É falso que oferendas nas encruzilhadas tenham surgido como forma de alimentar escravos fugitivos

É falso que oferendas nas encruzilhadas tenham surgido como forma de alimentar escravos fugitivos

Boato surgiu em 2017 e continua circulando nas redes, apesar de ter sido desmentido pelo historiador a quem foi atribuído o relato

Samuel Lima

23 de julho de 2021 | 15h41

Não é verdade que as oferendas nas encruzilhadas tenham surgido nos tempos do colonialismo como uma maneira de as pessoas negras “alimentarem seus irmãos escravos que estavam fugindo dos feitores”. A afirmação falsa aparece em um texto sobre as religiões afro-brasileiras que surgiu nas redes em 2017 e circula ainda hoje entre os internautas.

O Estadão Verifica encontrou uma postagem de uma página do Facebook que chegou a 15 mil compartilhamentos neste mês de julho. E textos semelhantes também ganharam repercussão ao longo do ano passado, ainda que com um alcance menor, segundo a plataforma de monitoramento CrowdTangle.

A primeira versão do boato apareceu em junho de 2017, quando foi desmentida pelos sites Boatos.org e e-Farsas. Naquela época, o texto começava com a frase “De acordo com o professor Leandro (historiador da UnB) […]”, mas esse trecho foi excluído nas postagens mais recentes. 

O restante do conteúdo é praticamente o mesmo. A peça inventa causas, por exemplo, para o uso de “comida pesada”, cachaça e velas nas oferendas — e termina sugerindo que a prática “permanece sendo realizada pelas religiões afro como forma de agradecimento e pedidos aos seus ancestrais e em homenagem a seus santos”.

Ocorre que o tal “professor Leandro” não disse nada disso. A referência é a Leandro Santos Bulhões de Jesus, que atualmente é professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará. Ele confirmou ao Estadão, por e-mail, que foi alvo da peça de desinformação há quatro anos.

Em uma nota reproduzida pela revista Xapuri, ele conta que uma pessoa distorceu seus comentários em uma banca de defesa de trabalho de conclusão de curso de que participou na Universidade de Brasília.  

De acordo com o professor, houve uma discussão naquele momento sobre como as encruzilhadas atuais das cidades modernas são espaços de sociabilidades e de resistências. O historiador chamou a atenção do aluno para o fato de que muitas ruas e encruzilhadas do País são locais de memórias do povo negro e espaços especiais de cultos.

Em seguida, Leandro de Jesus enfatizou que as oferendas nas encruzilhadas também podem se configurar como uma estratégia de proteção a pessoas em situação de rua ou que no passado estavam em fuga. Essa observação foi distorcida no relato anônimo que depois viralizou nas redes.

O professor esclareceu o assunto na nota: “Ainda que algumas pessoas tenham feito uso deste possível mecanismo de enfrentamento das fomes, estas experiências não são a base da origem das inúmeras oferendas dos candomblés”. Ele destaca ainda que a solidariedade do povo negro realmente poderia se traduzir em ações do tipo nos tempos de escravidão ou nos anos difíceis do pós-abolição. 

“Mas tais práticas se configurariam como experiências particulares ou ainda como ressignificações dos usos das oferendas que já existiam antes, desde as Áfricas, nos cultos aos voduns, nkices e orixás e não explicam o surgimentos dos candomblés nem das inúmeras modalidades de rituais de oferendas”, escreve.

Em religiões como o candomblé e a umbanda, oferecer comida é uma maneira de se conectar com os orixás. Cada divindade tem os seus alimentos correspondentes, com o seu modo correto de preparo e a sua simbologia. E as entregas também se diferenciam conforme o “ponto de força” daquela entidade. Exu, conhecido como o guardião dos caminhos, tem como lugar favorito as encruzilhadas; enquanto Iemanjá, que é a rainha do mar, costuma receber as oferendas dos fiéis nas águas.

Cuidado com os boatos

Na época que este boato repercutiu nas redes pela primeira vez, o relato causou indignação entre adeptos das religiões e especialistas da área, porque desqualifica os significados espirituais das oferendas. Pode também sugerir que esta seria apenas uma espécie de prática obsoleta ou uma homenagem ao passado, ao invés de uma manifestação religiosa em sua essência.

O professor, historiador e escritor Luiz Antônio Simas, por exemplo, fez críticas ao conteúdo em uma mensagem publicada em seu perfil no Facebook. Ele considerou o texto “fantasioso e racista”,  porque esvaziava os “sentidos diversos que as encruzilhadas têm para as sofisticadas cosmogonias (histórias e mitos que explicam a origem do universo) e espiritualidades afro-diaspóricas (termo relativo à imigração forçada de africanos como escravizados)”.

A peça analisada nesta checagem apresenta alguns indícios de falsidade para se ficar atento. O principal sinal de alerta é que ela não apresenta uma fonte confiável de informação. Mesmo quando mencionava o “professor Leandro” da UNB, o conteúdo continha apenas o primeiro nome do suposto autor da ideia e a universidade — dados vagos que não permitem confirmar a veracidade da história com uma pesquisa simples no Google. 

Além disso, desconfie de relatos que trazem explicações simplistas ou pouco convencionais para temas complexos, como a origem de práticas religiosas. Principalmente, caso essa mesma alegação não apareça em sites jornalísticos, publicações acadêmicas e outras fontes sérias que você conheça. Na dúvida, pesquise sempre antes de compartilhar.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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