Vídeo espalha informações falsas sobre ‘dossiê’ do Exército contra ministros do STF

Vídeo espalha informações falsas sobre ‘dossiê’ do Exército contra ministros do STF

Post que viralizou no Facebook diz que militares estão no comando das eleições deste ano, o que não é verdade

Clarissa Pacheco

18 de março de 2022 | 19h05

É falso que o Exército Brasileiro tenha produzido um dossiê contra os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Esta e outras afirmações aparecem em um vídeo compartilhado mais de 20 mil vezes no Facebook, com mentiras sobre as eleições presidenciais de 2022 e ministros do Supremo.

Em nota, o Exército Brasileiro informou que “não procede qualquer informação a respeito de produção de documentos do Exército Brasileiro sobre os ministros do Supremo Tribunal Federal” e acrescentou que a competência para definir o emprego do Exército  está prevista em lei – na Constituição de 1988 e nas Leis Complementares nº 69/1991 e 97/1999. “Não há, portanto, qualquer visualização de emprego da Força Terrestre na situação apresentada [no vídeo]”, completa a nota.

O autor do vídeo viralizado afirma que o presidente Jair Bolsonaro (PL) têm distribuído o tal dossiê em viagens internacionais. Segundo o vídeo, os ministros Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes estariam “desesperados” diante da verdadeira razão por trás das viagens de Bolsonaro.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarou que desconhece o suposto dossiê contra ministros da Suprema Corte. O Tribunal foi procurado porque os três ministros citados na peça da desinformação fizeram ou fazem parte de sua gestão: o ministro Luís Roberto Barroso presidiu o Tribunal até o final de fevereiro, quando passou o bastão ao ministro Edson Fachin (novo presidente) e Alexandre de Moraes (novo vice-presidente).

O homem que narra a gravação também afirma, sem apresentar evidências, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai desistir da candidatura por não estar em primeiro lugar nas pesquisas. Isso é falso. Até o momento, diferentes pesquisas de intenção de votos com abrangência nacional colocam o petista na frente da corrida presidencial (Quaest/Genial, Poder DataIpespe). Lula não fez nenhuma declaração sobre desistir da disputa.

Fraude nas urnas?

No vídeo, o narrador mente ao afirmar que “o Exército está no comando das eleições”. Em nota, o TSE informou que “a Justiça Eleitoral é a única instituição com competência constitucional para organizar e assegurar a integridade das eleições brasileiras”.

As Forças Armadas colaboram com o TSE, mas não comandam as eleições. “As Forças Armadas participaram do projeto de elaboração e desenvolvimento das urnas eletrônicas e auxiliam a Justiça Eleitoral na parte logística das Eleições, com a distribuição das urnas pelas zonas eleitorais em todo o País”, diz a nota do TSE. “Além disso, colaboram com a segurança de determinados locais de votação, em caráter excepcional, mediante convocação extraordinária a pedido dos TREs”.

Procurado, o comando do Exército confirmou a informação: “Historicamente, o Exército Brasileiro apoia a realização das eleições brasileiras por meio de Operações de Garantia da Votação e Apuração, por solicitação da Justiça Eleitoral”.

Este ano, os militares têm um representante na Comissão de Transparência das Eleições (CTE), o general Heber Garcia Portella, que é comandante de Defesa Cibernética. A CTE é formada por representantes de diversos segmentos sociais e institucionais, além de especialistas em tecnologia da informação. O órgão foi criado em 2021 e fez a primeira reunião no último dia 14 de fevereiro.

Alexandre de Moraes de cabeça baixa?

Outro trecho do vídeo afirma que o ministro do STF Alexandre de Moraes ficou de cabeça baixa e passou a mexer no próprio celular quando o colega Edson Fachin falou sobre possíveis vulnerabilidades do sistema eleitoral. O vídeo mostra uma imagem de Moraes e outra foto de alguém usando um celular, mas não indica em qual momento isso teria acontecido.

É provável, contudo, que o autor do vídeo se refira a uma fala do ministro do Edson Fachin no dia 15 de fevereiro de 2022, durante a reunião para a transição do comando do TSE. Fachin tomou posse da presidência do Tribunal no dia 22 de fevereiro. Ele ficará no cargo por seis meses e passará o comando da Corte a partir de 16 de agosto ao vice-presidente Alexandre de Moraes, que estará à frente do Tribunal durante as eleições.

Na reunião, Fachin falou sobre os desafios que a gestão encontrará e mencionou riscos de ataques cibernéticos. “Há riscos de ataques de diversas formas e origens. Tem sido dito e publicado, por exemplo, que a Rússia é um exemplo dessas procedências. O alerta quanto a isso é máximo e vem crescendo. A guerra contra a segurança no ciberespaço da Justiça Eleitoral foi declarada faz algum tempo. Deixemos dito de modo a não pairar dúvida: violar a estrutura de segurança do TSE abre uma porta para a ruína da democracia. Aqueles que patrocinam esse caos sabem o que estão fazendo para solapar o Estado de Direito”, disse.

Durante a fala, o ministro Alexandre de Moraes pegou o celular e manuseou papeis sobre uma mesa, mas não foi o único momento em que fez isso.

Foto: Reprodução/TSE

Durante boa parte da fala de Fachin, Moraes fez anotações, usou o celular e conversou com o então presidente do TSE, Luís Roberto Barroso.

Foto: Reprodução/TSE

Barroso também esteve em diversos momentos de cabeça baixa enquanto ouvia a fala de Fachin, que durou pouco mais de 17 minutos.

Foto: Reprodução/TSE

Rússia e Brasil

No vídeo viral, o narrador afirma ainda que Fachin quis acusar Bolsonaro de ir à Rússia fazer acordos com o presidente Vladimir Putin para invadir o sistema eleitoral brasileiro. Embora o ministro tenha feito um discurso no mesmo dia da viagem do presidente, Bolsonaro não foi mencionado.

O tema da tecnologia realmente esteve em pauta durante a visita de Bolsonaro à Rússia. Porém, Bolsonaro negou que tenha tratado da segurança das eleições com o presidente russo. O TSE também ressaltou que “que não existe nenhum tipo de acordo de cooperação entre o TSE e a Rússia”.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

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