É falso que PM do Rio de Janeiro tenha desafiado Luiz Fux a participar de operação em favelas

É falso que PM do Rio de Janeiro tenha desafiado Luiz Fux a participar de operação em favelas

Boato não indica origem da suposta declaração e foi negado pelo órgão de segurança pública

Samuel Lima

02 de junho de 2022 | 19h00

É falso que o comando da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) tenha desafiado o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, e outros ministros da Corte a vestir uma farda e participar de operações em favelas. A alegação circula em boato no Twitter e no Facebook, mas não há registro de declaração nesse sentido em notícias e outras fontes confiáveis. A PMERJ nega a informação.

“Fux pediu explicação para as mortes de traficantes na comunidade do RJ e o comandante da PM fez a seguinte colocação: vista uma roupa da polícia militar, junto com outros ministros do STF, empunhem um fuzil, entrem em uma favela do RJ e vocês terão explicações”, inventa o post viral. O Estadão Verifica usou palavras-chave e ferramentas de busca avançada do Google para procurar algum relato do tipo na internet, mas encontrou apenas diferentes versões do material falso, que não traz nenhum indicativo de origem da frase. 

Procurada pela reportagem, a PMERJ desmentiu o relato e ressaltou que o conteúdo analisado espalha uma foto do coronel Luís Cláudio Laviano, que não ocupa mais o cargo desde janeiro de 2019. A imagem é da posse de Laviano, em março de 2018, e consta em notícia da Agência Brasil. 

O post falso se refere especificamente ao ministro Luiz Fux porque o magistrado recentemente cobrou explicações da Polícia Militar depois de uma operação que deixou 23 mortos na Vila Cruzeiro, uma das favelas do Complexo da Penha, na Zona Norte da capital fluminense, no dia 24 de maio. Foi a segunda operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro

Ainda que o conteúdo acuse as vítimas da Vila Cruzeiro de serem “traficantes”, levantamento do Estadão mostrou que 11 das 23 vítimas não respondiam a processos criminais na Justiça. Uma delas foi a cabeleireira Gabriella Ferreira da Cunha, de 41 anos, que morreu após ser atingida por uma bala perdida dentro de casa, na favela da Chatuba. Os demais, segundo a polícia, morreram em confrontos.

A ação foi conduzida por agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF). A PM declarou que os homens foram atacados a tiros quando iniciavam uma “operação emergencial” na comunidade, que buscava prender chefes do Comando Vermelho que estariam abrigados na Vila Cruzeiro.

Ao comentar sobre a atuação dos policiais, o atual secretário da PMERJ, coronel Luiz Henrique Marinho Pires, culpou o STF pela “migração” de criminosos ao Rio de Janeiro. Ele se referiu a uma medida cautelar que restringiu a casos “absolutamente excepcionais” as incursões policiais em comunidades durante a pandemia, dentro de uma ação ajuizada pelo PSB (ADPF 635). A liminar foi deferida pelo ministro Edson Fachin e confirmada pela maioria dos membros da Corte em 2020.

Em sessão plenária no dia 26 de maio, o ministro Gilmar Mendes criticou as declarações de Pires e recebeu apoio do presidente do Supremo, Luiz Fux, que reagiu dizendo: “A Polícia Militar deve satisfações e estou aguardando”. Dias depois, Fux e Pires conversaram pessoalmente no Palácio Guanabara. O governador Cláudio Castro (PL) também se encontrou com Fachin; na ocasião, prometeu elaborar um plano para reduzir a letalidade policial dentro de 60 dias.

A mesma peça de desinformação foi desmentida por Aos Fatos e Boatos.org.

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