comercializado a mais de R$ 7 — no final de julho deste ano, o preço médio era de R$ 7,39.

A informação sobre um suposto represamento de reajustes de preços pela Petrobras está desatualizada. O governo federal pressionou a empresa a reduzir o preço de venda dos combustíveis nas refinarias após queda no preço internacional do petróleo, alegando que a empresa praticava preço na gasolina R$ 0,31 por litro acima do valor de paridade de importação quando o petróleo tipo brent se aproximou da marca de US$ 100. Em 19 de julho, a petrolífera anunciou redução de 4,9% na cotação da gasolina, com expectativa de baixar em R$ 0,20 o preço do combustível nas bombas.

Taxa de desemprego

O programa da TV Pampa espalha que o Brasil está gerando empregos “na contramão do mundo”, mas essa informação também é imprecisa. A taxa de desemprego vem caindo no Brasil, mas essa tendência também aparece na média global com o avanço da vacinação contra a covid-19 e a retomada da atividade econômica.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego no Brasil está reduzindo gradualmente desde o primeiro semestre de 2021, passando de 14,9%, em março do ano passado, para 9,8%, em maio deste ano. Ao longo de 2021, o saldo foi positivo em 2,7 milhões de vagas formais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Em 2022, até junho, o Brasil abriu mais 1,05 milhão de postos de trabalho. Já o salário médio de admissão do trabalhador apresentou recuo, novamente pelas estatísticas do IBGE.

A afirmação de que o Brasil está na “contramão” do mundo não é verdadeira, pois os países apresentam diferentes realidades econômicas e vários deles tiveram melhora nos índices de desemprego recentemente. De acordo com dados do Banco Mundial, a taxa de desemprego global caiu de 6,6% em 2020 para 6,2% em 2021, por exemplo. Ainda não há dados consolidados para este ano. A taxa de desemprego no Brasil segue acima da média global.

Indústria, comércio e serviços

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o nível de utilização da capacidade instalada do setor no Brasil é de 70%. O vídeo checado exagera, portanto, ao dizer que a indústria “está operando quase com a sua capacidade total”. Já o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) realmente foi cortado em 35% por meio de um decreto do presidente Jair Bolsonaro, em abril — a CNI comemorou a medida dizendo que aumentaria a “atratividade de investimentos na indústria brasileira”.

Em relação ao comércio, o setor teve crescimento de 0,1% nas vendas em maio, quando comparado com abril, segundo o IBGE. O resultado representa a quinta alta consecutiva no indicador, mas houve desaceleração nessa retomada das vendas e o porcentual ficou abaixo do esperado por economistas. Desde o começo do ano, as vendas do comércio cresceram 1,8% no Brasil.

A expansão de 0,9% nos serviços consta em pesquisa do IBGE divulgada em 12 de julho. Esse avanço supera em 8,4% os níveis de fevereiro de 2020, antes do agravamento da covid-19, portanto é correto afirmar que o setor de maior impacto no PIB brasileiro está operando em nível mais alto do que antes da pandemia.

O aumento de 60% na quantidade de turistas entre janeiro e abril de 2022 em relação a todo o ano passado foi divulgado pela Embratur. A comparação é feita com base na entrada de pessoas com esse tipo de visto no Brasil — foram 960 mil nos quatro primeiros meses deste ano, contra 600 mil de janeiro a dezembro de 2021.

Exportações e investimentos

Ainda que resulte em entrada de dinheiro do exterior para o Brasil, as exportações e os investimentos diretos são coisas diferentes. O programa da TV Pampa confunde ao relacionar investimento estrangeiro com o saldo da balança comercial brasileira.

As exportações representam compras de mercadorias do Brasil, sobretudo commodities como minério de ferro, petróleo e soja. Em 2021, outros países compraram US$ 281 bilhões em produtos brasileiros, alta de 34% comparado com 2020, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC). O aumento se deve principalmente à alta na cotação dos produtos no mercado internacional. As importações somaram US$ 235 bilhões. A balança comercial, portanto, teve superávit.

Os investimentos diretos, por outro lado, representam a entrada de capital estrangeiro para criar novas empresas, comprar operações brasileiras, ampliar a capacidade produtiva dos negócios instalados. De acordo com a agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), o Brasil somou US$ 50,3 bilhões em investimento estrangeiro direto em 2021, ficando na 6ª posição global, atrás de Estados Unidos, China, Hong Kong, Cingapura e Canadá. O desempenho do Brasil supera 2020, primeiro ano de pandemia, mas segue abaixo de 2018 e 2019. 

Contraponto

O Estadão Verifica tentou entrar em contato com TV Pampa e Roberta Coltro por e-mail nesta sexta-feira, 22 de julho, mas não recebeu resposta do veículo até a publicação desta checagem.

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