Postagem engana ao comparar alta de preços no governo Dilma com valor atual da carne

Postagem engana ao comparar alta de preços no governo Dilma com valor atual da carne

Ex-presidente não mandou população comer ovo diante da alta da carne; preço do feijão na gestão petista não subiu por causa de doação a Cuba

Gabriela Brumatti, especial para o Estadão

07 de outubro de 2021 | 15h52

Atualizada às 17h30.

Diante da alta do preço da carne brasileira, voltou a circular nas redes sociais uma publicação enganosa que compara o momento atual com o regime de preços vivido no governo Dilma Rousseff (PT), de 2011 a 2016. A postagem mistura dados reais com informações equivocadas e compara períodos incompatíveis. O post foi compartilhado pela primeira vez em dezembro de 2019. 

O autor da publicação contesta as atuais reclamações sobre os gastos com a carne alegando que o item também sofreu uma disparada nos preços sob o governo de Dilma. De fato, na gestão da petista o produto teve picos de reajuste em relação à inflação, mas as variações atuais superam esses valores. Além disso, a ex-presidente não sugeriu que a população comesse ovo em substituição à proteína bovina — quem fez isso foi o então secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland. 

A postagem menciona ainda uma doação de feijão a Cuba como justificativa para o aumento do preço durante o governo de Dilma — na realidade, o produto sofreu alta devido à quebra de safra causada por condições climáticas.

Veja abaixo a checagem do Estadão Verifica sobre as afirmações feitas no post viral.

Inflação atual sobre a carne é maior

Em 2014, quando houve a maior alta dos preços no setor de carnes e peixes industrializados, os produtos alcançaram uma variação, em 12 meses, de mais de 12,5% da inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em agosto de 2021, o mesmo índice registrou um aumento de mais de 17,5% do acumulado da inflação nos últimos 12 meses, de acordo com dados do IBGE. 

Para o economista professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV) Ricardo Meirelles Faria, a publicação que circula nas redes sociais não considera que ocorreram desajustes econômicos completamente distintos nos dois momentos, o que gera comparações incompatíveis. “A inflação acumulada nesses itens é maior agora do que a enfrentada naquele período”, destacou. 

Sob o atual regime de inflação, o consumo de carne no Brasil caiu ao menor nível em 25 anos e sofreu uma alta anual de 35% no preço. A disparada do preço da carne e de outros alimentos foi causada, entre outros fatores, por desequilíbrios hidrológicos, pela seca e por respostas econômicas aos efeitos da pandemia.

“O que estamos vendo é resultado de choques diferentes em vários setores”, destacou Faria. “A origem da alta dos preços é um reflexo dos efeitos da pandemia nos suprimentos, mas também da crise hídrica e das geadas que ocorreram em meados do ano. Com o aquecimento global, essas instabilidades climáticas devem se tornar mais recorrentes e, com certeza, vão afetar essa volatilidade de preços agrícolas”. 

Carne ou ovo

Além dos dados equivocados, a publicação que viraliza nas redes sociais ainda sugere que a presidente Dilma Rousseff “mandou que todo mundo comesse ovo”, em substituição à carne. A declaração, na verdade, foi emitida pelo secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda na época. Márcio Holland sugeriu que fossem consumidos frangos e ovos, diante do aumento de preços da carne bovina. Dilma, no período, classificou a fala como “infeliz” e reforçou que “jamais” aconselharia as pessoas a trocarem alimentos.

Durante a gestão de Jair Bolsonaro (sem partido), uma fala relacionada à substituição de alimentos também causou polêmica. Em setembro de 2020, após a alta dos preços do arroz (que acumulava no ano uma inflação de 19,2%), o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, defendeu a substituição do consumo do produto por macarrão

Doação de feijão a Cuba

A postagem ainda destaca uma imagem que faz referência à doação de 645 toneladas de feijão ao Programa de Doação Humanitária de Alimentos do Brasil a Cuba, em 2015. O material associa o aumento do preço do feijão ao impacto da ação humanitária, que teria causado uma queda na oferta do produto no Brasil. 

Embora essa doação realmente tenha ocorrido e a deficiência de oferta tenha sido o motivo da alta de preços do feijão em 2016, os dois fatores não se relacionam. O preço do produto variou por conta de uma quebra de safra provocada por fenômenos climáticos que geraram estiagens no Sul e Sudeste do País, como o El Niño. Na época, o próprio PT negou que a doação teria sido a causa do aumento de preços do alimento e emitiu um comunicado oficial

Para o economista Antônio Márcio Buainain, professor do Núcleo de Economia Agrícola e Ambiental da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o motivo da alta de preços no passado só evidencia a impossibilidade de comparar períodos distintos. “Problemas climáticos ocorrem independentemente dos governos, que devem estar atentos às condições de abastecimento e intervir tempestivamente para mitigar os efeitos negativos dos eventos, em particular aqueles que pesam mais sobre as camadas mais vulneráveis da população”, afirmou.

O valor doado à Cuba em 2015 representou cerca de 0,0017% do total que o Brasil produziu de feijão na época, cerca de 38 milhões de toneladas de acordo com dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE. “É uma quantidade [doada] irrisória e incapaz de afetar os preços do feijão. Vale ressaltar que, independentemente do país, uma ação humanitária nesses moldes não deveria ser objeto deste tipo de disputa”, assegurou Ricardo Meirelles Faria.

Feijão a R$ 15

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os danos à safra de feijão de 2016 fizeram o mercado varejista pagar de R$ 12 a R$ 15 pelo quilo do alimento. Na época, a inflação estava em 0,78%. Atualmente, o preço do quilo do feijão praticado pelo varejo está em torno de R$ 9 sob um regime de inflação de 0,87%

Com a acelerada da taxa de juros e as constantes remarcações feitas nos valores dos produtos, o professor Antonio Márcio Buainain aponta que os preços do feijão nos próximos meses poderão atingir patamares como os do passado, caso a próxima safra não corresponda à demanda. “O resultado é difícil de predizer neste momento”, reforçou. “Os agricultores devem expandir a área cultivada para aproveitar os preços elevados, mas a produção final dependerá do clima, e os preços dependerão das condições gerais da economia. O feijão é produto básico, difícil de substituir. Se as famílias tiverem renda, vão comprar e pagar mais caro”.

Efeito da inflação

Os últimos dados obtidos pelo IPCA mostram que o preço do item geral “carnes” cresceu mais de 8% no acumulado do ano pelo IBGE. O feijão preto também enfrenta uma alta da inflação acumulada em 4,37% e a categoria “carnes e peixes industrializados” acumula um aumento de 8,04% com relação ao ano anterior.  

A costela, por exemplo, atingiu 51,2% de variação no acumulado em doze meses em outubro de 2020, a maior alta dos últimos 13 anos. O acém também possui variações muito superiores ao período de 2011 a 2016; este item alcançou, em maio de 2021, uma variação acumulada de 40,6% contra 26,9% no pico da inflação ocorrida em final de 2014.

Até mesmo a alcatra, que passou por altas expressivas nos anos de gestão da presidente Dilma Rousseff, supera o crescimento de preço praticado no passado. A peça registra aumento de mais de 28% no acumulado dos últimos doze meses. 

Diante desse cenário, o professor Meirelles Faria destaca as expectativas para o cenário futuro. “As projeções são de que, até meados do ano que vem, os índices se mantenham em alta. A variação de preços para este ano está dada e as ações para conter a inflação só devem ter efeito no ano seguinte”, afirmou. 


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