Conmebol proíbe bandeiras em premiação da Copa América; veto não é relacionado à ‘esquerda’

Conmebol proíbe bandeiras em premiação da Copa América; veto não é relacionado à ‘esquerda’

Vídeo no Facebook afirma que a esquerda teria impedido jogadora brasileira de comemorar o título sul-americano com a bandeira nacional; na verdade, restrição é para todos os países e vale apenas durante cerimônia de premiação

Clarissa Pacheco

04 de agosto de 2022 | 16h19

A esquerda não é a culpada pela ausência da bandeira do Brasil na cerimônia de premiação da Copa América Feminina 2022, no último sábado, 30. Logo que a Seleção Feminina conquistou o título sobre a Colômbia por 1×0, começou a circular na internet um vídeo que mostra a atacante brasileira Gio Queiroz, com a camisa 19, sendo abordada a caminho da cerimônia de premiação e imediatamente entregando a bandeira que levava nas costas a um homem de terno.

A imagem viralizou em posts que insinuavam que a culpa da proibição do uso da bandeira era da esquerda. No Facebook, logo após tratar a situação como absurda, o empresário Luciano Hang acrescentou: “Eita esquerda desgraçada, esquerda nojenta!”. A saída da bandeira, contudo, não tem qualquer relação com a esquerda. Na verdade, o Regulamento da Copa América Feminina 2022, publicado em 6 de abril deste ano pela Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), proíbe o uso de bandeiras de países durante a cerimônia de premiação.

O artigo 107 do regulamento estabelece que é obrigatório o uso do uniforme oficial durante a entrega das medalhas e do troféu. “Não se permitirá na cerimônia atletas com o torso nu, com indumentárias que façam alguma alusão comercial, portando bandeiras com alguma inscrição ou com bandeiras de seus países”, diz o parágrafo único do artigo 107 do Regulamento. As bandeiras também são proibidas nos atos protocolares de entrada das jogadoras em campo, antes das partidas, como mostra o artigo 43.

O documento, que está disponível no site da Conmebol, diz ainda que manifestações políticas, religiosas ou de cunho pessoal são proibidas em todas as partidas de torneios com seleções nacionais, tanto dentro de campo quanto nas demais áreas oficiais da competição.

Em nota, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) confirmou que a restrição constava no Regulamento da Conmebol. “Foi uma  medida regulamentar da organização, reforçada, no dia anterior ao jogo, durante da reunião de coordenação com representantes das seleções envolvidas. Não há qualquer restrição interna imposta pela CBF ou pela comissão de Seleção Brasileira quanto ao uso da bandeira. Inclusive, cabe informar que, antes da competição, várias jogadoras posaram com a bandeira LGBTQIA+ como parte de uma campanha institucional da CBF contra a homofobia e a violência”, diz a nota.

A Conmebol informou que o homem que solicitou a bandeira à jogadora brasileira é um dos árbitros da partida. A confederação destacou que a bandeira foi solicitada “amavelmente” e devolvida à atleta logo após a cerimônia de premiação, em respeito ao regulamento da competição publicado em 6 de abril de 2022. Ainda segundo a Conmebol, os protocolos de premiação são similares em todos os torneios vigentes da entidade.

Bandeira aparece na comemoração

Mais um indício de que a bandeira do Brasil não era proibida nas comemorações do título, e sim apenas no momento oficial de premiação, é o fato de ela aparecer em imagens oficiais da CBF, feitas ainda no estádio Alfonso López, em Bucaramanga, onde ocorreu a partida.

Bandeira do Brasil está na comemoração, ainda no estádio. Foto: Thais Magalhães/CBF

A mesma imagem aparece em um vídeo publicado no Instagram da Seleção Feminina de Futebol em parceria com o patrocinador da equipe. Além disso, a jogadora Gio Queiroz, que aparece no vídeo entregando a bandeira ao homem que a interceptou, postou fotos em suas redes sociais com o troféu e a bandeira. Nas duas imagens publicadas no Instagram em 31 de julho, dia seguinte à partida, a atacante leva a bandeira sobre os ombros.

Foto: Reprodução/Instagram

Mais duas fotos postadas pela jogadora no Twitter mostram Gio Queiroz deitada sobre duas poltronas de um ônibus, envolta na bandeira nacional e abraçada ao troféu. Há, ainda, uma imagem publicada no Twitter pela comentarista esportiva Cíntia Barlem que mostra Giovana no gramado, após a premiação, envolta na bandeira. Ela está ao lado da meio-campista Formiga, que jogou pela Seleção Brasileira por 26 anos e se aposentou em novembro do ano passado aos 43 anos.

Proibida?

No mês passado, o posicionamento de uma juíza eleitoral do Rio Grande do Sul causou polêmica entre bolsonaristas. A magistrada Ana Lúcia Todeschini Martinez, titular do cartório eleitoral de Santo Antônio das Missões, disse durante uma reunião com representantes de partidos políticos que o uso da bandeira nacional seria considerado propaganda eleitoral. O argumento da juíza foi de que a bandeira seria, atualmente, usada como símbolo por um dos lados da política.

Após a reunião, representantes de partidos fizeram uma consulta ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-MG), que debateu a questão em uma sessão do dia 15 de julho e decidiu que “o uso dos símbolos nacionais não tem coloração governamental, ideológica ou partidária, sem prejuízo de que eventuais desrespeitos à legislação sejam objeto de análise e manifestação futuras da Justiça eleitoral”.

O empresário Luciano Hang, autor do post no Facebook que questiona se o uso da bandeira nacional é crime e que atribui a decisão de restringir a bandeira à esquerda, foi procurado por e-mail, mas não respondeu até a publicação desta checagem.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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