Checamos a sabatina de Marina Silva – veja o resultado

Alessandra Monnerat e Caio Sartori

28 de agosto de 2018 | 18h44

O Estadão Verifica checou o discurso de Marina Silva (Rede) na Sabatina Estadão-Faap, realizada na tarde desta terça-feira, 28. Com base no grau de veracidade ou ausência de compromisso com os fatos, declarações receberam uma “nota”, expressa em uma escala de um a quatro “pinocchios”. Para aplicar essa gradação, o Estado se inspirou na sessão “Fact Checker” do jornal Washington Post, publicada desde 2007.

O Pinocchio – boneco de madeira cujo nariz cresce quando conta uma mentira, segundo a história infantil criada pelo italiano Carlo Collodi  – também recupera capas históricas do antigo Jornal da Tarde, do Grupo Estado, que em 1982 publicou em diversas edições imagens de Paulo Maluf com o nariz dilatado, apontando inverdades do então governador.

A assessoria de Marina foi contactada às 17h51 sobre a checagem, mas não respondeu até as 19h31 desta terça.

“Na Alemanha, a primeira-ministra Angela Merkel ficou cinco meses tentando fazer um acordo de governo.”

Verdade

Questionada sobre como faria para ter governabilidade, Marina citou como exemplo o caso recente da Alemanha, onde a democrata-cristã Angela Merkel demorou para conseguir formar maioria em seu novo governo. De fato, foram mais de quatro meses de negociação até o acordo com os social-democratas, em fevereiro deste ano.

“Nas democracias mais maduras e evoluídas, temas com essa complexidade, de natureza filosófica, moral, religiosa, ética, política, são decididos por plebiscitos. Se for para ampliar para além do que já existe, que 513 deputados não substituam 200 milhões de brasileiros. É isso que eu defendo (sobre aborto)”.

Meia verdade

Ao falar sobre a convocação de um plebiscito para discutir a descriminalização ou não do aborto, Marina afirmou que, em países evoluídos, essas discussões passam pela consulta popular. No entanto, apesar de haver exemplos recentes disso, como foi em Portugal e na Irlanda, há outros países democráticos nos quais o aborto foi descriminalizado via parlamento (França e Itália, por exemplo) ou por meio do Poder Judiciário (Estados Unidos).

“O Brasil, que era o País do pleno emprego, que tinha tirado mais de 40 milhões de pessoas da pobreza, que vinha de um processo de conquistas avançando e que nos dava ânimo, de repente se descobre o País com 13 milhões de desempregados, que já devolveu para a pobreza todos que haviam saído.”

Majoritariamente verdade

Marina exagerou a dizer que o País tirou 40 milhões de pessoas da pobreza. Esse número era, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o relativo aos que estavam abaixo da linha de pobreza em 2002, antes do primeiro governo Lula. Em 2014 — último ano do primeiro governo Dilma e quando a crise econômica começou a aparecer —, o número estava em 14,2 milhões de pessoas. Uma melhoria significativa, mas não de 40 milhões. Sobre a atual quantidade de desempregados, Marina está certa. Segundo o último levantamento do IBGE, 13 milhões de brasileiros estão sem emprego, o que corresponde a 12,4% da população.

“Na Reforma Trabalhista, tem algumas coisas pré-modernas, como o trabalhador só ter 30 minutos para almoçar”

Meia verdade

De fato, a reforma trabalhista apresentada e aprovada pelo governo de Michel Temer prevê a possibilidade de haver um intervalo de apenas 30 minutos, em vez de 1 hora, para o almoço. Contudo, é preciso que essa redução seja estabelecida por convenção coletiva (entre sindicato patronal e sindicato dos trabalhadores) ou acordo coletivo (de determinado sindicato com a empresa). O único caso em que é possível ter o intervalo de 30 minutos sem passar por convenção ou acordo coletivo é o de empregados com diploma de nível superior e que recebam salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social. Ou seja, trabalhadores que são mais escolarizados e ganham bem — e que portanto estariam menos vulneráveis na negociação.

“Dilma ganhou a eleição sem apresentar” (programa de governo).

Verdade

De fato, a presidente cassada Dilma Rousseff foi criticada durante a campanha de 2014 por não ter apresentado um programa de governo detalhado, apenas diretrizes obrigatórias segundo regras do TSE. Também em 2010 a petista não documentou propostas detalhadas: apenas lançou um panfleto com 13 compromissos, cinco dias antes do segundo turno.

“Temos 50 milhões de hectares de área degradada. Desses, 30 milhões estão no cerrado brasileiro.”

Majoritariamente verdade

Na verdade, a quantidade de hectares de área degradada é ainda maior que o número citado por Marina: ultrapassa os 130 milhões, segundo dado de 2016 da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A candidata da Rede praticamente acerta, porém, quando diz que 30 milhões estão no Cerrado brasileiro — eram 32 milhões de hectares de pasto aquém do ideal em 2014, de acordo com a Embrapa.

“63 mil pessoas estão sendo assassinadas. Dessas 63 mil, 33 mil são jovens negros de periferia.”

Meia verdade

Marina quase acerta ao citar o número de assassinados no País em 2016, último ano com dados analisados pelo Atlas da Violência 2018. Foram 62,5 mil homicídios. No entanto, a candidata da Rede misturou informações ao dizer que 33 mil foram “jovens negros de periferia”. Essa é, na verdade, a quantidade total de jovens mortos.

“A Capes sofreu um corte inaceitável de recursos e nós vamos recuperar à medida em que se recupere o orçamento público, cada vez mais os recursos do Ministério de Ciência e Tecnologia, os investimentos na área de Ciência e Tecnologia”.

Meia verdade

É verdade que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) sofreu com cortes neste ano. No entanto, o órgão não é ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, como dito por Marina, e sim ao Ministério da Educação.

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