É falso que vídeo viral mostre cirurgia de retirada de tênia
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É falso que vídeo viral mostre cirurgia de retirada de tênia

Especialistas afirmam que animal do vídeo não possui as características do parasita responsável pela teníase

Pedro Prata

11 de setembro de 2020 | 12h26

É falso que um vídeo que viralizou nas redes sociais mostre uma cirurgia de retirada de tênia, um parasita adquirido pela ingestão de carne de boi ou de porco contaminada. Especialistas ouvidas pelo Estadão Verifica indicam que o animal mostrado na gravação não corresponde às características das espécies Taenia solium e Taenia saginata. No Facebook, a filmagem foi compartilhada 36,5 mil vezes, com legendas que alertam contra o consumo de carne mal passada.

O vídeo foi inicialmente publicado por tabloides britânicos como o The Sun e o Daily Mail. Segundo essas publicações, o animal seria uma cobra de 1,2 metro que entrou na boca da mulher enquanto ela dormia do lado de fora da sua casa, no Daguestão, uma república russa na fronteira com a Geórgia e o Azerbaijão. Os tabloides, no entanto, não puderam confirmar essa informação com o Ministério da Saúde do Daguestão.

Embora não seja possível cravar que o animal mostrado no vídeo seja uma cobra, o certo é que o vídeo não mostra uma tênia, como afirmam as postagens nas redes sociais. A professora doutora Luciene Maura Mascarini Serra, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), disse que o animal apresentado no vídeo difere das características das tênias descritas pela literatura médica.

“As tênias são vermes totalmente achatados (pertencem ao grupo dos platelmintos, que são os vermes achatados) e possuem coloração branca, de aspecto leitoso/amarelado ou ainda rosado”, explicou. “No vídeo, vi algo escuro, de aspecto cilíndrico, muito diferente de exemplares de Taenia sp que temos em nosso arquivo didático, em material conservado para estudo dos alunos em suas aulas práticas”.

Especialistas afirmam que animal não tem anatomia de uma tênia. Foto: Reprodução

A professora doutora Vera Castilho, médica-chefe do Laboratório de Parasitologia Clínica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), também indicou que o vídeo não mostra uma tênia. A anatomia do animal apresentado no vídeo se parece mais com uma lombriga, segundo ela. “Este verme é mais semelhante a um exemplar de Ascaris, o popularmente denominado ‘lombriga’, que pode ser retirado por meio de endoscopia, como vemos no vídeo”, disse ao Estadão Verifica.

O que é teníase

O Ministério da Saúde informa que a teníase é uma doença causada pela forma adulta dos parasitas Taenia solium e Taenia saginata no intestino delgado. Ela é adquirida por meio da ingestão de carne de boi ou de porco mal cozida que contém as larvas do verme.

Quando fica no intestino humano, é considerada benigna e o tratamento consiste de remédio anti-helmíntico e purgativo para eliminá-lo nas fezes. A cirurgia somente é necessária quando ela penetra outros órgãos como apêndice, colédoco e ducto pancreático “devido a crescimento exagerado do parasita”.

Segundo Luciene Serra, a literatura médica informa que as Taenia solium pode medir de 2 a 4 metros, ao passo que a Taenia saginata pode chegar a 12 metros. Esta pode viver até 30 anos, enquanto a primeira vive até 25 anos. Já Castilho afirma que não há casos descritos de mais de 12 anos.

O Estadão Verifica utilizou a ferramenta InVID para localizar outras vezes em que o vídeo analisado foi postado. Esta ferramenta captura frames do vídeo e pesquisa outros semelhantes no Google. Dessa forma, encontramos as publicações do The Sun e do Daily Mail.

Este conteúdo também foi checado por Aos Fatos.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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