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Checamos a sabatina de João Amoêdo – veja o resultado

Daniel Bramatti, Alessandra Monnerat e Caio Sartori

28 Agosto 2018 | 15h33

O Estadão Verifica checou as declarações de João Amoêdo (Novo) na Sabatina Estadão-Faap, realizada na manhã desta terça-feira, 28. Com base no grau de veracidade ou ausência de compromisso com os fatos, manifestações receberam uma “nota”, expressa em uma escala de um a quatro “pinocchios”. Para aplicar essa gradação, o Estado se inspirou na sessão “Fact Checker” do jornal Washington Post, publicada desde 2007.

O Pinocchio – boneco de madeira cujo nariz cresce quando conta uma mentira, segundo a história infantil criada pelo italiano Carlo Collodi  – também recupera capas históricas do antigo Jornal da Tarde, do Grupo Estado, que em 1982 publicou em diversas edições imagens de Paulo Maluf com o nariz dilatado, apontando inverdades do então governador.

“Maior parte da verba do Fundo Eleitoral foi distribuída entre os partidos mais investigados pela Lava Jato”

Verdade

Se considerarmos os partidos que têm mais parlamentares com processos no Supremo Tribunal Federal (STF), quem mais aparece é o PP, com 35 congressistas. O partido é o quarto que mais recebeu repasses do novo Fundo Eleitoral (R$ 131 milhões). Os que mais receberam dinheiro do fundo foram o MDB (R$ 234,2 milhões), PT (R$ 212,2 milhões) e PSDB (R$ 185,8 milhões), seguidos pelo PP. Na lista de parlamentares alvos da Lava Jato, PT e MDB aparecem empatados em segundo, com 32 cada. O PSDB é o quarto, com 26. 

“No Uruguai, a criminalidade aumentou” (após legalização da maconha)

Verdade

Reportagem do jornal El País de 10 de agosto cita dados extraoficiais do primeiro semestre de 2018 que indicam aumento na criminalidade do Uruguai após legalização da maconha. No primeiro semestre deste ano, foram registrados 215 homicídios no País, ante 131 no mesmo período de 2017. De acordo com a reportagem, os números estão ligados ao acerto de contas entre narcotraficantes. No entanto, o Ministério do Interior uruguaio ainda não divulgou as estatísticas oficiais. Em 2017, 283 pessoas foram assassinadas, segundo as estatísticas do governo. Um ligeiro aumento em relação ao ano anterior, quando houve 268 homicídios. O País tem taxa de 8,3 homicídios por 100 mil habitantes — em comparação, a média do Brasil é de 30,8.

“Grande maioria da população votou contra” (desarmamento)

Verdade

Em 2005, a população foi convocada para um referendo sobre a entrada em vigor do artigo 35 do Estatuto do Desarmamento, que proibiria o comércio de armas de fogo. Nas urnas, o “não” venceu, com 63,6% dos votos. Ou seja, os eleitores optaram por não endurecer as regras de venda.

O estatuto, porém, é mais detalhado e entrou em vigor dois anos antes do referendo, com a sanção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro de 2003. Segundo o Atlas da Violência, a legislação já ajudou a evitar milhares de mortes. Só em 2012, por exemplo, cerca de 31 mil óbitos por arma de fogo teriam sido evitadas, de acordo com o relatório. A avaliação tem como base a evolução observada de 1993 a 2003, pré-estatuto, período em que os homicídios cresceram 7,8% ao ano, com 36,1 mil mortes em 2003. Se o ritmo continuasse assim, teriam sido registrados 71,1 mil homicídios em 2012.

“Correio entrega 30% das correspondências com atraso”

Meia verdade

Os dados se referem a um levantamento da empresa Synapcom, de gestão de e-commerce. Em 26 de fevereiro deste ano, o jornal O Globo repercutiu os números, que apontam que 30% das encomendas dos Correios chegam com atraso. No Rio, o porcentual chega a 50%. O levantamento, no entanto, é sobre pedidos de compras feitas pela internet, e não representa todas as correspondências entregues pelos Correios. Em resposta, a assessoria de Amoêdo confirmou que a reportagem foi usada como fonte para a declaração.

“Cooperativas de crédito representam 4% do crédito; nos Estados Unidos, representam 40%”

Majoritariamente verdade

Segundo uma reportagem de 10 de julho da revista Exame, instituições como Sicoob e Sicredi respondem por apenas 3% das operações de crédito. De acordo com o Banco Central, uma cooperativa de crédito é definida como “instituição financeira formada por uma associação autônoma de pessoas unidas voluntariamente, com forma e natureza jurídica próprias, de natureza civil, sem fins lucrativos”.

Nos Estados Unidos, as cooperativas de crédito têm 11,1% do mercado de crédito a consumidores, de acordo com números de maio de 2018 da Credit Union National Association (CUNA). No mesmo período, a associação registrou que as cooperativas tinham 14,1% do mercado de empréstimo.

Documento

Consultada sobre o assunto, a assessoria do candidato informou que Amoêdo se referiu ao número de cooperados em relação à população economicamente ativa. No Brasil, são 3,7%, de acordo com dados do Banco Central de 2016; e nos Estados Unidos, cerca de 45%, segundo dados da CUNA de 2018.

“Este ano a gente já pagou mais de 1,4 trilhão de impostos. Dá mais ou menos R$ 7 mil para cada cidadão.”

Verdade

Segundo o Impostômetro, da Associação Comercial de São Paulo (Acesp), o número é ligeiramente maior do que o citado pelo candidato: 1,53 trilhão, de 1º de janeiro a 28 de agosto. Dividido por cada brasileiro, o valor de imposto pago é de R$ 7,3 mil.  

“Hoje, apenas 30% das crianças de 0 a 3 anos estão em creches.”

Majoritariamente verdade

Segundo o documento do IBGE  Aspectos dos cuidados das crianças de menos de 4 anos da idade, publicado em 2017, somente 25% das crianças estavam matriculadas em creches — o estudo considera as crianças de até 4 anos, não até 3. Em números absolutos, isso significa 2,6 milhões de crianças matriculadas, contra 7,7 milhões desalentadas.

“99% da população da Índia tem documentos digitalizados.”

Verdade

A Índia utiliza uma espécie de identidade digital chamada Aadhaar, um sistema que reúne dados como data de nascimento, endereço, filiação e impressão digital. De acordo com as estatísticas do governo indiano, 1,222 bilhão de pessoas estão inscritas — 90,3% da população de 1,354 bilhão, segundo números das Nações Unidas.

A assessoria de Amoêdo informou que o porcentual de 99% se refere à população adulta da Índia. Diante da resposta, mudamos a classificação da checagem de “majoritariamente verdade” para “verdade”.

O Brasil chegou num índice que nunca teve, de 31 assassinatos a cada 100 mil pessoas. Estamos na 9.ª posição no mundo. É lamentável”.

Verdade

De fato, o índice de homicídios a cada 100 mil habitantes no Brasil atualmente é de 30,8. Tanto no ranking do Banco Mundial quanto no das Nações Unidas, o País aparece em 8º lugar no quesito, com taxas referentes a 2015.