Em vídeo viral, homem exagera participação do governo em doação de alimentos à Bahia

Em vídeo viral, homem exagera participação do governo em doação de alimentos à Bahia

Alimentos foram arrecadados por comerciantes da Ceagesp; ministérios e Forças Armadas atuaram no transporte e distribuição dos donativos

Clarissa Pacheco

14 de janeiro de 2022 | 15h31

Um vídeo gravado no Aeroporto de Teixeira de Freitas, na Bahia, em 16 de dezembro de 2021, leva a uma conclusão enganosa sobre a origem de doações de alimentos entregues a famílias atingidas pelas enchentes no Sul do Estado. Entrevistado no local, um homem afirma que os mantimentos foram doados pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e pelo ministro da Cidadania, João Roma, com apoio da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). Mas não é bem assim. Embora o governo federal tenha participado da missão ao transportar os alimentos em uma avião da Força Aérea Brasileira (FAB), todas as doações entregues naquele dia foram reunidas por comerciantes e funcionários da Ceagesp.

Permissionários da Ceagesp reuniram 74 toneladas de alimentos, que foram enviadas à Bahia com apoio das Forças Armadas. Foto: CEAGESP/Divulgação

A fala enganosa sobre a origem das doações aparece num vídeo gravado pela jornalista Mirian Ferreira, do site Vida Diária. Compartilhada no Facebook, a postagem tem mais de 1,3 milhão de visualizações. Leitores do Estadão também perguntaram pelo WhatsApp (11-97683-7490) se as informações eram verdadeiras.

Na gravação, Mirian está no pátio do Aeroporto de Teixeira de Freitas, próximo do local onde a aeronave da FAB pousou para entregar as doações para pessoas atingidas pelas enchentes. Ela passa a palavra a um homem chamado Pedro Álvares Cabral, que estaria coordenando a ação de entrega das cestas.

O homem distorce informações sobre a origem das doações. Ele diz que os alimentos foram doados “pelo presidente Bolsonaro, pelo ministro João Roma e pela primeira-dama, com apoio do Ceagesp de São Paulo”. Ele diz que a instituição Casarão Brasil está organizando a entrega das cestas básicas.

Casarão Brasil é um grupo conservador com sede na cidade baiana de Teixeira de Freitas. Um post no Instagram da instituição, chamada também de Casa do Conservador, diz que o grupo é “100% Bolsonaro”. No site oficial, há um banner para uma loja que vende produtos com a imagem do atual presidente, como copos, canecas, camisas e adesivos.

Cabral volta a citar Bolsonaro e João Roma no vídeo como doadores de cestas básicas que estão a caminho de Teixeira de Freitas por terra. A informação também não é verdadeira, já que os alimentos não perecíveis transportados em caminhões do Exército foram doados pela Ceagesp.

Procurada, a Ceagesp disse que as doações foram integralmente feitas por seus permissionários — comerciantes. Segundo a Companhia, “a missão emergencial foi uma iniciativa conjunta que envolveu vários órgãos do Governo Federal, como Ministério da Cidadania, Ministério do Desenvolvimento Social através do programa Pátria Voluntária, além da Ceagesp e das Forças Armadas do Brasil”. A entidade informou que a participação dos ministérios e das Forças Armadas se deu na operacionalização da missão.

O Ministério da Cidadania comunicou que entregou 6.849 cestas básicas no ano passado a famílias indígenas nos municípios de Eunápolis, Itamaraju e Porto Seguro. Também seriam encaminhadas 42.151 cestas à cidade de Vitória da Conquista neste ano. A nota do ministério não menciona entregas próprias em Teixeira de Freitas.

O Estadão Verifica procurou o coordenador do Casarão Brasil, Pedro Álvares Cabral, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

Mais de 70 toneladas de alimentos doados

No dia seguinte à entrega em Teixeira de Freitas, 17 de dezembro, a Ceagesp publicou em seu site um texto sobre as doações. Segundo a companhia, quase 74 toneladas de alimentos foram arrecadadas em 48 horas entre os permissionários. A mobilização começou em 14 de dezembro, durante uma confraternização no local. Um comerciante do setor de Pescados decidiu doar 1.040 bandas de peixe para a organização de um festival culinário. O dinheiro arrecadado com a venda do peixe assado foi destinado à compra de cerca de 1.700 cestas básicas para serem enviadas ao Sul da Bahia.

O permissionário José Luiz doou 1.040 bandas de peixe. Elas foram assadas no Festival do Tambaqui e a renda foi usada para comprar cestas básicas. Foto: CEAGESP/Divulgação

No mesmo dia do festival, o diretor-presidente da Ceagesp, coronel Mello Araújo, encaminhou um pedido de doações aos comerciantes. Em dois dias, eles conseguiram reunir quase 74 toneladas de alimentos, enviados à Bahia por intermédio da FAB. “No dia de realização da missão emergencial, todas as doações recebidas foram pesadas e, ao todo, foram contabilizados 73.911 quilos. Foi divulgado, então, no site oficial da Ceagesp, o total aproximado de 74 toneladas recebidas”, disse a Companhia, em nota.

Há um vídeo publicado no canal oficial da Ceagesp no YouTube que mostra as doações sendo colocadas em caminhões do Exército, levadas para o Aeroporto de Guarulhos e lá embarcadas na mesma aeronave da FAB que aparece no vídeo gravado em Teixeira de Freitas.

Carga sendo colocada em avião da FAB. Foto: Reprodução

Aeronave que chegou a Teixeira de Freitas tem as mesmas características da que aparece sendo carregada em Guarulhos na foto acima. Foto: Reprodução

Também no dia 17 de dezembro, a Força Aérea Brasileira publicou em seu site um texto sobre a missão do KC-390 Millenium, cuja primeira parte tinha sido cumprida na véspera. Segundo a FAB, a aeronave havia decolado de Guarulhos na tarde do dia 16, levando aproximadamente 15 toneladas de alimentos. A missão ainda continuaria no dia 17, com o transporte de mais 30 toneladas por via aérea e de outras 23 toneladas por terra. “Cerca de 45 toneladas em carga, doada pela Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), devem ser encaminhadas a Bahia durante os próximos dias”, diz o texto publicado pela FAB.

De acordo com o total de carga divulgado pela FAB, os alimentos transportados por ar e por terra totalizam 68 toneladas, seis a menos do que o divulgado pela Ceagesp. Em resposta ao Estadão Verifica, a Companhia confirmou que as 68 toneladas foram as doadas pelos comerciantes locais. “Sobre a diferença apontada (de 68 para 74 toneladas), acreditamos que possa ter ocorrido em função de embalagens, de caixas e de paletes que possam ter sido considerados no recebimento e não no momento do embarque. Confirmamos, então, as 68 toneladas encaminhadas ao Estado da Bahia”, diz a nota.

Força-tarefa do governo federal

O Ministério da Cidadania divulgou no site oficial, no dia 11 de dezembro, as ações realizadas por uma força-tarefa do governo federal para atender às vítimas das enchentes na Bahia. Entre as ações a cargo do ministério estava a “distribuição emergencial de cestas de alimentos às famílias dos territórios atingidos”. A estimativa inicial era de que 32 mil cestas fossem entregues, mas não há informações de que elas tenham sido diretamente doadas pelo ministério ou pelo ministro João Roma.

Por e-mail, o ministério informou que entregou no ano passado 6.849 cestas básicas a famílias indígenas residentes nos municípios baianos de Eunápolis, Itamaraju e Porto Seguro. “A operacionalização foi realizada pela Fundação Nacional do Índio (Funai)”, diz a nota.

Outras cestas serão entregues ao longo de janeiro de 2022. “Neste mês, a pasta emitiu ordem de serviço para entrega de 42.151 cestas destinadas aos municípios que se encontram em situação de emergência ou estado de calamidade com reconhecimento vigente pelo Governo Federal”, comunicou o ministério. “As cestas foram encaminhadas para Vitória da Conquista e serão entregues ao longo deste mês. Os processos de armazenamento e distribuição para as cidades contempladas são realizados em parceira com a Prefeitura de Vitória da Conquista”, completa a nota.

Já ao programa Pátria Voluntária, coordenado pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro, cabia, entre outras ações, o “envio, por meio das credenciadas e com apoio logístico dos Ministérios parceiros, de cestas básicas, água potável e demais itens de primeira necessidade para a população dos municípios atingidos”.

Em 20 de dezembro, o Ministério da Cidadania publicou outro texto sobre as ações no Sul da Bahia e norte de Minas Gerais. Desta vez, não estava entre as ações da Cidadania a distribuição de cestas, o que coube ao Ministério da Defesa: foram 30 toneladas de alimentos transportadas pelo KC-390 Millenium, além de distribuição de cestas e água potável em 22 municípios afetados, e do transporte de cestas básicas pela Marinha partindo de Salvador.

O Pátria Voluntária, àquela altura, havia disponibilizado R$ 1,8 milhão em recursos para “aquisição de cestas básicas, material de higiene pessoal e de proteção sanitária, colchões e demais itens de primeira necessidade para a população das localidades atingidas na Bahia e em Minas Gerais”. Os recursos foram doados através da iniciativa Arrecadação Solidária.

O Estadão Verifica procurou a Casa Civil, à qual é ligada o programa Pátria Voluntária, para saber se houve alguma doação direta de alimentos ou cestas básicas, além das aquisições feitas pelo programa, mas não obteve resposta.


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