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Boatos sobre o Mais Médicos atacam a formação de profissionais cubanos

Veja as informações falsas sobre o tema que mais circularam no WhatsApp do Estadão Verifica, (11) 99263-7900

Alessandra Monnerat

20 Novembro 2018 | 14h13

A saída de Cuba do Programa Mais Médicos aqueceu a produção dos boatos sobre o tema durante a última semana. Selecionamos aqui as informações falsas que foram enviadas com mais frequência ao WhatsApp do Estadão Verifica, (11) 99263-7900.

Cuba não tem apenas duas faculdades de Medicina que formam 300 médicos por ano

Uma imagem que tem circulado no WhatsApp dá informações falsas sobre universidades cubanas para questionar a formação de médicos da ilha que atuavam no Brasil: seriam apenas duas faculdades de Medicina no país, que formariam 300 médicos por ano.

No entanto, uma reportagem da EBC da época da instauração do programa Mais Médicos informa que são 25 faculdades de Medicina em Cuba, além da Escola Latino-Americana de Medicina, onde estudam estrangeiros de 113 países. O site do Ministério da Saúde cubano também lista universidades que fazem parte do sistema nacional de saúde do país.

Seis universidades cubanas entraram no ranking internacional QS Latin America 2018: Universidad de la Habana, Universidad de Oriente Santiago de Cuba, Ciudad Universitaria Jose Antonio Echeverria, Universidad Central Marta Abreu de Las Villas e Universidad de Cienfuegos Carlos Rafael Rodríguez.

Um estudo do Ministério da Saúde de Cuba de 2004 aponta que, de 1953 a 2003, formaram-se 80.607 médicos na ilha, média de 2.015 por ano. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) reunidos em 2015 indicam que há 76,5 mil médicos no país, sendo 36,5 mil médicos de família.  

Documento

Médicos cubanos não têm formação similar à dos “feldsher” soviéticos

Outra corrente que circula no WhatsApp, em formato de texto, insinua que os médicos cubanos passam por formação de apenas quatro anos. De acordo com o boato, isso compararia esses profissionais aos “feldsher” que, segundo a OMS, são uma categoria de paramédicos que atua na Rússia e em outros países que formavam a União Soviética promovendo atendimento de emergência e ambulatório.

Porém, a duração do curso básico de Medicina em Cuba, assim como no Brasil, é de seis anos em período integral. No site da Universidade de Ciências Médicas de La Habana, por exemplo, é possível ver a grade curricular do curso, que tem 66 disciplinas e um total de 10.840 horas-aula. Para se graduar, os recém-formados precisam passar por um exame estatal que mede habilidades teóricas e práticas.

Não é verdade que de 628 médicos cubanos que se inscreveram no Revalida, apenas dois passaram

Outro boato que ataca a formação de médicos cubanos cita dados errados do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos expedidos por Instituição de Educação Superior Estrangeira (Revalida). Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) na última edição da prova 1.456 cubanos se inscreveram e 354 passaram (24,3%). A nota baixa, no entanto, é regra no exame: a média de aprovação entre todos os inscritos é 24,8%, e a de brasileiros, 28,4%.

Profissionais que participam do Programa Mais Médicos não precisam fazer a prova de revalidação de diploma por três anos — a dispensa vale para todas as nacionalidades, não apenas a cubana. Em 2016, o presidente Michel Temer estendeu a falta de obrigatoriedade por mais três anos a todos os participantes.

Ao chegar no País, médicos estrangeiros recebem um Registro do Ministério da Saúde para exercer a profissão — o documento só é válido durante a duração do programa Mais Médicos.

Médicos brasileiros não eram rejeitados na inscrição do programa em prol de cubanos

Um texto que circula no WhatsApp contém o suposto relato de uma médica que tentou se inscrever no programa mas nunca foi chamada — segundo a corrente, ela teria sido preterida para dar lugar a profissionais vindos de Cuba. No entanto, a lei que instaurou o Programa Mais Médicos, de 22 de outubro de 2013, conta uma história diferente.

O texto da legislação estabelece a prioridade do preenchimento das vagas ofertadas por meio da iniciativa. Em primeiro lugar, estão os profissionais formados em instituições de educação superior brasileiras ou com diploma revalidado no País, inclusive os aposentados; depois, vêm os médicos brasileiros formados em instituições estrangeiras com habilitação para exercício da Medicina no exterior; por fim, estão os estrangeiros com habilitação para exercício da Medicina no exterior, como os cubanos.