Com legenda falsa, postagens tiram de contexto comentário de jornalista sobre Barroso e eleições

Com legenda falsa, postagens tiram de contexto comentário de jornalista sobre Barroso e eleições

Vídeo de comentarista da BandNews FM é compartilhado com mensagem falsa, que afirma que Congresso Nacional ameaçou emissora paranaense a retirar gravação do ar

Victor Pinheiro

12 de agosto de 2021 | 11h33

Postagens nas redes sociais tiram de contexto um vídeo antigo em que o jornalista Eduardo Oinegue, da BandNews FM, critica declarações do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso. No comentário, gravado em novembro de 2020, o apresentador contesta uma mudança promovida pelo Tribunal durante as eleições municipais do ano passado, que centralizou a totalização de votos nos sistemas da Corte em Brasília — mas o vídeo é apresentado em tuítes como se fosse recente. 

Urna eletrônica

Urna eletrônica. Foto: Antônio Augusto/Secom/TSE

A alteração provocou atrasos na divulgação dos resultados das eleições. Na época, Barroso disse que a centralização foi uma recomendação da Polícia Federal para dar mais segurança ao processo (entenda melhor abaixo). Sobre isso, Oinegue comenta:

“Acho um desserviço o que disse o Barroso. Por que os peritos da Polícia Federal recomendaram mudança no sistema? O sistema não é seguro? Aqueles que dizem que o sistema não é seguro têm razão em dizer que o sistema não é seguro? A gente faz eleições desde 1996 em um sistema que não é 100% seguro? Tá certo o presidente Jair Bolsonaro em retornar os votos em papel? Para mim, parece uma bobagem retumbante”.

O vídeo que circula nas redes sociais, no entanto, corta a parte em que Oinegue fala que o voto impresso “parece uma bobagem retumbante“. Além disso, não fica claro pelo corte o contexto do discurso, em que o jornalista pede mais transparência ao TSE.

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro divulgou um inquérito sigiloso da PF sobre um ataque ao sistema da Justiça Eleitoral — ele disse que hackers teriam acessado a programação das urnas eletrônicas. O TSE rebateu o presidente, afirmando que o ataque não comprometeu a integridade das eleições e apresentando notícia-crime contra ele pelo vazamento da investigação.

O vídeo completo com o comentário de Oinegue pode ser visto abaixo.

Nesta quarta-feira, 11, o jornalista voltou a criticar o voto impresso. Oinegue classificou a discussão sobre o assunto como “infantil”, ao comentar em programa da BandNews FM que a Câmara dos Deputados rejeitou, no dia anterior, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que previa a implementação do comprovante em papel.

No Twitter, uma publicação com mais de 3 mil compartilhamentos do comentário feito por Oinegue em 2020 afirma enganosamente que a TV Tarobá, afiliada da Rede Bandeirantes em Cascavel-PR, teria apresentado o vídeo na manhã de 7 de agosto. Segundo o tuíte, a emissora teria sofrido ameaças do “Congresso e do Senado” para que retirasse a gravação de telejornais e do YouTube, mas nada disso é verdade. O vídeo original está disponível no canal do YouTube da BandNews FM e a mesma legenda já foi usada anteriormente para difundir informações falsas nas redes sociais. 

Em fevereiro de 2020, o Estadão Verifica investigou um boato que também atribuía um vídeo à Rede Tarobá e dizia que a emissora teria sido ameaçada pelo Congresso Nacional. A gravação era parte de um quadro de um canal bolsonarista no YouTube com críticas ao ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (sem partido-RJ).

Leitores também solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do ‘Estadão Verifica’ (11) 97683-7490.

O contexto do comentário

Os comentários de Eduardo Oinegue se referem a um pronunciamento de Luís Roberto Barroso a respeito de atrasos na divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições municipais de 2020. O ministro do Supremo Tribunal Federal afirmou na época que a demora foi provocada por problemas técnicos em equipamentos do TSE e ressaltou que o impasse não afetou a integridade dos resultados. 

No discurso, Barroso citou que a decisão de centralizar o procedimento de totalização dos votos nos servidores do TSE naquela eleição pode ter contribuído para o atraso. O magistrado disse que a mudança acatou uma recomendação técnica de peritos da Polícia Federal para aprimorar a segurança do processo eleitoral. 

Antes das eleições, os 27 tribunais regionais eleitorais totalizavam os votos registrados nas urnas e transmitiam o resultado ao TSE. Com a mudança, o procedimento agora é concentrado nos sistemas da Corte em Brasília. Uma nota do TSE explica que a instituição adotou um supercomputador fornecido pela empresa de tecnologia americana Oracle para totalizar dados provenientes de urnas de todo o País. 

No comentário, o jornalista Eduardo Oinegue questiona os motivos da medida, uma vez que o Tribunal defendeu a segurança do voto eletrônico. O então secretário de Tecnologia da Informação, Giuseppe Janino, esclareceu no mesmo comunicado que o intuito da recomendação da PF foi reduzir a quantidade de pontos do sistema que poderiam sofrer tentativas de ataques. 

“Quando se tem 27 pontos, em tese, você teria o mesmo número de chances de pontos para atacar. Mas quando você se concentra em um ponto e, nesse ponto, se concentram vários requisitos de segurança, como uma sala cofre de segurança, além de vários softwares, gestão e um serviço de vigilância 24 horas por sete dias na semana, se tem uma possibilidade menor de ataques”, afirmou Janino. 

Isso não significa que o sistema não centralizado era inseguro ou que algum invasor já tenha conseguido violar o processo eleitoral. Em 25 anos de voto eletrônico, nunca foi comprovada fraude ou invasão aos sistemas das urnas eletrônicas. Além disso, o TSE defende que o processo pode ser auditado antes, durante e depois das eleições

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