Contaminado pelo coronavírus, caso de Stênio Garcia é tirado de contexto para desencorajar vacinação

Contaminado pelo coronavírus, caso de Stênio Garcia é tirado de contexto para desencorajar vacinação

Mulher do ator fez relatos nas redes sociais nos quais disse que ele testou positivo para covid-19 mesmo após ser imunizado

Pedro Prata

19 de abril de 2021 | 14h35

Postagens nas redes sociais usam o caso do ator Stênio Garcia, infectado pelo novo coronavírus mesmo após ser imunizado, para desencorajar a vacinação no País e atacar a eficácia da Coronavac, que foi comprovada em estudos científicos. As postagens analisadas pelo Estadão Verifica compartilham manchetes de notícias sobre Garcia juntamente com mensagens como “(vacinas) funcionam mesmo?” e “estão enganando o povo?” Esses posts ignoram o fato do ator ter sido contaminado poucos dias após tomar a segunda dose, antes do tempo necessário estimado para o corpo desenvolver a proteção imunológica.

Em 9 de abril, a mulher de Stênio, Marilene Saade, disse em seu Instagram que o marido havia testado positivo para o novo coronavírus. Mesmo que ele não tenha apresentado sintomas graves — apenas passou a espirrar com maior frequência — Saade disse que o casal se preocupou, uma vez que ele já havia tomado as duas doses da Coronavac em 9 de fevereiro e 9 de março.

Ator Stênio Garcia. Foto: Fabio Motta/Estadão

Ela fez várias postagens no Instagram nas quais relatava exames feitos por Stênio Garcia e o progresso do seu quadro clínico, que se manteve sem sintomas. Em 15 de abril, Marilene explicou que o ator provavelmente se contaminou em 13 de março, apenas quatro dias após tomar a segunda dose da vacina, quando foi visitado por uma pessoa que estava contaminada de forma assintomática e não sabia.

“Como pode ter tomado as duas doses e não ter anticorpos? É a pergunta que está nos deixando muito preocupados”, havia escrito Saade na rede social. Dias depois ela recuou, e disse que novos exames mostraram que o ator havia gerado anticorpos. Como disse o médico de Stênio, foram esses anticorpos que evitaram que seu quadro se agravasse.

“A vacina protege (contra) casos graves e moderados. Stênio não teve nem sintomas leves, já que espirros são mais questões alérgicas. Enfim, todos têm que se cuidar até que todo o mundo esteja imunizado”, recomendou Saade em 14 de abril.

Os especialistas alertam que é preciso receber as duas doses da vacina para que se tenha a proteção encontrada nos estudos clínicos. Além disso, deve-se aguardar um período de cerca de 20 dias após tomar o reforço do imunizante para que haja tempo do corpo ter a resposta imunológica. Por isso, é esperado que Stênio pudesse se contaminar, tendo em vista que isso teria ocorrido, segundo a esposa, apenas quatro dias após a segunda dose.

“Nós somos a favor da vacina sim, porque quando 80% das pessoas tiverem tomado as duas doses, a circulação do vírus com certeza será contida”, disse Saade.

Estudos científicos provaram eficácia da Coronavac

A Coronavac é a vacina desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac. No Brasil, a farmacêutica tem parceria com o Instituto Butantan, que conduziu estudos clínicos de fase 3 no País com mais de 12 mil voluntários, todos profissionais da saúde. Sua eficácia geral ficou em 50,38%, o que quer dizer que as pessoas imunizadas têm 50% a menos de chance de desenvolver a doença do que uma pessoa não vacinada. O Instituto Butantan diz ainda que essa eficácia é de 78% para casos leves que precisam de alguma intervenção médica.

Apenas sete pessoas do estudo desenvolveram casos graves da doença e nenhuma delas havia tomado a vacina. No entanto, o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse que esse número é muito baixo estatisticamente para se poder tirar conclusões sobre a eficácia do imunizante contra casos graves. “É um dado ainda pequeno, não tem significância estatística, embora demonstre uma tendência e esperamos que se confirme”, afirmou Ricardo Palacios, diretor médico de pesquisa clínica do Butantan.

Em seu site, o Butantan explica que “algumas pessoas ainda podem ter a doença ou a infecção mesmo tendo sido vacinadas, mas poderão ter uma forma menos grave da doença”. Isso não quer dizer que a vacina seja ineficaz. Na atual situação da pandemia, os governos precisam de um imunizante que impeça mortes e evite que as pessoas tenham quadros graves, pois os sistemas de saúde do mundo todo não têm capacidade de acolher a quantidade de pacientes que o coronavírus é capaz de infectar em tão pouco tempo. E quanto a isso, as vacinas atualmente disponíveis se mostraram eficazes.

Durante a coletiva de imprensa para divulgação dos dados de eficácia da Coronavac, especialistas alertaram que como a vacina reduz 50% a chance de infecção, se faz necessário imunizar um número maior de pessoas para que se consiga frear a pandemia. Até esta segunda-feira, 19, a Coronavac representava 76,2% de todas as mais de 53 milhões de doses enviadas pelo Ministério da Saúde a Estados e municípios. Você pode conferir um guia com as principais dúvidas e respostas sobre a Coronavac no site do Butantan.

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