É falso que polícia tenha concluído que Marielle foi morta pelo tráfico e que Brazão é o mandante do crime

Boato de 2019 volta a circular nas redes sociais e aplicativos de mensagem; Investigações sobre o caso não foram concluídas

Gabi Coelho e Jefferson Perleberg, especial para o Estadão

04 de fevereiro de 2021 | 15h57

Após quase três anos do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), no Rio de Janeiro, informações falsas sobre ela voltam a circular nas redes sociais e aplicativos de mensagem. Um post no Facebook alega que a morte da parlamentar tem relação com o tráfico de drogas. Trata-se de um boato. O inquérito principal que apura o crime ainda está aberto e corre em sigilo na Polícia Civil do Rio. Há outros em andamento na Polícia Federal e no Ministério Público. 

A vereadora e seu motorista Anderson Gomes foram mortos em 14 de março de 2018 no Estácio, região central da cidade do Rio de Janeiro.

Marielle Franco foi assassinada em março de 2018Marielle Franco foi assassinada em março de 2018 Foto: Renan Olaz/CMRJ

Com mais de 7 mil compartilhamentos, a publicação circula desde 2019 no Facebook e ganhou mais visibilidade em janeiro de 2021. Além deste boato, correntes no Whatsapp afirmam que a Polícia Federal descobriu que Domingos Brazão, ex-deputado estadual e conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), é o mandante do crime. 

O inquérito da Polícia Federal indica um possível envolvimento de Brazão, mas não houve conclusão sobre o mandante. Até o momento, o que se sabe é que a Polícia Civil aponta os ex-policiais Élcio Queiroz e Ronnie Lessa como autores do assassinato, ambos presos preventivamente desde 2019.

A principal linha de investigação da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio é que o crime tenha sido contratado por políticos ligados à milícia.

Domingos Brazão

Segundo a ex-procuradora-geral da República Raquel Dodge, Brazão teria organizado um esquema para evitar que os culpados fossem identificados. Essa interferência nas investigações seria para incriminar o miliciano Orlando Araújo e o vereador Marcelo Siciliano.

Domingos Brazão foi deputado estadual pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido do ex-governador Sérgio Cabral. Também atuou como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio, de onde foi afastado do cargo por suspeita de corrupção. Entretanto, não há relação de Brazão com o Partido dos Trabalhadores (PT), como cita o conteúdo falso compartilhado nas redes.

Também citado no boato como o partido que “se calou” com a falsa conclusão das investigações, o PSOL afirmou que continua atuando para demandar uma solução para o crime, e reforçou que é falsa a informação de que o partido de esquerda tenha qualquer ligação com um suposto mandante do assassinato de Marielle.

Relembre o caso

Marielle Franco foi eleita vereadora do Rio de Janeiro como uma das mais votadas na eleição de 2016. Era uma ativista de direitos humanos, pautas feministas e causas LGBTQIA+, além de combater desigualdades sociais. Na noite de 14 de março de 2018, a vereadora e seu motorista Anderson Gomes sofreram uma emboscada e foram mortos a tiros.

Não é a primeira vez que surgem ondas de desinformação sobre a vereadora. Em 2019, o Estadão Verifica também mostrou que algumas das pesquisas mais realizadas por usuários em ferramentas de busca, mapeadas nas ferramentas Google Trends e Answer The Public, estavam relacionadas a boatos disseminados sobre o “caso Marielle” e também sobre “quem é Marielle de verdade”.

A agência de checagem Aos Fatos também publicou uma reportagem sobre os boatos que circulam nas redes sociais.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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