Ao defender volta ao trabalho durante a pandemia, vereador gaúcho faz declarações enganosas sobre a quarentena
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Ao defender volta ao trabalho durante a pandemia, vereador gaúcho faz declarações enganosas sobre a quarentena

Diversos estudos demonstraram a eficácia de medidas mais rigorosas para combater a pandemia; risco de contágio é maior onde circulam e se aglomeram mais pessoas

Samuel Lima, especial para o Estado

20 de julho de 2020 | 20h01

Um vídeo em circulação no Facebook desinforma ao sugerir que não existe comprovação científica de que a quarentena seja eficaz na contenção da pandemia do novo coronavírus. Diversos estudos científicos publicados em periódicos de referência da área médica apontam que esse tipo de estratégia contribui para reduzir a velocidade de infecção e o número de casos e mortes de covid-19.

O conteúdo enganoso mostra discurso do vereador Thiago Brunet (PDT), de Farroupilha, no Rio Grande do Sul, feito no dia 15 de junho. Ele também é médico ginecologista e obstetra e diretor técnico da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Coronavírus da cidade. Ao defender a reabertura de atividades não essenciais, Brunet afirma: “Não tem nada comprovado de que, as pessoas ficando em casa, a coisa vai melhorar. Muito pelo contrário. Como o vírus já está em toda a cidade, nós vamos nos contaminar mais em casa”.

Uma postagem do vídeo com o discurso de Brunet obteve 209 mil compartilhamentos no Facebook.

Vídeo viral apresenta afirmações enganosas de médico e vereador de Farroupilha (RS). Foto: Reprodução / Arte Estadão

Para o infectologista e diretor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) no Distrito Federal, José David Urbaéz, as afirmações do vídeo são “irresponsáveis” e demonstram o “atropelamento de conceitos básicos de epidemiologia de doenças de transmissão respiratória”. Isso porque o contágio de covid-19 acontece por meio do contato próximo com indivíduos infectados, seja ele direto ou indireto. 

Dessa forma, explica Urbaéz, ambientes com maior circulação e aglomeração de pessoas — shoppings, academias e transporte público, por exemplo — apresentam risco de contágio muito mais alto do que as residências. “Se não tem ninguém em casa doente, a família toma os cuidados necessários e não permite que existam meios de contaminação, o coronavírus não vai entrar”, afirma.

O especialista aponta ainda que o fechamento de serviços não essenciais é necessário para conter a propagação do vírus porque a sociedade funciona por meio de aglomerações e da circulação em massa. “Não basta as pessoas assumirem individualmente essa proteção. Se isso funcionasse, não teríamos pandemia. Seria muito simples de se resolver”, argumenta o médico. 

Urbaéz também rebate a afirmação de que não existiriam estudos científicos que comprovem a eficácia do isolamento. Segundo o médico, a relação está “fartamente demonstrada” na literatura científica, ao contrário do que sugere o vereador de Farroupilha. Ele cita, por exemplo, estudo realizado por dois pesquisadores da Alemanha e publicado, em 15 de maio, na revista Science

Os cientistas da Universidade Humboldt de Berlim e do Instituto Robert Koch analisaram dados coletados em diversas províncias da China, em fevereiro, e notaram que não houve crescimento exponencial no número de casos no período, como era de se esperar. O estudo conclui que a adoção de políticas públicas teve impacto positivo na contenção da doença — as medidas incluíram distanciamento social, restrição de trânsito e fechamento de negócios, locais públicos e universidades, por exemplo.

Da mesma forma, pesquisadores da Universidade Fudan, de Xangai, na China, concluíram que houve um “efeito benéfico” na adoção de medidas rigorosas de distanciamento social entre janeiro e fevereiro em 30 províncias chinesas fora de Hubei, epicentro da doença. Eles sugerem como causas a suspensão de atividades públicas, as restrições de tráfego, o fechamento de escolas e o gerenciamento comunitário após a confirmação de novos casos, entre outros pontos. O estudo foi publicado na revista Lancet, em 2 de abril. 

Outro artigo publicado na revista JAMA, em 10 de abril, analisou o número efetivo de reprodução — chamado de R, que informa a taxa de propagação do vírus — na localidade de Wuhan, na China. Em meados de janeiro, antes da adoção de lockdown na cidade e outras medidas mais rigorosas pelo governo chinês, o R estava entre 3 e 4, o que significa dizer que cada pessoa infectada transmitia a doença, em média, para outras três ou quatro naquele período. A taxa despenca para menos de 1 cerca de duas semanas após as intervenções, segundo a pesquisa liderada pela Universidade de Ciência e Tecnologia Huazhong, da China.  

Recentemente, cientistas da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, utilizaram dados de movimentação de usuários fornecida por empresas de telefonia para gerar métricas de distanciamento social e compará-las com a realidade das cidades norte-americanas no combate à pandemia. O estudo, publicado na Lancet em 1º de julho, mostrou que o padrão de movimentação dos indivíduos está fortemente relacionado ao número de casos. 

“Os resultados apoiam a conclusão que o distanciamento social desempenhou um papel crucial na redução da taxa de crescimento dos casos em diversos municípios dos EUA entre março e abril”, afirmam os pesquisadores. “Diante da falta de remédios antivirais de eficácia comprovada ou vacinas, o distanciamento social é uma das formas mais importantes e oportunas de combater a disseminação da covid-19.”

Recentemente, estudo do Imperial College London divulgado pela revista Nature, em 8 de junho, estimou que o lockdown e outras intervenções não farmacêuticas evitaram 3,1 milhões de mortes por covid-19 na Europa. No Brasil, pesquisadores de cinco universidades e do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde também calcularam, em 15 de abril, em preprint, que a adoção precoce do distanciamento social na região metropolitana de São Paulo poderia evitar até 89.133 mortes.

No final de maio, a BBC publicou notícia abordando a eficácia da quarentena na contenção do novo coronavírus. A matéria informa, com uma série de outros exemplos, que “dezenas de estudos científicos apontam que medidas de distanciamento social têm sido eficazes para reduzir o número de infectados e mortos ou diminuir a sobrecarga dos hospitais”, com a ressalva de que, geralmente, “elas não conseguem debelar a pandemia sozinhas, sem a ajuda de testagem em massa ou rastreamento de infectados, e dependem muito da adesão popular em cada país”.

O que diz o vereador Thiago Brunet

Em entrevista ao Estadão Verifica, o vereador Thiago Brunet disse que a afirmação de que a maior parte da contaminação pelo novo coronavírus acontece em casa foi feita com base em estudo em Nova York, nos Estados Unidos, e em banco de dados próprio da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) exclusiva para atendimento da covid-19 em Farroupilha, da qual é diretor técnico. 

A pesquisa norte-americana é verdadeira, mas não comprova falhas no distanciamento social, como já mostrou o Estadão Verifica em outra checagem em parceria com o Projeto Comprova. A reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde de Farroupilha e questionou sobre a informação do pronto-atendimento, mas não houve resposta até o fechamento desta matéria. Nos boletins diários, a Secretaria da Saúde informa apenas a situação dos casos confirmados; faixa etária, gênero e bairro; a localização dos casos ativos; e o número de suspeitas monitoradas e descartadas.

A reportagem também questionou outra alegação duvidosa mencionada por Brunet no vídeo — a de que, entre as pessoas que procuram atendimento com suspeita de covid-19 na cidade, “zero por cento”, segundo ele, “estão na rua”. Significaria dizer que todas as pessoas atendidas em Farroupilha praticam o isolamento social. Questionado sobre a declaração, o vereador afirmou que estava se referindo a moradores em situação de rua. Novamente, a fonte seria o banco de dados da UPA, que não é público. Para ele, o fechamento temporário de serviços não essenciais não exerce influência sobre a circulação de pessoas.

Farroupilha em “bandeira vermelha” no RS

Na data em que o vídeo foi gravado, Farroupilha apresentava 343 casos de covid-19, de acordo com painel de monitoramento elaborado pela Prefeitura Municipal. Atualmente, a cidade contabiliza 587 casos confirmados e oito mortes. O número de habitantes do município é estimado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 72,3 mil pessoas. 

Na semana em que Brunet fez seu discurso, o município localizado na região da Serra Gaúcha havia entrado em “bandeira vermelha” no Modelo de Distanciamento Controlado adotado pelo governo do Estado — estágio considerado de risco alto. A classificação leva em conta a propagação do vírus e a capacidade de atendimento da rede de saúde e resulta, entre outras medidas, em maiores restrições para o funcionamento dos negócios. A atualização é semanal.

Na semana seguinte, a classificação da região da Serra foi reduzida para “bandeira laranja”, flexibilizando os protocolos. O Estado chegou a anunciar por três vezes, em caráter preliminar, o retorno à “bandeira vermelha” na região, mas os municípios encaminharam recursos e conseguiram reverter a decisão. A sequência foi quebrada em 14 de julho, quando foi confirmado o retorno. A classificação foi mantida desde então.

Até esta segunda-feira, 20, o Rio Grande do Sul tinha 47.449 casos confirmados de covid-19 e 1.285 mortes, segundo informações da Secretaria Estadual de Saúde. Cerca de 5 mil pessoas seguem em acompanhamento. Oito regiões estão em “bandeira vermelha” e 12, em “bandeira laranja”. O agravamento da pandemia entre os gaúchos ocasionou a restrição de serviços em um hospital de referência no atendimento de covid-19 em Porto Alegre e há possibilidade de lockdown na capital do Estado.

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