Boato usa fotos antigas para alertar sobre chegada de nuvem de poeira ‘Godzilla’
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Boato usa fotos antigas para alertar sobre chegada de nuvem de poeira ‘Godzilla’

Imagens que circulam nas redes sociais são de duas tempestades de poeira anteriores, que afetaram a Austrália e o Mato Grosso do Sul; especialista afirma que não há motivo de preocupação para o Brasil

Estadão Verifica

28 de junho de 2020 | 16h41

Uma postagem viral no Facebook que alerta sobre a possível chegada da “nuvem de poeira Godzilla” ao Brasil usa fotos antigas, não relacionadas ao fenômeno que se observa atualmente. As imagens do post mostram tempestades de poeira anteriores na Austrália e em uma cidade do Mato Grosso do Sul. O texto que acompanha as fotos antigas afirma que cidades do Nordeste seriam as mais atingidas pela nuvem de poeira, mas um especialista ouvido pelo Estadão Verifica diz não haver motivo para apreensão.

A primeira imagem do post que viralizou é de um vídeo divulgado em janeiro deste ano pelo jornal britânico The Guardian. A gravação mostra os efeitos de uma tempestade de poeira que atingiu o Estado de Nova Gales do Sul, na Austrália. No vídeo, a cidade de Parkes é invadida por uma nuvem marrom que encobre todo o território. A reportagem informa que o fenômeno foi causado por rajadas de vento causadas por tempestades de raios.

A segunda foto da postagem já havia sido publicada em dia 24 de setembro de 2019 por sites locais do município de Chapadão do Sul, no Mato Grosso do Sul. Na ocasião, foi observada na região uma nuvem de poeira que espantou os moradores. Compartilhadas como “poeirão” nas redes sociais, as imagens mostram a cortina de terra que se aproximou do Parque União.  O site Jornal do Estado afirmou que foram registradas rajadas de vento de até 60 km/h, que antecederam a chegada de um temporal que causou estragos em imóveis na Avenida Mato Grosso do Sul, uma das principais da cidade.  

O que é a ‘nuvem de poeira Godzilla’? Vai chegar ao Brasil?

A chamada “nuvem de poeira Godzilla” é formada por areia e poluentes que estão em suspensão na atmosfera, como dióxido de carbono e fuligem. A forte massa de ar seco é carregada de partículas de areia, que são originadas no deserto do Saara, nos períodos que encerram a primavera, o verão e o começo do outono no Hemisfério Norte.

A nuvem desloca-se em direção ao Oeste sobre o oceano Atlântico. Caso haja ventos leves nestes mesmos períodos do ano, a nuvem é impulsionada a atravessar o Atlântico, e isso explica a ocorrência dela em alguns países da América, como Estados Unidos e Cuba. 

O meteorologista César Soares, do Climatempo, explica que a nuvem de poeira é um fenômeno esperado anualmente, mas que neste ano tem surpreendido por sua intensidade. “Neste ano, o que chamou a atenção dos profissionais de meteorologia e cientistas em geral foi a extensão da nuvem. Essa extensão é pelo fato de as correntes de ventos alísios (ventos sub-tropicais) estarem mais fortes na região equatorial, o que favorece o transporte de poeira da África Equatorial para a América Central”, explica. 

Soares confirma que a nuvem de poeira pode atingir o litoral brasileiro, mas afirma não haver motivo para pânico: “O extremo norte da Região Norte pode receber algumas partículas de poeira do Saara, mas nada muito além disso. (A nuvem de poeira talvez chegue ao) Amapá, Roraima e talvez o norte do Amazonas”.

O fenômeno pode oferecer riscos à saúde, uma vez que as partículas são pequenas o bastante para entrar no sistema respiratório. Soares recomenda que as pessoas evitem lugares com baixa visibilidade caso a nuvem de poeira chegue ao Brasil. Isso porque a alta concentração de areia e poluição pode provocar problemas respiratórios. Máscaras podem ser usadas como isolantes, porque dificultam a entrada das partículas.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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