Boato inverte sentido de afirmações de Emílio Odebrecht sobre ditadura militar

Boato inverte sentido de afirmações de Emílio Odebrecht sobre ditadura militar

Empresário nunca disse que não havia corrupção durante o regime; rumor ganhou tração após publicação de Roberto Jefferson

Tiago Aguiar

21 de julho de 2020 | 12h13

Postagens que circulam nas redes sociais atribuem incorretamente ao empresário Emílio Odebrecht uma declaração que elogia os governos da ditadura militar. Os posts no Facebook e no Instagram alegam que Odebrecht teria dito que “nunca ganhou um centavo” e que “não havia brechas para propina” durante o regime militar — as afirmações teriam sido feitas durante uma delação em 13 de abril (sem indicação de ano). No entanto, não há registro que o empresário tenha dito isso durante sua delação premiada.

No âmbito da Operação Lava Jato, Emílio prestou três depoimentos: uma delação premiada em dezembro de 2016, um depoimento como testemunha de defesa de seu filho, Marcelo Odebrecht, que estava preso, em março de 2017, e um testemunho sobre o suposto sítio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Atibaia em novembro de 2018. Em nenhuma dessas declarações o empresário diz as frases que aparecem nos posts em redes sociais.

Nas menções indiretas à ditadura militar, as falas de Odebrecht vão no sentido oposto ao apresentado nas postagens. Na delação de 2016, em que narrou relação da construtora com José Eduardo dos Santos, ex-ditador de Angola, Emílio disse que foi por meio de uma comitiva brasileira em visita à União Soviética que manteve contato com representantes angolanos e decidiu que o país africano seria um bom local para operações. O empresário narrou que o ex-ministro do regime militar Golberi do Couto e Silva o ajudou na aproximação com o governo de Angola. Couto e Silva foi ministro do Tribunal de Contas da União de 1967 a 1969 e chefe de gabinete da Presidência da República de 1974 a 1981.

No depoimento do ano seguinte, Odebrecht sugeriu que acordos ilegais com governos sempre ocorreram. “Isso (caixa 2) sempre foi o modelo reinante no País e que veio até recentemente. Porque houve o impedimento e foi a partir de 2014 e 2015. Mas até então, sempre existiu, desde a minha época, da época do meu pai, da minha época e também de Marcelo, de todos aqueles que foram executivos do grupo”, afirmou em 2017. Seu pai, Norberto Odebrecht, presidiu a empresa durante toda o período da ditadura militar.

Também em delação, o ex-presidente da Odebrecht Pedro Novis afirmou que a corrupção de agentes públicos e políticos em São Paulo começou no governo Paulo Maluf (1979-1982).

Versões dessa peça de desinformação circulam desde a época em que o depoimento de Emílio foi divulgado, em abril de 2017. O Estadão Verifica encontrou dezenas de publicações nas redes sociais resgatando o boato no último mês. Na última quinta-feira, 16, o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, postou o boato no seu perfil do Twitter (que possui mais de 200 mil seguidores). “Fui deputado federal a partir do General João Figueiredo, não havia corrupção. O vício da redemocratização foi a roubalheira. Ouçam Emílio Odebrecht”, escreveu. No entanto, ele deletou a postagem na sexta-feira, 17.

Em janeiro deste ano, o Estadão Verifica verificou outra distorção de falas da delação do empresário, então uma falsa declaração a respeito do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Este conteúdo também foi verificado por Boatos.org, E-farsas, TV Bandeirantes e Agência Lupa.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook e no Instagram. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.