Após críticas a Bolsonaro, Marina Silva é alvo de boato falso sobre desmatamento
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Após críticas a Bolsonaro, Marina Silva é alvo de boato falso sobre desmatamento

Desinformação antiga voltou a circular e afirma falsamente que marido da ex-ministra é um dos ‘maiores desmatadores da Amazônia’

Paulo Roberto Netto

27 de agosto de 2019 | 16h17

A ex-ministra Marina Silva durante entrevista à agência EFE, em Quito (Equador). Foto:EFE/José Jácome

Uma imagem divulgada nas redes sociais acusa falsamente a ex-ministra Marina Silva de ser casada com “um dos maiores desmatadores da Amazônia”, dono de 6 mil toras de mogno apreendidas, com valor estimado em R$ 8 milhões. A peça de desinformação é antiga, mas voltou a circular após críticas de Marina contra a gestão ambiental do governo Bolsonaro em meio aos incêndios na Amazônia.

O boato teve início em 2011, após troca de farpas entre Marina Silva e o deputado federal Aldo Rebelo (então no PCdoB), relator do Código Florestal (PL 1876/99) em discussão na Câmara dos Deputados. No dia 11 de maio, Rebelo apresentou parecer às emendas do plenário e, pelo Twitter, Marina afirmou que o parlamentar havia encaminhado um texto “com novas pegadinhas”.

No plenário, Rebelo afirmou que Marina disse na rede social que o parecer era “fraudado”. “A fala infeliz do deputado Paulo Teixeira deu razão a que a ex-senadora Marina Silva postasse no Twitter que eu fraudei o texto”, discursou, na época. “Quem fraudou contrabando de madeira foi o marido de Marina Silva, defendido por mim nesta Casa quando eu era líder do Governo.”

O deputado se referia a uma investigação do Tribunal de Contas da União, de 2004, sobre a doação de 6 mil toras de mogno apreendidas pelo Ibama para a ONG Fase, ligada ao Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), do qual Fábio Vaz de Lima, marido de Marina, era fundador. O TCU apurava o repasse da madeira pela ONG à madeireira Cikel, que ficou responsável pela comercialização do mogno no exterior.

Ao todo, a venda totalizou R$ 7 milhões. Descontados os custos do processo, a ONG Fase ficou com R$ 3,5 milhões, que seriam destinados a um fundo destinado à “promoção da proteção ambiental”. O TCU apontou “falhas” no rigor da escolha da madeireira, elaborando documento com recomendações mais rigorosas ao Ibama sobre como proceder em situações semelhantes. O documento, no entanto, não cita o marido de Marina Silva nem suposto envolvimento com contrabando.

Após a declaração de Rebelo, o caso do TCU voltou à tona e Marina divulgou nota afirmando que seu marido havia trabalhado no GTA entre 1996 a 1999, “de onde saiu para trabalhar no governo do Acre, na gestão de Jorge Viana”. A doação do mogno, portanto, ocorreu quatro anos após a saída de Fábio Lima da entidade.

Marina também solicitou ao Ministério Público Federal uma investigação contra ela mesma e Fábio Lima pelo suposto contrabando de madeira. Em 2013, o então procurador-geral da República, Roberto Monteiro Gurgel, afirmou não ter encontrado “fato delituoso” a ser investigado em relação ao casal. O processo foi arquivado.

Documento

“Quanto às acusações feitas contra Fábio Vaz de Lima, não há um único elemento que confira foros de verossimilhança aos fatos noticiados pela imprensa”, afirma Gurgel, em decisão de 23 de julho de 2013. “Como disse a representante [Marina Silva], à data que assumiu o Ministério do Meio Ambiente o seu marido já não mantinha vínculos com as entidades que integram o Grupo de Trabalho Amazônico – GTA, não havendo a indicação de um fato concreto que o vincule à FASE na época em que foi feita a doação do mogno”.

Entrevistas. O boato antigo voltou a circular após declarações de Marina Silva contra a política ambiental da gestão Bolsonaro. Em entrevista ao site El País Brasil, a ex-ministra afirmou que o Brasil voltou “a uma situação ambiental pior do que na década de 80”. À BBC Brasil, disse as queimadas na Amazônia sempre ocorreram, mas “nunca incentivadas pelo discurso de um presidente”.

O caminho da verificação. Para verificar este boato, o Estadão Verifica localizou o tweet de Marina Silva por meio de busca na rede social e consultou a transcrição dos discursos no plenário da Câmara dos Deputados do dia 11 de maio de 2011.

O Estadão Verifica também acessou o acórdão 601/2004 do Tribunal de Contas da União por meio de consulta processual no site da Corte (usando os termos “Cikel, Fase, Ibama”). A nota divulgada por Marina Silva sobre o caso em 2011 foi recuperada por meio da ferramenta Wayback Machine, que registra captura telas de sites na internet.

A íntegra da decisão do procurador-geral Roberto Gurgel pelo arquivamento das investigações é encontrado no site de Marina Silva, em nota feita para desmentir o mesmo boato.

A reportagem também consultou reportagens do ‘Estado’, Folha de S. Paulo e Veja sobre o assunto.

Este boato foi selecionado para checagem por meio da parceria entre o Estadão Verifica e o Facebook. O AosFatos, o Projeto Comprova e o Boatos.org também desmentiram este boato. Para sugerir verificações, encaminhe o boato para o WhatsApp (11) 99263-7900.

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