É falso que Brasil tenha deixado de importar gás natural da Bolívia
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É falso que Brasil tenha deixado de importar gás natural da Bolívia

Postagem que viralizou no Facebook parabeniza Bolsonaro por suposta autossuficiência do País

Guilherme Bianchini, especial para o Estado

14 de setembro de 2020 | 18h49

É falso que o Brasil tenha deixado de importar gás natural da Bolívia e que seja autossuficiente no recurso. Apenas em 2020, o País já importou cerca de 3,3 bilhões de quilogramas líquidos de gás boliviano, com gastos de aproximadamente US$ 686 milhões, segundo estatísticas oficiais do comércio exterior brasileiro. Além do vizinho sul-americano, também há registro de importações neste ano de Argentina, Estados Unidos, Nigéria, Reino Unido e Trinidad e Tobago.

Brasil ainda importa gás natural da Bolívia e de outros cinco países. Foto: Reprodução

Uma postagem com mais de 77 mil compartilhamentos no Facebook parabeniza o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pelo suposto fim das importações de gás da Bolívia e da Venezuela. O Brasil, no entanto, não negocia o produto com os venezuelanos ao menos desde 1997, ano dos primeiros registros disponibilizados na plataforma do governo federal.

O autor da publicação utilizou um vídeo de outubro de 2019, sobre o início das obras de produção de gás no Campo de Azulão, no Amazonas, para a fazer a falsa afirmação sobre a suposta autossuficiência.

“Brasil deixa de importar gás da Bolívia e Venezuela; parabéns Bolsonaro… Brasil auto suficiente em gás da Amazônia”, diz a postagem, compartilhada pela primeira vez em 4 de setembro.

Com as obras ainda em andamento, a produção de gás no local está prevista para começar em junho de 2021. O Estadão Verifica entrou em contato com o Ministério de Minas e Energia para questionar sobre a possibilidade do fim da importação de gás natural no futuro, mas a pasta não respondeu até a publicação desta reportagem.

Campo de Azulão

O Campo de Azulão, localizado entre os municípios de Silves e Itapiranga, no Amazonas, pertencia à Petrobras, mas foi vendido à Parnaíba Gás Natural pelo valor de US$ 56,5 milhões. A negociação com a empresa controlada pela elétrica Eneva se concretizou em abril de 2018, quando o Brasil ainda era governado por Michel Temer (MDB).

Documento

Um evento em outubro de 2019 marcou o início das obras para exploração do local, com participações do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), e do ministro de Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque. Além da produção do gás natural na bacia do Rio Amazonas, a Eneva irá liquefazer o produto e transportá-lo para Roraima.

Em maio deste ano, a Justiça do Trabalho chegou a suspender por 14 dias as obras no Campo de Azulão, em decorrência da pandemia de covid-19. Menos de duas semanas depois, porém, o órgão autorizou a retomada das atividades.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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