Após insinuações de ministro do Meio Ambiente, boatos falsos atacam ações do Greenpeace no Nordeste
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Após insinuações de ministro do Meio Ambiente, boatos falsos atacam ações do Greenpeace no Nordeste

Ricardo Salles publicou vídeo que cortava resposta da ONG sobre atuação na limpeza de óleo e insinuou que navio da organização estaria envolvido em vazamento; boatos semelhantes se espalharam nas redes sociais em seguida

Paulo Roberto Netto

26 de outubro de 2019 | 09h00

Após duas declarações do ministro Ricardo Salles contra a organização não-governamental Greenpeace, diversos boatos surgiram nas redes sociais questionando a atuação da ONG na retirada do óleo no Nordeste e apontando suposto envolvimento no caso.

As peças de desinformação se baseiam em vídeo publicado por Salles no Twitter, que omite resposta do Greenpeace sobre sua ação na limpeza das praias, e na insinuação do ministro sobre a rota da embarcação Esperanza, que pertence à organização. Em ambos os casos, as declarações de Salles são enganosas e levaram à disseminação de boatos falsos sobre a ONG.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante reunião em Brasília. Foto: Adriano Machado / Reuters

No primeiro caso, boatos afirmam falsamente que o Greenpeace não tem atuado no Nordeste. As peças de desinformação ganharam impulso após o ministro publicar um vídeo afirmando que a organização “explicou” por que não poderia ajudar na limpeza das praias. A gravação divulgada por Salles, no entanto, exibe apenas o trecho em que o porta-voz da organização, Thiago Almeida, afirma que o combate ao óleo “exige conhecimentos e equipamentos técnicos específicos”. É omitido o trecho em que o porta-voz comenta que há, sim, a ação de voluntários da ONG no Nordeste.

Na publicação original (assista abaixo), divulgada pelo Greenpeace no dia 18 de outubro, Almeida afirma que grupos de voluntários da organização estão atuando nos locais impactados ajudando na limpeza e colhendo depoimentos e imagens. No dia 17 de outubro, quatro dias antes de o vídeo publicado por Salles ir ao ar, a própria ONG publicou um texto sobre a visita de voluntários às praias afetadas de Fortaleza (CE) e São Luis (MA).

“Nossos voluntários no Maranhão e no Ceará também visitaram os locais impactados, conversaram com a população, colheram depoimentos, fizeram imagens, justamente para documentar tudo o que está sendo afetado, do meio ambiente às pessoas e a economia dessas regiões”, afirmou Almeida.

Em nota publicada na segunda-feira, 21, após a divulgação do vídeo cortado pelo ministro, o Greenpeace afirmou que voluntários da organização estiveram nas limpezas das praias de Cupe, Maracaípe e Muro Alvo, no Pernambuco, e em Fortaleza, no Ceará, durante os dias 19 e 20 de outubro.

E o navio do Greenpeace, o Esperanza?

Outros boatos falsos publicados nas redes sociais insinuam que a embarcação Esperanza, do Greenpeace, poderia estar envolvida no derramamento de óleo na costa brasileira. A justificativa seria a rota marítima feita pelo navio nos últimos dias, que passou pela costa brasileira. As mensagens passaram a circular após o ministro Ricardo Salles publicar um tuíte com insinuação semelhante.

O Estadão Verifica cruzou a rota do navio Esperanza desde 1º de janeiro deste ano até a sexta-feira, 25 de outubro, e comparou com as datas registradas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de cada localidade atingida pelo óleo no Norte e Nordeste do País.

O navio Esperanza em águas da Guiana Francesa durante expedição científica. Foto: Pierre Baelen / Greenpeace

O resultado mostra que o Esperanza navegou pela costa brasileira cerca de um mês depois das praias brasileiras terem sido atingidas por óleo. Segundo o registro do site Marine Traffic, que acompanha via GPS a localização em tempo real de embarcações pelo mundo, o navio do Greenpeace deixou o porto de Dégrad des Cannes, na Guiana Francesa, no dia 5 de outubro — na época, todos os Estados já tinham sido atingidos pelo óleo.

Veja abaixo a rota do Esperanza pela costa brasileira — o navio cruzou o litoral Norte e Nordeste do País entre 6 a 16 de outubro, um mês depois do aparecimento do óleo nas praias:

Entre os dias 6 a 10 de outubro, o navio navegou em alto-mar nas proximidades dos Estados do Pará e Maranhão. Na época, a costa maranhense já registrava presença de óleo havia quase um mês, segundo o Ibama. A primeira localidade atingida foi a Ilha dos Poldros, em Araioses, no dia 16 de setembro.

No dia 10 de outubro, o Esperanza passou pela costa do Ceará, que já registrava óleo desde o dia 8 de setembro. No dia 12 de outubro, o navio navegava pelo Rio Grande do Norte, que sofria com as manchas na praia desde 7 de setembro (confira abaixo o levantamento do Ibama com a data do avistamento do óleo em cada praia).

A rota segue pela Paraíba, no dia 13 de outubro, e por Pernambuco, no dia 14 de outubro. Segundo monitoramento do Ibama, os primeiros registros de óleo foram relatados um mês antes, nos dias 30 de agosto e 2 de setembro, respectivamente.

Em Alagoas e Sergipe, o Esperanza cruzou o alto-mar durante o dia 15 de outubro. Os dois Estados, no entanto, já sofriam com o aparecimento de óleo desde os dias 2 e 17 de setembro, segundo o Ibama (confira o infográfico abaixo com a data de aparecimento de óleo em cada praia).

 O Esperanza só chegou à Bahia no dia 16 de outubro — quinze dias depois do primeiro registro de óleo no Estado, relatado na praia de Santo Antônio, em Mata de São João, na Grande Salvador.

Além do fato de o Esperanza ter passado pela costa brasileira após o óleo já ter atingido as praias do Nordeste, estimativa feita a pedido da Marinha pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aponta que o vazamento ocorreu em junho, entre 600 e 700 quilômetros da costa brasileira, na altura dos Estados de Sergipe e Alagoas.

Em junho, o Esperanza cruzava o Atlântico Norte, nas proximidades do Canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França, e seguia em direção ao sul europeu, passando pela Espanha e por Portugal.

Atualmente, o navio do Greenpeace está em Montevidéu, no Uruguai, de onde seguirá rota para Buenos Aires, na Argentina. De acordo com a organização, a embarcação seguirá rumo à Antártida.

Estadão Verifica entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente para pedir um posicionamento sobre as declarações enganosas de Salles. Em resposta, o órgão emitiu nota informando que “o navio do Greenpeace confirma que navegou pela costa do Brasil na época do aparecimento do óleo venezuelano, e, assim como seus membros em terra, não se prontificou a ajudar”.

É preciso destacar, no entanto, que é falsa a afirmação que membros do Greenpeace não estejam atuando na costa brasileira, conforme verificação acima. E, como também verificado acima, o navio não circulou pela costa brasileira no momento do aparecimento do óleo, e sim depois. Os primeiros relatos de contaminação na costa brasileira foram registrados no final de agosto. O navio Esperanza chegou ao Brasil somente em outubro.

Caminho da verificação. Para verificar o boato sobre a ausência de atuação do Greenpeace no Nordeste, o Estadão Verifica consultou registros publicados no site da organização, além de entrar em contato com a entidade para saber sobre sua atuação no Nordeste. A reportagem também localizou a íntegra do vídeo com as respostas do porta-voz Thiago Almeida e identificou o momento do corte e posterior omissão no tuíte do ministro Ricardo Salles.

Para Entender

Entenda o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste

Óleo se espalha pelos 9 Estados da região. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira

Para conferir o boato relativo ao navio Esperanza, a reportagem rastreou a rota da embarcação pelo site Marine Traffic entre os dias 1º de janeiro de 2019 a 25 de outubro de 2019. O Estadão Verifica cruzou as informações da localização diária do navio com os registros de óleo tabelados até o dia 23 de outubro pelo Ibama.

Estes boatos foram sinalizados para verificação por meio da parceria entre o Estadão Verifica e o Facebook. A Agência Lupa e o jornal Folha de S. Paulo também desmentiram este conteúdo.

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