Boato sobre médico que ‘quebra o silêncio’ distorce informações sobre quimioterapia
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Boato sobre médico que ‘quebra o silêncio’ distorce informações sobre quimioterapia

Peça de desinformação se baseia em estudos de oncologista falecido em 1978 e retira de contexto entrevista de outro médico sobre uso das substâncias

Paulo Roberto Netto

30 de junho de 2019 | 23h28

Notícia falsa se baseia em estudos publicados há mais de meio século e de médico que já morreu. Foto: Foto: Sergio Castro/Estadão

Uma notícia falsa sobre um médico que “quebra o silêncio” sobre o uso da quimioterapia distorce informações sobre o tratamento de câncer. A desinformação circula desde 2016 e se baseia em estudos de mais de meio século de um pesquisador falecido em 1978.

O boato diz que o oncologista Hardin B. Jones, da Universidade da Califórnia (EUA), passou 25 anos mapeando a expectativa de vida de pacientes com câncer e descobriu que, em 97% dos casos, os pacientes morriam mais cedo enquanto aqueles que se recusaram a usar as substância viveram até quatro vezes mais.

O vídeo de uma entrevista com o médico naturopata Peter Glidden, que cita os estudos de Jones, acompanha a notícia falsa.

A desinformação diz ainda que, apesar do médico ter morrido em 1978, “fontes médicas” afirmam que o tratamento não mudou. Para isso, citam entrevista do pesquisador N. Simon Tchekmedyian, também da Universidade da Califórnia, no qual responde que “a quimioterapia hoje não faz nada de diferente do que fazia algumas décadas atrás”. As informações, no entanto, estão distorcidas.

Em primeiro lugar, os argumentos de Jones foram publicados em fevereiro de 1956 e apresentados em conferência em março de 1969. Segundo especialistas, os trabalhos estão defasados e não podem ser usados para avaliar os tratamentos oferecidos hoje.

“O tratamento em 1950 não dá conta do que se faz hoje”, afirma o oncologista Tulio Pfiffer, do Hospital Sírio-Libanês. “Nos últimos 60 anos, tivemos mudanças enormes na oncologia e mudanças enormes na quimioterapia.”

De acordo com Pfiffer, no início havia resistência ao uso de quimioterapia devido aos efeitos colaterais. No entanto, hoje os médicos conseguem equilibrar o tratamento com recursos que reduzem e controlam as reações das medicações, como náuseas e quedas de imunidade.

“Da mesma forma que melhorou muito a forma como a gente combate o tumor, melhorou muito a forma como a gente controla a quimioterapia”, afirma. “A gente tem meios para contornar de forma muito melhor hoje do que como fazíamos há dez, quinze, vinte anos atrás.”

A segunda entrevista citada na notícia falsa, feita com N. Simon Tchekmedyian, e publicada no site How Stuff Works, omite parte da resposta do especialista, que fala, na verdade, que apesar de não ter havido avanços na descoberta de novas drogas, o tratamento hoje é muito melhor em lidar com os efeitos colaterais da quimioterapia do que antes.

“Apesar dos quimioterápicos ainda terem muitos efeitos colaterais, e nós não termos muitos avanços neles em si, nós tivemos grandes avanços na redução de seus efeitos colaterais”, afirma Tchekmedyian. “Nós temos tratamentos muito, muito melhores para prevenir a náusea do que tínhamos há dez, quinze ou vinte anos. Nós temos um controle muito melhor dos efeitos imunológicos da quimioterapia e formas de prevenir e tratar casos de anemia associados com a quimioterapia.”

“Nós raramente precisamos dar entrada com um paciente no hospital por conta dos efeitos colaterais, pois nós já conseguimos controlá-los muito bem. A qualidade de vida [dos pacientes] está melhor”, conclui o médico, em trecho omitido.

Tratamento. Segundo especialistas consultados pelo Estadão Verifica, o tratamento quimioterápico pode ser preventivo ou paliativo. O primeiro é recomendado a pacientes que passaram por alguma cirurgia envolvendo o tumor e visa prevenir que ele retorne ou piore. O segundo é para casos de metástase (formação de novo tumor) e busca prolongar a vida do paciente.

De acordo com o oncologista Gilberto de Castro Júnior, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e pesquisador do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, ambos os tratamentos evoluíram bastante com o tempo, e há centenas de estudos que comprovam sua eficácia para a melhora da qualidade de vida dos pacientes.

“Já se sabe que a quimioterapia aumenta as chances de cura e aumenta a sobrevida de doença metastática. A quimioterapia mudou, o tratamento de suporte mudou”, afirma.

O oncologista cita, por exemplo, meta-análises publicadas pela Unidade de Serviço de Testes Clínicos, órgão ligado à Universidade de Oxford, que analisou estudos envolvendo mais de 100 mil mulheres com câncer de mama e sua relação com quimioterapia. O último relatório aponta que 26 testes clínicos sobre o aumento de dose de quimioterapia em 37 mil mulheres apontaram redução dos riscos de novo tumor e morte por câncer de mama.

“Além da incorporação de novas drogas, houve a incorporação de novos tratamentos de suporte para melhora dos efeitos colaterais da quimioterapia. As duas coisas levam à melhora da quimioterapia”, afirma Castro.

Esta notícia falsa foi selecionada para checagem por meio da parceria entre o Estadão Verifica e o Facebook e também foi checada pelo site de fact-checking Snopes.

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