Corrente no WhatsApp divulga dados enganosos sobre combate à exportação de madeira ilegal
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Corrente no WhatsApp divulga dados enganosos sobre combate à exportação de madeira ilegal

Técnica de detecção de isótopos busca localizar a origem, não o destino de madeira nativa

Pedro Prata

24 de novembro de 2020 | 16h03

Um texto que viralizou nas redes sociais traz dados incorretos sobre uma estratégia utilizada por órgãos ambientais e pela Polícia Federal para combater a exportação de madeira ilegal. O tema ganhou repercussão após o presidente Jair Bolsonaro gravar vídeos afirmando que divulgaria uma lista de países que compram madeira brasileira extraída ilegalmente. Um leitor do Estadão Verifica pediu a checagem deste conteúdo por meio do WhatsApp (11 97683-7490).

O texto afirma enganosamente que “o Governo Federal, junto com a Polícia Federal, criou uma estratégia para desbaratar o contrabando Internacional de madeira extraída ilegalmente da Amazônia. Eles colocam um isótopo radioativo nesta madeira no intuito de descobrir para quais países o contrabando estava indo”.

Combate À extração ilegal de madeira se tornou alvo de desinformação nas redes. Foto: Alex Ribeiro/Pará Notícias

O Serviço Florestal Brasileiro informou que a estratégia citada busca identificar a origem da madeira — não o seu destino — a partir da leitura dos seus “isótopos”, isto é, da concentração de átomos com características específicas. Essa concentração varia dependendo da região onde a madeira cresceu.

“A técnica não envolve ‘colocar um isótopo na madeira’, mas sim fazer uma leitura das quantidades desses isótopos presentes naturalmente nesse material”, informou o órgão ao Estadão Verifica. Os isótopos analisados na madeira são os do carbono e do oxigênio.

O Serviço Florestal Brasileiro reforçou que a técnica não permite dizer qual é a destinação dessa madeira: “Essa técnica não é capaz de dizer para onde vai essa madeira, já que essa é uma questão determinada por escolhas comerciais, não tendo nenhuma relação com a composição química do material.”

O órgão, por meio do Laboratório de Produtos Florestais, trabalha em parceria com a Polícia Federal por meio de cursos de identificação da madeira e pela emissão de laudos periciais nas madeiras apreendidas. Segundo o Serviço Florestal, esta parceria ocorre “há mais de 10 anos”.

A Superintendência da PF no Amazonas confirmou que a técnica serve para identificar a origem da madeira. Segundo a corporação, a rastreabilidade da madeira é feita por meio de duas técnicas. A primeira delas é o “espectrômetro de massas” que, como explicado acima, permite identificar as “características únicas da origem geográfica” da madeira.

Somando-se a isso, a PF utiliza imagens do sistema de satélites do programa BRASIL MAIS para observar a área indicada pelo laudo científico. “O uso dessas tecnologias possibilita que a Polícia Federal identifique eventuais divergências nas informações apontadas nos documentos” necessários para exportação e transporte da carga, informou a corporação.

Exportação ilegal de madeira

Em uma de suas lives semanais nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro comentou sobre a técnica. Sem dizer o seu nome, falou que a PF identificava o “DNA” da madeira. Já em discurso virtual na cúpula dos BRICS, grupo composto por África do Sul, Brasil, China, Índia e Rússia, em 17 de novembro, ameaçou “divulgar lista com os países que compram a madeira extraída ilegalmente”. A fala seria um ataque a países europeus que criticam a política ambiental de Bolsonaro, mas que supostamente seriam alguns dos destinos da madeira extraída ilegalmente. Após a repercussão negativa, o presidente recuou e disse que possuía o nome de empresas, não de nações. 

O discurso de Bolsonaro na cúpula dos BRICS foi noticiado por veículos de comunicação profissionais, dentre eles, o Jornal Nacional. Na mesma edição do dia 17, a emissora veiculou outra reportagem que mostrava como uma medida do presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, em março, flexibilizou exigências para a exportação de madeira de origem nativa.

A matéria foi baseada em reportagem veiculada inicialmente pelo Estadão, e não se referia à técnica de identificação de isótopos. Segundo o Estadão, em março o Ibama acabou com a necessidade de uma autorização específica para a exportação de madeira. A medida foi parabenizada por madeireiros do Pará.

Na edição daquela noite, a Globo anunciou a reportagem. No entanto, problemas técnicos não permitiram que a matéria fosse ao ar naquele primeiro momento. Mais tarde, a reportagem foi exibida normalmente.

Perfis bolsonaristas repercutiram a falha inicial na transmissão em um vídeo no Twitter e no Facebook, que foi compartilhado mais de 25 mil vezes. A peça de desinformação afirma que o incidente seria uma tentativa falha da emissora em atacar a política ambiental do presidente Bolsonaro. O vídeo viral, porém, engana ao não mostrar que o telejornal foi para o intervalo comercial e voltou com a reportagem normalmente (veja aqui, a partir de 28:14).

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