É falso que atualização do WhatsApp permitirá que polícia tenha acesso a conversas dos usuários
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É falso que atualização do WhatsApp permitirá que polícia tenha acesso a conversas dos usuários

Boato em circulação nas redes aproveita polêmica dos novos termos de privacidade do aplicativo para espalhar desinformação

Samuel Lima, especial para o Estadão

22 de janeiro de 2021 | 14h57

Não é verdade que a nova atualização do WhatsApp permitirá que policiais civis, militares e federais tenham acesso às contas pessoais de usuários a partir de fevereiro, como afirma boato em circulação nas redes sociais.  A mensagem falsa, compartilhada quase 25 mil vezes nesta semana no Facebook, não apresenta qualquer fonte e está repleta de erros de português. O WhatsApp e a Polícia Federal negaram a história, e a Constituição Federal garante o sigilo das conversas no app.

O boato aproveita uma polêmica recente sobre alterações na política de privacidade do aplicativo. Neste mês, os usuários receberam uma notificação para que aceitassem os novos termos até 8 de fevereiro de 2021. A nova política torna obrigatório o compartilhamento de dados do app de mensagens com o Facebook, empresa dona do WhatsApp desde 2014. Porém, a nova política de privacidade não faz qualquer referência à permissão de acesso de informações pessoais para forças de segurança, como alega o conteúdo falso.

Ao Estadão Verifica, a empresa de tecnologia respondeu que “a mensagem em circulação sobre o compartilhamento de informações com policiais civis, federais e militares é inteiramente falsa” e que todas as conversas pessoais e chamadas telefônicas entre os usuários “são protegidas com criptografia de ponta a ponta” — o que significa que nem o WhatsApp, nem terceiros podem acessar o conteúdo.

Na página atualizada com os termos e políticas, o WhatsApp afirma ainda que armazena dados básicos e informações de uso do serviço, localização, conexões e dispositivos, status, suporte e transações e cookies. “Ao entregarmos suas mensagens, elas são apagadas dos nossos servidores”, aponta o texto. As únicas exceções ocorrem com mensagens não entregues e com encaminhamento de mídia, que podem ser guardadas temporariamente nesse meio tempo, mas também com criptografia.

Procurada pela reportagem, a Polícia Federal também negou a história. “Segundo a Constituição Federal, no seu artigo 5º, XII — é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal”, afirmou o órgão em nota.

Diante da repercussão negativa das mudanças nos termos de serviço, o WhatsApp adiou para 15 de maio o prazo para que os usuários aceitem a nova política de privacidade e possam continuar utilizando o aplicativo de mensagens instantâneas sem o risco de ter as contas congeladas. A empresa enfrenta questionamentos de instituições de defesa do consumidor e de parlamentares no Brasil e até pedidos de cancelamento no exterior, pelo governo indiano.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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