É falso que resultado ‘positivo’ de teste rápido de covid-19 em água prove ineficácia do exame
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É falso que resultado ‘positivo’ de teste rápido de covid-19 em água prove ineficácia do exame

Gravação caseira não seguiu as instruções presentes no rótulo do produto, por isso o experimento não permite tirar nenhuma conclusão

Pedro Prata

21 de abril de 2021 | 14h19

Circula nas redes sociais um vídeo caseiro no qual duas pessoas aplicam água a um teste rápido de covid-19 e gravam enquanto ele mostra resultado positivo. A Anvisa e um especialista ouvido pelo Estadão Verifica afirmam que o método utilizado na gravação não permite concluir nada em relação à eficácia do exame. Isso porque o teste rápido em questão foi desenvolvido para verificar a presença do coronavírus em amostras coletadas no nariz do paciente; por isso, o exame não funciona corretamente quando analisa outras substâncias.

Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490.

O vídeo mostra uma pessoa abrindo o teste rápido de covid-19 e colocando-o sob a água de uma torneira. O mostrador primeiro fica todo vermelho, para então mostrar dois traços pretos. Estes traços aparecem quando o teste dá positivo para a presença de uma proteína do vírus, determinando se uma pessoa está infectada.

O perfil no Instagram que compartilha o vídeo pergunta “qual seria a intenção disso”. A postagem sugere uma teoria conspiratória, de que os exames seriam deliberadamente fraudulentos com o objetivo de “inflar o número de casos de covid-19”, “vender mais vacinas” e “espalhar medo”.

Gravação caseira é feita de forma errônea, por isso não permite concluir sobre a eficácia do teste. Foto: Reprodução

A água da torneira não é adequada para realizar o teste. A reação para detecção da presença de antígenos do novo coronavírus precisa de uma substância específica, que faz parte dos materiais que acompanham este tipo de kit, explica o professor doutor André Schwambach Vieira, do departamento de Biologia Estrutural e Funcional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O uso de água de torneira, como demonstrado no vídeo, irá certamente interferir nas reações que devem acontecer para o teste funcionar”, disse.

Por isso, ele afirma que a experiência caseira não permite tirar nenhuma conclusão em relação à eficácia do teste: “O vídeo permite apenas concluir que as pessoas que o gravaram não tem a menor ideia de como realizar este tipo de teste.”

No Brasil, testes rápidos para covid-19 passam por análise de registro e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A agência verifica a adequação das empresas fabricantes e importadoras do produto, assim como avalia resultados de sensibilidade, especificidade, previsão e estabilidade dos testes. A Anvisa destaca que alguns dos atributos analisados podem influenciar no desempenho do exame, como os tipos de amostras utilizadas e a presença de substâncias interferentes.  

É importante também que o profissional de saúde que realiza o teste siga as rotulagens e as instruções de uso para obter a interpretação adequada do resultado. Por isso, a Anvisa disse ao Estadão Verifica por meio de nota que “o ambiente exposto no vídeo no qual o teste é realizado não é apropriado e que a utilização de água da torneira em substituição à amostra não é válida, tampouco adequada para avaliação da confiabilidade de um ensaio”.

Para a Anvisa, a gravação “contribui apenas para desinformação e disseminação de insegurança, uma vez que o teste não foi projetado para ser utilizado como proposto nas imagens”.

Abbott, fabricante do teste rápido

Por e-mail, a empresa Abbott, fabricante do teste rápido Panbio COVID-19 Ag, mostrado no vídeo, diz que o teste “deve ser usado com amostras coletadas por um swab nasal ou nasofaríngeo inserido nas narinas de uma pessoa. Panbio Ag não deve ser testado na água ou em quaisquer outros alimentos ou líquidos”.

A empresa enviou um infográfico que mostra o modo correto de utilização, completamente diferente do mostrado no vídeo viral. A figura instrui inserir um coletor no nariz e, depois, colocar essa amostra em um frasco com reagente. O líquido nesse frasco deve ser pingado no teste e o resultado sai em 15 a 20 minutos.

Fonte: Abbott/Divulgação

Os resultados negativos obtidos com testes rápidos devem ser combinados com observações clínicas, histórico do paciente e informações epidemiológicas. Segundo a Abbott, “os resultados negativos não excluem a infecção por covid-19 e não podem ser usados como única base para o tratamento ou outras decisões de conduta”.

Em Nota Técnica publicada em janeiro, a Anvisa alertou que “os testes rápidos para pesquisa de antígenos não substituem o PCR-RT, que são considerados o padrão ouro para diagnóstico da infecção pelo vírus da covid-19”.

Vídeo gravado fora do Brasil

A Anvisa lembra também que até o momento não há produtos para autoteste aprovados no Brasil. Como as duas pessoas que gravaram o vídeo não fazem nenhum comentário, não é possível saber onde a gravação foi feita. No entanto, chama a atenção alguns produtos que aparecem em cima da pia e que dão indícios de que o vídeo não foi gravado no País:

  • Teste rápido – o teste rápido de covid-19, da marca Abbott, contém instruções escritas em inglês em seu rótulo.
  • Pasta de dente – a pasta de dente é a Dentagard, da marca Colgate. Uma procura por este nome no Google encontra a pasta para vender em sites de Portugal e da Europa.
  • Produto de beleza – o produto rosa do lado esquerdo do vídeo é da marca Balea. Uma busca no Google por este nome retornou um site da Alemanha.

Marcas são indícios de que vídeo não foi gravado no Brasil. Foto: Reprodução

Estadão Verifica já checou um vídeo em que médicos italianos aplicavam um teste de covid-19 a um kiwi. Assim como no caso analisado aqui, a experiência da Itália não traz nenhuma conclusão sobre a eficácia de exames de coronavírus.

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