Vídeo engana ao falar sobre descoberta de mortos cadastrados no Bolsa Família

Vídeo engana ao falar sobre descoberta de mortos cadastrados no Bolsa Família

Homem em gravação diz que Bolsonaro descobriu '20 mil mortos recebendo Bolsa Família'; na realidade, TCU fiscaliza pagamentos desde 2015 e, em 2019, encontrou 44 mil beneficiários com indícios de falecimento

Alessandra Monnerat

17 de janeiro de 2022 | 20h25

Viralizou no Facebook um vídeo em que um homem diz que o presidente Jair Bolsonaro (PL) teria descoberto “que existe vida após a morte”. Segundo a postagem, a gestão federal teria identificado 20 mil mortos “recebendo” Bolsa Família desde o governo do ex-presidente Lula (PT). Mas a informação é enganosa, já que o Tribunal de Contas da União (TCU) fiscaliza anualmente os pagamentos pelo menos desde 2015. No primeiro ano do governo Bolsonaro, o TCU encontrou 44.773 beneficiários com indícios de falecimento. Em 2018, esse número foi de 51.338, e em 2017, de 22.237.

A postagem analisada aqui foi publicada em janeiro de 2020, mas voltou a viralizar recentemente, alcançando 4,3 milhões de visualizações no Facebook.

Governo entregou PEC que abre caminho à ampliação do Bolsa Família, mas briga em torno do valor do novo benefício está longe de acabar. Foto: Agência Brasil

O Bolsa Família foi pago a quantas pessoas mortas em 2019?

Em 2020, o TCU publicou o resultado de uma auditoria sobre 18 milhões de benefícios concedidos pelo governo federal, sendo 13,5 milhões do Bolsa Família. Os fiscais analisaram dados do Sistema Nacional de Controle de Óbitos (Sisobi), certidões de óbito do Sistema Nacional de Informações de Registro Civil (Sirc), além de informações sobre pensões por morte concedidas pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Assim, contabilizaram mais de 44 mil beneficiários do Bolsa Família com indícios de falecimento em 2019 — mais do que os 20 mil citados no vídeo analisado. Ainda assim, o número encontrado foi menor do que o relativo ao ano anterior (veja tabela abaixo)

Irregularidades encontradas em pagamentos de 2019 do Bolsa Família. Foto: Tribunal de Contas da União (TCU)

Segundo o TCU, a metodologia para identificação de irregularidades foi adotada em 2015 e é chamada de Fiscalização Contínua de Benefícios (FCB). A devassa tem periodicidade anual e visa a identificar pagamentos indevidos. “Ela é aplicada ao controle das funções de governo de Previdência Social, Trabalho e Assistência Social”, informa o órgão. 

O vídeo analisado aqui dá a entender, enganosamente, que a fiscalização começou a partir do governo Bolsonaro — quando já em gestões anteriores foram identificados pagamentos irregulares a beneficiários mortos. É possível encontrar o resultado da FCB de 2016 no Acórdão 1057/2017 e do ano de 2015 no Acórdão 718/2016.

Em 2016, o Ministério Público Federal promoveu o chamado “Raio-X do Bolsa Família”. A operação analisou pagamentos de 2013 a 2016 e identificou 8,6 mil mortos cadastrados.

Quantos benefícios irregulares foram identificados no primeiro ano de governo de Bolsonaro?

Ao todo, o TCU identificou 1,3 milhão de benefícios com irregularidades pagos em 2019 — novamente, um número menor do que o do ano anterior, de 1,4 milhão. O Ministério da Cidadania informou em 2020 ter cancelado os pagamentos irregulares e instaurado procedimentos para obter ressarcimento.

Em nota ao Verifica, o ministério explicou que depois que são identificados indícios de falecimento de um beneficiário, a bolsa é cancelada e a família é convocada para atualizar o cadastro. “O benefício só voltará a ser liberado se mesmo após as devidas atualizações a família ainda permaneça dentro do perfil para participar do programa”, comunicou.

Sobre o vídeo em que o homem diz que Bolsonaro encontrou 20 mil mortos recebendo Bolsa Família, o ministério afirmou que não se manifestaria “sobre a fala de um cidadão baseada em informações vagas, sem temporalidade e contextualização”. 


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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