Combustível não cai do céu: vídeos prometem carro movido a água, mas é cascata

Combustível não cai do céu: vídeos prometem carro movido a água, mas é cascata

Em tempos de gasolina cara, vídeos alcançam milhões de visualizações ao vender curso para adaptar motores

Pedro Prata, Victor Pinheiro e Lucas Fidalgo, especial para o Estadão

29 de novembro de 2021 | 09h31

Vídeos no aplicativo TikTok alcançam milhões de visualizações com promessa atraente em tempos de gasolina vendida a R$ 8: uma adaptação no motor do carro que permitiria ao veículo ser abastecido e rodar apenas com água. Especialistas consultados pelo Estadão afirmam que a economia de combustível prometida nas postagens é enganosa e que, mesmo com a mudança, os automóveis continuariam utilizando gasolina. Uma adaptação mal feita do sistema também pode causar danos a componentes do veículo e, no pior dos casos, até colocar os ocupantes em risco.

Especialistas consultados pelo Estadão não apontam nenhuma economia no mecanismo; adaptações malfeitas podem comprometer os componentes do automóvel e causar perigo para os ocupantes. Foto: Reprodução

Os vídeos mais populares ultrapassam as 2,3 milhões de visualizações. Os perfis que publicam esses conteúdos promovem links para sites nos quais é vendido um curso que ensinaria a modificar o motor para alimentá-lo  apenas com água. Em alguns casos, as postagens prometem uma eficiência de 650 km com um litro — com isso, daria para ir do Chuí, no extremo sul do País, ao Oiapoque, no extremo norte, com menos de dez litros de água.

Em um dos vídeos, um homem avança com o seu carro no engarrafamento do horário de pico e anuncia: “Sabe qual é a minha diferença para esses caras aí? Meu carro é movido a água. Nunca mais entro em posto de gasolina”.

Vídeos com até milhões de visualizações fazem promessas irreais, afirmam especialistas. Foto: TikTok/Reprodução

Como funciona e por que não vale a pena

Fernando Silveira, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que o sistema mostrado nos vídeos funciona a partir da eletrólise da água. A energia do automóvel é utilizada para separar as partículas de hidrogênio e oxigênio da água adicionadas ao reator. A combustão do hidrogênio libera energia que pode ser aplicada para mover o motor. “A energia elétrica obtida do alternador decorre da energia mecânica do motor, que tem origem na queima de combustível convencional (gasolina, álcool)”, esclarece Silveira. “Ou seja, queima-se gasolina para produzir energia elétrica, que então é utilizada na separação do hidrogênio e oxigênio da água.”

O problema, segundo o especialista, é que a energia necessária para realizar a eletrólise supera a energia produzida na combustão do hidrogênio. O resultado consiste em um desequilíbrio energético que não traz benefício  na economia de combustível.

Segundo o engenheiro Everton Lopes, mentor nas disciplinas de energia e combustão da Sociedade Brasileira de Engenheiros Automotivos (SAE Brasil), a adaptação pode, a médio e longo prazo, comprometer a vida útil da bateria do carro porque sobrecarrega o alternador do equipamento. Além disso, falhas na instalação podem provocar um curto circuito ou gerar danos elétricos ao veículo. “Qualquer adaptação que não se projeta no momento da concepção de um veículo não é bem-vinda porque pode trazer riscos de dano a longo prazo”, alerta o especialista. “É lógico que vai depender da instalação. Se for feita sem os cuidados pode gerar até um incêndio.”

Em nota ao Estadão Verifica, a Secretaria Nacional de Trânsito afirmou que a modificação apresentada no vídeo não tem previsão legal. O órgão destaca que a Resolução 292/2008 autoriza a alteração da matriz de combustível de motores de automóveis, com a exigência de um Certificado de Segurança Veicular expedido por instituição técnica licenciada. 

Alguns vídeos receberam um alerta de segurança, enquanto outros permanecem sem nenhum aviso. Foto: TikTok/Reprodução

A adaptação exposta no vídeo não se enquadra nos parâmetros da resolução porque visa o fornecimento de combustível a partir da mistura do hidrogênio e da gasolina. Para a Senatran, o equipamento compromete a segurança dos ocupantes do veículo porque pode interferir nas reações químicas da combustão e provocar problemas no motor. 

Alguns vídeos foram retirados do TikTok desde que começou a apuração do Estadão Verifica. Outros ainda podem ser acessados, mas trazem um aviso de que “as ações exibidas neste vídeo podem causar ferimentos graves” (veja aqui). Muitos continuam no ar sem qualquer aviso de segurança.

Entramos em contato com os sites que vendem este tipo de serviço, mas não obtivemos resposta.

Muito bom para ser verdade

O canal de YouTube High Torque, especializado em mecânica automotiva, testou a eficiência energética do gerador de hidrogênio instalado no motor de carros movidos a gasolina. Após uma série de experiências, os apresentadores indicaram que o aparelho não traz qualquer benefício de potência ou economia de combustível ao automóvel. 

Em um vídeo que não está mais disponível no TikTok, um homem dizia ter instalado o equipamento em seu carro. Segundo ele, a economia de combustível chegaria a 89,9%. Essa porcentagem é muito próxima do que é anunciado pelos sites que vendem o produto: “Economize até 86,8% nas próximas viagens”.

Economia sugerida em posts é irreal, afirmam especialistas. Foto: Reprodução

O engenheiro Everton Lopes ressalta que é preciso sempre suspeitar de promessas grandiosas de economia de combustíveis. O especialista afirma que iniciativas como o Rota 2030, um programa federal para apoiar o desenvolvimento tecnológico de automóveis, buscam melhorias de eficiência energética no patamar de 0,5% a 1%. “Se existisse um sistema com uma economia tão grande como essa (do vídeo), com certeza a indústria já teria implementado como solução”, pontua.

Os sites enganosos, por outro lado, apelam para teorias da conspiração na tentativa de justificar por que a tecnologia tão vantajosa não chegou ao mercado. Sem oferecer detalhes, eles afirmam que a indústria oculta a solução por interesses econômicos. Trata-se de uma estratégia comum de boatos enganosos que buscam desviar o foco do fato de que as alegações não encontram respaldo em fontes confiáveis. Veja aqui como identificar e rebater uma teoria da conspiração.

No futuro

Embora a promessa do carro movido a água seja enganosa, já existem atualmente automóveis que utilizam o hidrogênio como fonte de combustível. Segundo Lopes, o conceito é bem diferente do proposto nos vídeos enganosos e é aplicado em veículos elétricos.

Um cilindro de hidrogênio fornece a substância para um sistema chamado célula combustível, que gera energia elétrica capaz de carregar a bateria do carro. A bateria, por sua vez, traciona o motor elétrico.

“Em vez de você colocar o veículo na tomada pra carregar, você carrega ele com hidrogênio”, explica o engenheiro.

Lopes acredita que a tecnologia deve se popularizar no futuro. Ele destaca que a grande vantagem desses sistemas é a presença abundante de hidrogênio no universo. 

YouTube: perfis falsos elogiam produto

Não é apenas o TikTok que possui chamarizes para o milagre do carro movido a água. No YouTube, canais trazem vídeos de pessoas que supostamente teriam comprado o curso e aplicado em seus carros. Não há evidências que esses relatos sejam autênticos. O canal  Video Mix, com 439 mil inscritos, alerta nos comentários que os vídeos são “um trabalho de divulgação de um dos nossos parceiros” e que o conteúdo “é de responsabilidade de seus criadores”.

Foto: YouTube/Reprodução

Todos os vídeos no YouTube possuem um formato semelhante. A palavra ‘golpe’ aparece no título e os seus participantes aparecem em imagens de destaque com expressões de fúria, o que chama a atenção. Apesar disso, fazem discursos com poucas variações entre si, sempre reafirmando a segurança e a confiabilidade do produto. Nenhum deles se identifica, o que impossibilita que sejam localizados para comentar a veracidade das informações.

Um desses canais é o 1FOX, com 173 mil inscritos. A maioria dos comentários no vídeo é de pessoas pedindo mais informações sobre o produto. Mas destaca-se também alguns comentários de pessoas que supostamente já estariam utilizando o mecanismo. É o caso de Maelson Souza, que em meados de setembro de 2021 teria dito que “a melhor coisa que inventaram foi isso, os gastos diminuíram demais”.

Foto: YouTube/Reprodução

O perfil de Maelson no YouTube não possui nenhum conteúdo publicado, o que não permite obter nenhuma informação sobre ele. Ao procurar a sua foto no Google por meio de uma busca reversa (veja aqui como funciona), uma surpresa: ela foi publicada pela revista IstoÉ como sendo de Everton Quebra de Oliveira. Ele morreu em novembro de 2020 ao defender uma mulher de uma agressão. Portanto, é impossível que ele tenha feito um comentário no YouTube no ano seguinte e sugere que sua foto foi indevidamente utilizada para criar um perfil falso.

Imagem de jovem morto, em 2020, foi usado por perfil supostamente inautêntico. Foto: IstoÉ/Reprodução

O mesmo padrão se repete. “Está sendo ótimo para mim, muito vantajoso. Estou gastando muito menos”, escreveu o perfil ‘gilson santod’. Ao procurarmos por sua foto, encontramos outra matéria da IstoÉ. A imagem é de Fábio Damon Fragoso da Silva, morto em uma troca de tiros com policiais no Rio de Janeiro, em agosto.

Foto: YouTube/Reprodução

Imagem é de Fábio Damon Fragoso da Silva, não Gilson. Foto: IstoÉ/Reprodução

Outro que teria ficado satisfeito com a invenção foi Murilo Guimarães. Em setembro, ele escreveu que estava “economizando demais” depois de fazer a alteração em seu carro.

Foto: YouTube/Reprodução

Seu perfil no YouTube não possui nenhuma publicação. Ao procurar por sua foto, encontramos uma notícia publicada no portal da rádio 104,9 – Metrópole FM. O homem na foto não é Murilo Guimarães, mas sim Guilherme Roberto Lopes. Ele morreu em um acidente de trânsito na rodovia estadual SP-294, em 17 de setembro de 2018. Outra vez, a foto foi usada em um perfil enganoso.

Imagem de rapaz morto em acidente de carro, em 2018, é utilizada em falso perfil no YouTube. Foto: Rádio Metrópole FM/Reprodução

O uso de perfis falsos deve servir como alerta. O usuário das redes sociais deve se perguntar por que é preciso recorrer a perfis inautênticos para assegurar a confiabilidade do serviço.

Procurados, os dois canais citados não responderam. O 1FOX tornou o vídeo privado, o que impede que ele continue sendo acessado.

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