Post viral usa alegações falsas e fora de contexto para dizer que ‘mamata’ acabou para artistas

Post viral usa alegações falsas e fora de contexto para dizer que ‘mamata’ acabou para artistas

Xuxa e Claudia Raia colocaram casas à venda antes do governo Bolsonaro; Gerald Thomas não foi preso por dívidas

Pedro Prata

20 de outubro de 2021 | 11h34

Uma postagem enganosa no Facebook afirma que a apresentadora Xuxa e a atriz Cláudia Raia tiveram que “vender suas mansões” após a “torneira do dinheiro fácil ser fechada” — uma referência à postura do governo Jair Bolsonaro de diminuir o apoio a políticas de fomento cultural. Na realidade, as duas personalidades colocaram os imóveis à venda antes mesmo de o presidente assumir o cargo, por motivos pessoais. O post também afirma que o dramaturgo Gerald Thomas teria sido preso por dívidas de aluguel na Inglaterra — o que não aconteceu.

A postagem tem o título “acabou a mamata” e obteve 14 mil compartilhamentos no Facebook em uma semana. A publicação traz outras informações enganosas sobre artistas que demonstraram posicionamentos contrários ao governo federal. Veja abaixo a checagem do Estadão Verifica.

Foto: Reprodução

Mansões à venda

O boato cita o fato da atriz Claudia Raia ter vendido sua mansão. Isso realmente ocorreu em março deste ano, segundo o site Notícias da TV. O motivo para a venda seria o fato de a atriz ter se divorciado do ator Edson Celulari, em 2010. A mansão estava à venda desde 2014, como mostra esta reportagem daquele ano. É enganoso relacionar o fato ao governo de Jair Bolsonaro.

A publicação enganosa também cita a venda da casa de Xuxa Meneghel. A revista Quem informou que a apresentadora colocou a mansão à venda em 2018, antes mesmo da eleição de Bolsonaro. Segundo a reportagem, Xuxa não queria mais morar na casa depois que sua mãe morreu em maio do mesmo ano.

Gerald Thomas

O boato inventa que o diretor de teatro Gerald Thomas “se mandou daqui e acaba de ser preso na Inglaterra, seu país de origem, por dívidas de aluguel”. A informação é falsa.

Thomas vive em Nova York, nos Estados Unidos. Em setembro deste ano, vazou um vídeo no qual ele pedia a amigos que comprassem seus desenhos e ilustrações para que ele pudesse quitar uma dívida de aluguel e assim evitar ser despejado. À revista Veja, o dramaturgo disse que mandou o vídeo para um único amigo, que acabou divulgando a gravação. Afirmou também ter recebido um auxílio do governo do estado de Nova York para pagar o aluguel.

Gerald Thomas produziu e dirigiu peças e óperas em vários países ao longo de sua carreira. Segundo disse à revista Piauí, ele mantinha uma vida financeira desregrada que o levou a ter que vender um apartamento na Suíça e entregar um apartamento alugado em Londres, em 2018. Ficou com o apartamento também alugado em que morava em Nova York. No entanto, a dificuldade financeira voltou a apertar com a pandemia de covid-19 e o fechamento de teatros e cinemas.

Silvia Buarque

O boato cita dificuldades financeiras da atriz Silvia Buarque, filha de Chico Buarque com Marieta Severo. Em setembro, ela deu uma entrevista ao jornal O Globo por ocasião da estreia de um filme em que ela atua. No encontro, a repórter perguntou se ela conseguia se sustentar com o salário de atriz de teatro, ao que ela respondeu que conta com ajuda financeira dos pais. “Tenho a vantagem de ter pais que entendem essa situação. Sabem que não vim ao mundo a passeio, que ralo. Então, eles me ajudam mesmo.”

A atriz se referia ao fato de ter passado parte da carreira em trabalhos no teatro e no cinema e receber menos convites para trabalhar na televisão. Essa frase foi tirada de contexto. Silvia Buarque não faz qualquer menção de que sua situação financeira tenha começado recentemente ou que esteja restrita ao governo Bolsonaro. Também não há menção a alterações na Lei Rouanet.

Ivan Lins

A postagem ainda diz que o cantor Ivan Lins estaria “voltando a morar no Brasil”. Apesar disso, não há nenhuma notícia publicada na mídia profissional sobre o assunto.

Recentemente, começou a circular a notícia de que Lins se apresentaria na sessão de encerramento da CPI da Pandemia no Senado. Isso motivou uma série de críticas por parte dos apoiadores do presidente nas redes sociais. O filho do cantor e sua assessoria negaram o fato. “O Ivan é a favor da CPI, mas isso não foi confirmado. Esse convite existiu, mas o Ivan não confirmou que ia”, disse João Lins ao portal Splash, do UOL. Ainda segundo eles, o cantor atualmente possui shows marcados na Europa.

Bolsonaro e a cultura

O presidente Jair Bolsonaro fez ataques à classe artística durante sua campanha presidencial. Após sua eleição, muitos artistas acusaram o governo de demorar para liberar verbas de projetos já aprovados. Em 2020, cerca de 400 projetos perderam R$ 500 milhões já captados, que já haviam sido aprovados pela área técnica do governo. Faltava apenas a assinatura do secretário nacional de fomento à cultura, André Porciúncula.

Esse conteúdo também foi checado pelo Boatos.org.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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