É falso que antiviral em estudo pela Pfizer atue da mesma forma que a hidroxicloroquina
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É falso que antiviral em estudo pela Pfizer atue da mesma forma que a hidroxicloroquina

Corrente no WhatsApp espalha tese infundada de que droga experimental 'funcionaria exatamente' como o antimalárico, que se mostrou ineficaz contra a covid-19

Samuel Lima

10 de maio de 2021 | 15h13

Não é verdade que a Pfizer esteja desenvolvendo um medicamento contra a covid-19 idêntico à hidroxicloroquina. A alegação falsa aparece em uma corrente de WhatsApp que sugere uma conspiração da indústria farmacêutica contra o antimalárico — que se provou ineficaz contra o novo coronavírus em estudos clínicos amplos e não é recomendado pelos principais órgãos mundiais de saúde.

“Vem aí a nova droga da Pfizer contra o vírus […]”, afirma a peça de desinformação. “O seu mecanismo de ação funciona como inibidor da protease, ou seja, funciona exatamente como a hidroxicloroquina. A única diferença é que agora tem patente; além de ter mudado de roupa e render milhões ou bilhões para os cofres da Pfizer. A Big Pharma agradece!”.

O conteúdo foi encaminhada por leitores do Estadão Verifica pelo WhatsApp (11) 97683-7490. O blog encontrou ainda postagens no Facebook e no Instagram com milhares de compartilhamentos.

Postagem falsa alega que medicamento da Pfizer em estudos seria idêntico à hidroxicloroquina. Foto: Reprodução Facebook / Arte: Estadão

O conteúdo é falso por uma série de motivos. Em primeiro lugar, nenhum comprimido antiviral da Pfizer contra a covid-19 está prestes a entrar no mercado. O que existe é uma droga experimental, chamada de PF-07321332, que começou a ser testada em humanos, no final de março deste ano. Para que ela seja comercializada, é preciso que demonstre segurança e eficácia em três etapas de ensaios clínicos e depois seja aprovada pelos órgãos regulatórios, assim como no caso das vacinas.

Em segundo lugar, não existem indícios de que a Pfizer tenha realizado qualquer estudo clínico de medicamento antiviral de uso oral baseado na cloroquina ou na hidroxicloroquina. Em resposta ao Estadão Verifica, a farmacêutica negou o boato e ressaltou que o PF-07321332 demonstrou “potente atividade antiviral” contra o novo coronavírus em testes de laboratório, mas que ainda é preciso aguardar o resultado dos estudos clínicos nos Estados Unidos. “Como o programa ainda está em fase de pesquisa e desenvolvimento, não se pode especular sobre qualquer potencial, cronograma ou resultado.”

Documento

O terceiro ponto é que a nova droga não poderia “funcionar” da mesma maneira que a hidroxicloroquina porque as melhores evidências disponíveis apontam que o antimalárico não oferece nenhum benefício aos pacientes de covid-19. Esse é o entendimento de instituições de referência globais em saúde pública, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

O Estadão ainda consultou dois especialistas para checar se existe alguma semelhança entre a hidroxicloroquina e a droga experimental da Pfizer: a professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Ana Maria Caetano de Faria e o professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luiz Carlos Dias.

Ambos afirmaram à reportagem que as estruturas químicas dessas drogas são completamente diferentes. Além disso, as pesquisas iniciais que justificaram a testagem da cloroquina e da hidroxicloroquina propuseram um mecanismo de ação distinto ao da PF-07321332, ainda que se tenha ventilado a possibilidade de que as drogas viessem a desempenhar um papel semelhante (veja mais detalhes abaixo). De qualquer maneira, já está demonstrado na literatura acadêmica que as cloroquinas não conseguem reproduzir esse resultado nos pacientes de covid-19.

O Estadão entrou em contato, através de mensagem no Facebook, com um dos perfis que viralizou o conteúdo nas redes e questionou sobre a fonte da alegação, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem. Ela será atualizada em caso de resposta.

A ‘nova droga’ experimental da Pfizer

No final de março, a farmacêutica norte-americana Pfizer anunciou o início de um ensaio clínico nos Estados Unidos para verificar a segurança e a eficácia de um possível medicamento via oral para tratar pacientes com covid-19. A empresa explicou que a droga, denominada PF-07321332, demonstrou em estudos in vitro — ou seja, em culturas de células em laboratório — ser um “potente inibidor de proteases com atividade antiviral contra o SARS-CoV-2”. 

As proteases são enzimas que “quebram” proteínas grandes em pedaços menores. Neste caso, a substância em questão é chamada de 3CL ou Mpro — um dos alvos preferenciais dos remédios em desenvolvimento contra a covid-19 no mundo, porque desempenha um papel fundamental no processo de multiplicação do novo coronavírus dentro das células humanas. 

Depois que o novo coronavírus entra em contato com as mucosas do corpo (olhos, nariz e boca), ele inicia a trajetória de infecção ao se prender na superfície das células (com o uso de sua proteína spike e de receptores das células conhecidos pela sigla ECA2) e ao disparar o seu material genético (RNA). O objetivo é fazer com que o nosso próprio corpo ajude a produzir cópias do vírus, que então se espalham pelo organismo e exigem uma resposta eficiente do sistema imunológico para conter a doença.

Só que essas cópias não saem prontas “de fábrica”. A professora da UFMG Ana Maria Caetano de Faria explica que o RNA do vírus codifica proteínas grandes, chamadas de poliproteínas, que precisam ser quebradas para formar cada parte do agente causador da covid-19. Esse é o trabalho feito pela enzima 3CL ou Mpro. “Essa protease é fundamental porque é ela quem processa a proteína precursora e possibilita a montagem do vírus inteiro.” 

Empresas e instituições de pesquisa investem em potenciais inibidores dessa enzima justamente porque ela desempenha um papel-chave na replicação do vírus. Ela também não é exatamente uma novidade: já estava presente em outros coronavírus, o que permitiu acelerar o desenvolvimento com o que já se sabia anteriormente sobre ela. E inibidores de proteases (diferentes daquela presente no novo coronavírus) foram desenvolvidos com sucesso para tratar outros patógenos virais, como o HIV e o vírus da hepatite C.

O professor da Unicamp Luiz Carlos Dias destaca ainda que o organismo humano não possui muitas enzimas parecidas com a estrutura química da 3CL. Esse aspecto pode ser importante para facilitar o trabalho dessas drogas, aumentando as chances de que elas se concentrem efetivamente no alvo quando testadas em humanos — um ambiente muito mais complexo do que o tubo de ensaio, pondera o especialista. 

Em 7 de abril, a revista Chemical & Engineering News, mantida pela Sociedade Americana de Química (ACS), publicou uma nota sobre a apresentação da PF-07321332 pela Pfizer em um fórum da instituição. O texto aponta que a droga foi desenvolvida “do zero” durante a pandemia. Segundo a empresa, ela foi sintetizada pela primeira vez em julho de 2020. Cerca de 210 pesquisadores trabalharam no projeto.

O conteúdo também revela a estrutura química da substância — que não parece em nada com a cloroquina e a hidroxicloroquina. “Não há absolutamente nenhuma semelhança entre as duas moléculas do ponto de vista de estrutura química. Não é hidroxicloroquina com outro nome, essa é uma tremenda falácia”, afirma Dias. “Os compostos são completamente diferentes. Dizer que é a mesma coisa disfarçada da outra é um exagero completo”, analisa Faria.

Estrutura dos compostos cloroquina e hidroxicloroquina. Fonte: Reprodução / PubChem – National Library of Medicine

Estrutura do medicamento experimental da Pfizer PF-07321332. Foto: Reprodução C&GN / American Chemical Society

Hidroxicloroquina é ineficaz contra a covid-19

A cloroquina e o seu derivado, a hidroxicloroquina, são remédios indicados para o tratamento de pacientes de malária, lúpus e artrite reumatoide. No contexto de emergência da covid-19, as drogas passaram a ser avaliadas como tratamentos em potencial por demonstrarem atividade in vitro contra o SARS-CoV-2. Porém, as melhores evidências científicas apontam hoje que elas não apresentam nenhum benefício aos pacientes de covid-19.

Estudos dos programas Solidariedade (da Organização Mundial de Saúde) e Recovery (do governo do Reino Unido), que somam milhares de voluntários, não encontraram benefício dos medicamentos em reduzir as mortes ou evitar o agravamento da doença em pacientes hospitalizados. Outra pesquisa da Coalizão Covid-19 Brasil apontou que as drogas também falharam em casos leves e moderados de covid-19.

Essas evidências sólidas fizeram com que os principais órgãos mundiais de referência em saúde contraindicassem o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes do novo coronavírus, alertando ainda para os riscos de efeitos colaterais graves, como arritmias cardíacas. É o caso do painel de especialistas da OMS, do FDA norte-americano e da EMA, na Europa.

Na prática, os resultados dos ensaios clínicos derrubaram as teorias propostas pelos cientistas sobre mecanismos de ação dessas drogas contra o SARS-CoV-2. A principal delas era baseada em estudos in vitro com uma linhagem de células extraídas do rim do macaco-verde-africano. Em laboratório, pesquisadores observaram que a cloroquina e a hidroxicloroquina poderiam bloquear a entrada do novo coronavírus nessas células por conta da capacidade de elas alterarem a acidez do meio.

O problema é que, para que essa situação ocorresse, o vírus precisaria usar uma porta de entrada específica, pegando “carona” com uma estrutura chamada endossomo — uma espécie de compartimento membranoso de onde o vírus liberaria o material genético para dar início ao processo de multiplicação dentro da célula. Acreditava-se que a alteração do pH pudesse interromper essa cadeia de eventos, algo bem diferente do que está sendo proposto para a droga da Pfizer.

Porém, ainda no ano passado, novas pesquisas revelaram que a principal forma de acesso do vírus nas células do trato respiratório humano não era essa. Cientistas mostraram que, depois que o vírus interage com um receptor conhecido pela sigla ECA2, ele não entra na célula com a ajuda do endossomo, mas injeta o seu material genético diretamente no espaço interno da célula, o citoplasma. Esse caminho seria facilitado por uma proteína presente na superfície da célula, conhecida como TMPRSS2.

Outras pesquisas iniciais ainda sugeriram outros mecanismos de ação para a cloroquina, como a capacidade de interferir na ligação entre o vírus e a célula hospedeira nos receptores ECA2. O Estadão Verifica também encontrou dados preliminares de um trabalho in silico, ou seja, feito através de simulações computacionais, apontando que as drogas teriam afinidade em bloquear a protease 3CL. Mas o fato é que todas essas hipóteses foram descartadas a partir do momento que estudos amplos e de metodologia robusta mostraram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não funcionam em situações reais.

Cuidado ao analisar as pesquisas de laboratório

Os dois especialistas consultados pelo Estadão recomendam cautela ao se analisar qualquer tipo de resultado em estudos iniciais sobre medicamentos contra a covid-19. A razão é que esses trabalhos servem apenas para credenciar um determinado composto para os testes futuros em humanos. E existe um longo caminho até que alguma droga tenha eficácia e segurança demonstrada cientificamente.

Luiz Carlos Dias afirma que o processo geralmente envolve primeiro estudos computacionais para verificar a possibilidade de determinada molécula interagir com alguma estrutura específica. Depois, entre centenas de fármacos, aqueles que apresentaram potencial passam a ser testados em culturas de células em laboratório. Esses passos economizam tempo e recursos a serem despendidos nas etapas in vivo, ou seja, nos testes em animais e depois em voluntários saudáveis e/ou pacientes de covid-19.

“Não adianta ter um modo de ação in silico, em computador, e in vitro, em cultura de células, se depois não se comprova em estudo clínico. Há uma diferença enorme entre esses resultados”, afirma Dias. “O que vale no final são os ensaios clínicos, em fases 1, 2 e 3 (cada etapa aumenta a quantidade de participantes, os grupos pesquisados e os parâmetros de análise). E nesse caso, infelizmente, os melhores estudos clínicos, randomizados e controlados, mostram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não funcionam e podem causar prejuízos à saúde.”

A professora Ana Maria Caetano de Faria, da UFMG, também alerta para o fato de que esse tipo de evidência em laboratório não é capaz de comprovar segurança e eficácia. “A cloroquina teve efeito in vitro, de fato. Ela diminuiu a replicação viral. Mas, com o passar do ano de 2020, vieram os estudos multicêntricos, com milhares de pacientes, feitos de forma muito mais adequada. E o que se mostrou foi isso: não houve efeito benéfico, no sentido de melhorar os sintomas ou reduzir a chance de morte. É por isso que já se descartou o uso dela.”

O professor da Unicamp também defende uma postura de cautela quanto aos primeiros resultados da droga da Pfizer. “Existe a possibilidade de o medicamento entrar no organismo e não interagir com a 3CL, ou ele pode interagir com outras enzimas que não foram testadas. É realmente complexo passar do in vitro para o ser humano, onde o ambiente em que o composto está inserido é muito diferente do tubo de ensaio”, explica Dias. “Quando a molécula é testada in vitro, só tem aquele alvo: ou ela se liga ou não. Mas essa afinidade pode não ser suficiente para a interação no organismo vivo.”

O mesmo boato foi desmentido por Agência Lupa, Fato ou Fake e Boatos.org.

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