Vídeo de projeto de 2016 para novo traçado da Dutra na Serra das Araras circula fora de contexto

Vídeo de projeto de 2016 para novo traçado da Dutra na Serra das Araras circula fora de contexto

Plano para remodelação da rodovia foi divulgado pela concessionária CCR, mas não chegou a sair do papel; em 2019, empresa venceu novo leilão da via, mas ainda vai publicar projeto para trecho de 16 km

Alessandra Monnerat

19 de janeiro de 2022 | 21h00

Atualizada às 12h58 para corrigir informação sobre data da concessão da Dutra.

Circula fora de contexto no Facebook o vídeo de um projeto para a construção de novas pistas no trecho da Rodovia Presidente Dutra (BR-116) que passa pela Serra das Araras, no Estado do Rio. O vídeo anuncia um novo traçado, com 17 viadutos, para reduzir o tempo de percurso de motoristas. Uma postagem do vídeo de 14 de janeiro alcançou 33 mil compartilhamentos, sem explicar que na realidade o projeto é de 2016 e não deve ser implementado como mostrado nas imagens.

Nos comentários da postagem, vários usuários parabenizam o presidente Jair Bolsonaro (PL) pelo projeto. Na verdade, o novo traçado foi proposto pela concessionária CCR Nova Dutra e pela Agência Nacional de Transportes (ANTT) em 2016, como mostra esse anúncio publicado no jornal O Globo.

Alguns trechos do vídeo que viralizou fora de contexto no Facebook podem ser vistos nesta reportagem de novembro de 2016 da TV Rio Sul, afiliada da Rede Globo. A matéria mostra o plano de construir uma via suspensa sobre a Mata Atlântica com grandes pilares. O vídeo da CCR sobre o projeto tinha sido publicado pela concessionária em seu canal de YouTube, mas foi retirado do ar. É possível ver a página arquivada no Google (abaixo).

Vídeo da CCR sobre remodelação da Dutra na Serra das Araras, publicado em 2016. Foto: Reprodução/YouTube

Na época em que o projeto foi divulgado, a concessionária afirmou que o trecho entre Piraí e Piracambi tem curvas sinuosas que dificultam a circulação de cargas. O projeto de remodelação incluiria 17 viadutos e pontes e um túnel de 430 metros de extensão. No entanto, segundo a CCR, para realização da obra naquele momento seriam necessários mais investimentos — seja com repasse no preço do pedágio, com aporte do governo federal, ou com extensão da concessão da rodovia.

Em outubro de 2021, a Dutra foi relicitada, após 25 anos de administração da CCR. A empresa venceu o leilão e renovou a concessão por mais 30 anos ao oferecer o desconto máximo de 15,31% sobre o valor da tarifa de pedágio e valor de outorga de R$ 1,8 bilhão. Ao todo, deve investir R$ 15 bilhões em obras e renovações.

Para o trecho da Serra das Araras, foi anunciada uma obra de duplicação de 16 km, com quatro faixas de rolamento em cada sentido, túnel e viadutos. O projeto, no entanto, não deve ser o mesmo que o mostrado no vídeo do Facebook, segundo informou a assessoria de imprensa da CCR por telefone.

Em nota ao Verifica, a concessionária explicou que a assinatura do contrato da nova concessão deve ocorrer este mês; a nova licitação passa a valer em 1º de março. “Somente após a assinatura do contrato a nova empresa poderá responder pelos serviços que serão realizados na rodovia”, afirmou a empresa.

O site da ANTT informa o andamento do projeto de concessão da Dutra, que aguarda assinatura do contrato. Segundo o documento do Programa de Exploração da Rodovia, a concessionária deve construir uma nova pista ascendente na Serra das Araras; a pista atual deve ser readequada para a descida de veículos. Ao todo, devem ser implementadas quatro faixas. O novo traçado deve ficar a, no máximo, 100 metros do original. As obras devem começar a partir do 6º ano de concessão. Não há mais detalhamento do projeto.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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