É falso que Senado da Itália tenha aprovado ‘tratamento precoce’ contra a covid-19
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É falso que Senado da Itália tenha aprovado ‘tratamento precoce’ contra a covid-19

Boato distorce proposta legislativa que trata de atendimento a pacientes em casa; órgãos de saúde do País não recomendam remédios do ‘kit covid’, que não tiveram eficácia comprovada

Samuel Lima, especial para o Estadão

19 de abril de 2021 | 15h38

É falso que o Senado da Itália tenha aprovado o “tratamento precoce” contra a covid-19, orientando médicos a prescreverem remédios como a hidroxicloroquina e ivermectina. Textos publicados em sites bolsonaristas e postagens nas redes sociais distorcem o conteúdo de uma proposta recente no parlamento italiano, que trata apenas do estabelecimento de um protocolo único para o atendimento de pacientes em casa, seguindo as diretrizes das autoridades nacionais de saúde — que não incluem o uso de medicamentos sem eficácia contra o novo coronavírus.

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Boato distorce proposta sobre tratamento domiciliar na Itália para defender ‘tratamento precoce’. Foto: Reprodução / Arte: Estadão

De acordo com a página oficial do Senado italiano, os parlamentares aprovaram uma moção sobre o tema em 8 de abril de 2021, com 212 votos a favor, dois contrários e duas abstenções. A proposta obriga o governo a atualizar os protocolos e diretrizes para o cuidado de doentes de covid-19 em domicílio, por meio do Instituto Superior de Saúde (ISS), da Agência Nacional de Serviços Regionais de Saúde (Agenas) e da Agência Italiana de Fármacos (Aifa), além de criar um grupo de monitoramento e fornecer condições para a prática médica adequada nesse contexto.

Não existe nenhuma relação entre o avanço dessa proposta de atendimento domiciliar na Itália e a administração de remédios ineficazes ou sem eficácia comprovada contra a covid-19, prática que ficou conhecida popularmente no Brasil como “tratamento precoce”. Pelo contrário, a Aifa — equivalente no Brasil à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — suspendeu o uso de hidroxicloroquina ainda em maio do ano passado e não recomenda outras drogas do “kit covid”, como ivermectina e azitromicina. 

Esse entendimento vale tanto para pacientes hospitalizados quanto para doentes em quarentena domiciliar, conforme documentos atualizados pelo órgão italiano em 9 de dezembro de 2020.

  

Hidroxicloroquina

O protocolo mais recente da Aifa desaconselha o uso para prevenção ou tratamento do novo coronavírus. “Numerosos ensaios clínicos randomizados publicados até o momento concluem que a droga é ineficaz, além de aumentar o risco de efeitos colaterais, embora não graves”, diz o órgão italiano. “Isso implica em uma relação de risco/benefício negativa para o uso do medicamento”.

A mesma conclusão é feita por entidades de referência globais em saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), o Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, para os quais a ineficácia está demonstrada na literatura científica. 

Azitromicina

A Aifa também não recomenda o uso de antibióticos, como a azitromicina, em tratamento de rotina contra a covid-19. Isso quer dizer que os médicos italianos não devem prescrever o remédio quando não existirem indícios da presença de complicações causadas por bactérias, que podem aparecer ao longo do período em que o paciente está doente e debilitado. 

“Como regra geral, o uso de antibióticos nunca é recomendado para tratar infecções virais”, destaca o comunicado. “No curso de uma infecção viral, o uso desses remédios somente pode ser considerado quando os sintomas persistem por mais de 48-72 horas e quando o quadro clínico sugere a presença de sobreposição bacteriana.”

O órgão de saúde italiano aponta que não há uma “justificativa sólida” para o uso e faltam evidências de eficácia no tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus, seja do medicamento sozinho ou em combinação com outras drogas, em particular a hidroxicloroquina. “O uso injustificado de antibióticos pode ainda determinar o início e a disseminação de resistência bacteriana, o que pode comprometer a resposta para terapias com o antibiótico no futuro.”

Ivermectina

O uso da ivermectina sequer é mencionado nas diretrizes da Aifa para o tratamento da covid-19. Em 22 de março de 2021, o órgão italiano publicou um artigo informando que a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) contraindicou a utilização do vermífugo como forma de prevenção ou tratamento da covid-19 fora de estudos científicos, devidamente autorizados por comitês de ética em pesquisas médicas.

“A EMA revisou as evidências mais recentes sobre o uso de ivermectina para a prevenção e tratamento de covid-19 e concluiu que os dados disponíveis não sustentam o seu uso fora de ensaios clínicos bem planejados”, mostra a publicação. A agência destacou ainda que o medicamento não foi autorizado na União Europeia e que não recebeu nenhuma aplicação para tanto, tendo feito a revisão por iniciativa própria diante de notícias recentes e outras publicações sobre o assunto.

A EMA afirma que foram revisados estudos de laboratório, observacionais, ensaios clínicos e meta-análises. Os testes de laboratório indicaram que a ivermectina poderia bloquear a replicação do SARS-CoV-2, “mas em doses muito mais altas do que aquelas autorizadas para humanos atualmente”. Já os resultados dos estudos clínicos foram variados, com alguns mostrando nenhum benefício e outros relatando benefício potencial. “A maioria dos estudos revisados ​​pela EMA eram pequenos e tinham limitações adicionais, incluindo diferentes regimes de dosagem e uso de medicamentos concomitantes.”

Cuidado com os boatos

Os principais órgãos mundiais de saúde são unânimes em apontar que não existe “tratamento precoce” contra a covid-19. Nenhuma droga, até o momento, teve a eficácia e segurança comprovadas para prevenção ou tratamento de sintomas em estágios iniciais da doença. A melhor forma de se proteger contra o vírus é evitar o contágio, por meio de atitudes simples: distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos.

As vacinas também devem ser tomadas assim que estiverem disponíveis para cada grupo, pois elas foram aprovadas após uma série de etapas rigorosas de testes de laboratório e clínicos, envolvendo milhares de voluntários, e provaram nesses estudos que funcionam e são seguras. A proteção ocorre cerca de duas semanas após a aplicação da segunda dose, mas especialistas vêm alertando que as medidas de proteção devem ser mantidas até que grande parte da população esteja imunizada.

O Estadão Verificadesmentiu várias postagens a respeito do “tratamento precoce” e do “kit covid”. Até o momento, nenhum dos medicamentos normalmente citados nesse coquetel teve evidências robustas que justificassem a sua utilização no tratamento do novo coronavírus. Outros, como a hidroxicloroquina, já tiveram a ineficácia comprovada cientificamente por estudos amplos e conclusivos. A prática pode trazer graves danos à saúde, principalmente quando feita sem acompanhamento médico adequado.

O boato de que o Senado italiano teria aprovado o “tratamento precoce” surgiu a partir de sites alinhados com o bolsonarismo, como “Brasil Sem Medo”, “Portal Brasil Livre” e “Crítica Nacional”. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é um defensor desse tipo de terapia. Os sites traduzem um texto divulgado pela página Life Site News, ligada a uma organização canadense “pró-vida”, termo que geralmente se refere a grupos conservadores e contrários a práticas como o aborto.

Esse mesmo boato foi desmentido por Boatos.org, Agência Lupa e Fato ou Fake. O site Gaúcha ZH também publicou uma notícia esclarecendo o assunto.

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