É falso que ex-reitor da UFRJ esteja foragido após roubar R$ 43 milhões da universidade
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É falso que ex-reitor da UFRJ esteja foragido após roubar R$ 43 milhões da universidade

Engenheiro Carlos Antônio Levi foi condenado a quatro anos de prisão por denúncia de irregularidades em convênio, mas recorre em liberdade e ainda leciona na instituição

Victor Pinheiro

19 de maio de 2021 | 16h19

É falso que o ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Antônio Levi de Conceição tenha sido condenado por roubar R$ 43 milhões do centro de ensino e esteja foragido da Justiça. Conteúdos nas redes sociais descontextualizam uma denúncia do Ministério Público Federal contra o engenheiro, cujo processo ainda está em tramitação.

O professor foi condenado a quatro anos de prisão em regime semiaberto por peculato na administração de um convênio entre a UFRJ e o Banco do Brasil, em 2019. Apesar de o contrato entre as duas organizações ter movimentado o valor citado nas mensagens, a sentença aponta supostas irregularidades sobre um montante estimado em R$ 2,1 milhões, pagos como taxa administrativa a uma fundação privada de apoio à universidade. 

A defesa de Carlos Antônio nega irregularidades e ele recorre à sentença em liberdade. O processo tramita no Tribunal Regional Federal da 2ª Região do Rio. O professor é atualmente um membro ativo do quadro de docentes da faculdade de Engenharia Naval e Oceânica da UFRJ. Ou seja, ele não está foragido.

Além disso, a publicação atribui a mensagem ao cantor e compositor Roger Moreira, mas o texto não consta no perfil oficial do artista. Ao Estadão Verifica, Roger disse que não se lembra de ter publicado a mensagem. “Não que eu me lembre. Que eu saiba nem é o mesmo cara que disse que a direita merecia uma boa bala.”, afirmou.

Entenda o caso

A condenação de Carlos Antônio Levi remete a uma denúncia do Ministério Público de 2012, que acusou o engenheiro e outros ex-dirigentes da UFRJ de cometerem irregularidades na formalização e execução de dois convênios um contrato entre a universidade e o Banco do Brasil. Os vínculos foram firmados em 2007, quando o professor era pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento.

Um acordo com o banco estatal previa o repasse de R$ 52,9 milhões à universidade, dos quais R$ 43 milhões seriam destinados a serviços na instituição de ensino. A transferência dos recursos, no entanto, foi intermediada pela Fundação José Bonifácio (FUJB), instituição privada que atua no apoio à UFRJ. 

Procuradores denunciaram que essa mediação impedia órgãos de controle de monitorar adequadamente os contratos da universidade com o Banco do Brasil. Além disso, o Ministério Público questionou o pagamento de uma “taxa administrativa” à FUJB, de 5% do convênio.

Em 2019, reportagem do Estadão Verifica a respeito de um boato semelhante mostrou que uma sentença expedida pela 7ª Vara Criminal Federal do Rio de Janeiro não identificou irregularidades na transferência do dinheiro para a conta da fundação. A Justiça, no entanto, considerou que a taxa de administração foi usada de forma ilegal para sustentar um esquema de lavagem de capitais e condenou Carlos Antônio Levi a quatro anos e oito meses de prisão, em regime semiaberto. 

No processo, a defesa do ex-reitor nega a existência do crime e afirma que os recursos foram destinados à universidade. Em entrevista ao jornal Gazeta do Povo, na época, ele também sustentou que o pagamento de taxas de administração é um mecanismo comum em fundações de apoio universitário no Brasil.

A Associação Nacional de Pós-Graduandos divulgou uma nota criticando a decisão da Justiça. Já um comunicado da UFRJ destacou que a CGU já havia inocentado o professor em outro processo, no âmbito civil, sobre o mesmo convênio com o banco estatal. A universidade afirmou ainda que estava confiante no esclarecimento dos atos administrativos e na revisão da sentença. 

Frase é atribuída enganosamente

O boato compartilhado nas redes ainda engana ao afirmar que Carlos Antônio teria dito que a direita merecia um “bom murro e uma boa bala”. Não há registros públicos de que o ex-reitor tenha mencionado essa frase. 

Uma verificação do Boatos.org aponta que um discurso similar do militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Mauro Iasi foi falsamente atribuído a outro ex-reitor da UFRJ em 2018. Durante um congresso realizado em 2015, Mauro Iasi citou um poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que alude a uma conversa de um comunista com um conservador. Um dos versos da obra diz “com uma boa bala de uma boa espingarda e enterrar-te”.

O conteúdo enganoso sobre o ex-reitor viralizou em meio a cortes e bloqueios de verbas para universidades federais.

Este boato também foi verificado pelo Aos Fatos.

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