Caminhões parados, rumores disparados
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Caminhões parados, rumores disparados

Veja exemplos de desinformação nas redes sociais durante a crise

Alessandra Monnerat

04 Junho 2018 | 19h12

Caminhões parados na Rodovia Régis Bittencourt, perto de Embu das Artes. Foto: Nilton Fukuda / Estadão

Durante grandes acontecimentos e em momentos de crise, é comum que informações falsas circulem em massa nas redes sociais. A greve dos caminhoneiros não foi diferente. Boatos envolveram o presidente Michel Temer, as Forças Armadas e a Petrobras. Selecionamos algumas das mentiras divulgadas recentemente. Confira:

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As Forças Armadas e a “derrubada” do governo

Um posto com o rumor de que as Forças Armadas assumiriam o governo “nas próximas horas” foi compartilhado mais de 50 mil vezes no Facebook entre os dias 28 de maio e 4 de junho. A publicação foi feita por João Guerreiro, usuário do Facebook com mais de 100 mil seguidores, que se apresenta como “fuzileiro naval”. O texto dizia que uma PDN (Política de Defesa Nacional) teria sido expedida para todos os comandos militares. Páginas como Operação Lava Jato para SempreO Patriotizador e Intervenção Militar no Brasil replicaram a mentira.

Procurado pelo Estadão Verifica, o Ministério da Defesa respondeu ao boato com uma declaração do ministro Joaquim Silva e Luna: “As Forças Armadas trabalham 100% apoiadas na legalidade, com base na Constituição e sob a autoridade do presidente da República”, afirmou. “E esse dispositivo, intervenção militar, não existe na Constituição.”

 

Força Nacional apoia caminhoneiros

Um vídeo com mais de 21 mil visualizações no YouTube afirma que a Força Nacional passou a apoiar as paralisações feitas por caminhoneiros. Mas a afirmação é falsa: a filmagem mostra apenas a parada de um comboio em um posto de gasolina.

Segundo nota enviada ao site G1, “as imagens mostram uma parada curta de um comboio da Força Nacional de Segurança Pública em viagem do Distrito Federal para Minas Gerais”, local onde as equipes iriam apoiar a Polícia Rodoviária Federal.

 

Petrobras ignora revolta e aumenta gasolina comum duas vezes no domingo

Um boato publicado no domingo, 27, dava conta que a Petrobras havia promovido dois aumentos da gasolina comum. “A partir da meia-noite a gasolina comum passou a ser vendida a R$4,1824 aos postos de Brasília, e à tarde o valor subiu para R$4,3583”, dizia o texto compartilhado mais de 5 mil vezes no Facebook a partir da página Diário do Poder.

A Petrobras, porém, não controla os valores dos combustíveis nos postos. O preço na bomba incorpora a carga tributária e leva em conta outros custos, como o de distribuição.

O site da companhia informa os valores que a Petrobras repassa aos distribuidores. No dia 18 de maio, data em que os bloqueios em estradas tiveram início, o preço da gasolina A vinha aumentando havia 15 dias. A partir do dia 23, porém, o valor começou a cair.

 

Clamor: 94% da sociedade brasileira quer uma intervenção militar

A greve dos caminhoneiros mobilizou diferentes agendas políticas, inclusive de uma parcela que pedia intervenção militar. Mas a enganosa a afirmação de que 94% da sociedade brasileira deseja isso. A publicação foi feita pelo site Jornal do País e compartilhada quase 6 mil vezes a partir da página Pensa Brasil, no Facebook.

A postagem insere um vídeo antigo, de julho de 2017, do Programa do Ratinho. Na época, a atração televisiva fez uma enquete por meio de um aplicativo sobre a intervenção federal para conter a violência no Rio de Janeiro. Um resultado parcial apontava que 95% dos votantes apoiavam a ação do Exército naquele momento.

O texto enganoso também faz referência a uma enquete do site NBO Quiz. Também neste caso, o conteúdo é datado (de agosto de 2017) e não tem relação com a greve.

De qualquer forma, nenhuma das duas enquetes têm amostragem estatística e, portanto, seus resultados não podem ser aplicados a todos os brasileiros, como o título mentiroso leva a crer.

Para espelhar a opinião de uma população, uma pesquisa precisa ouvir uma amostra representativa – obedecendo às proporções de faixas divididas por gênero, cor e escolaridade. A enquete de um site não tem controle sobre o perfil do público que vai responder às perguntas.