Foto de encenação no Reino Unido em 2014 circula como se fosse do Afeganistão

Foto de encenação no Reino Unido em 2014 circula como se fosse do Afeganistão

Ativistas curdos protestavam contra tráfico sexual promovido pelo Estado Islâmico na Síria e no Iraque

Alessandra Monnerat

23 de agosto de 2021 | 16h22

O Taleban é um movimento que comete atrocidades contra mulheres, mas nem tudo o que circula como denúncia desses crimes é verdade. Por exemplo, a foto de um protesto contra o Estado Islâmico, organizado no Reino Unido em 2014, circula no Facebook como se fosse um registro recente no Afeganistão. A imagem mostra um homem segurando mulheres acorrentadas e cobertas por véus pretos. A fotografia foi feita durante uma encenação de ativistas curdos, que tentavam chamar a atenção para o tráfico de mulheres pelo grupo terrorista no Iraque e na Síria.

Para encontrar a origem da imagem compartilhada no Facebook, usamos a ferramenta de busca reversa do Bing (aprenda aqui como usar). Encontramos resultados relacionados a uma manifestação organizada pelo grupo Compassion 4 Kurdistan em Londres. Os ativistas fizeram uma encenação de um “mercado de escravas sexuais do Estado Islâmico”. Quatro atrizes vestidas com niqabs (véus que revelam apenas os olhos) ficavam acorrentadas e eram vendidas por um homem com um megafone.

Um dos ativistas do grupo, Ari Murad, disse na época à BBC que as “histórias eram tão horríveis que tínhamos que fazer algo sobre”. Em outubro de 2014, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou um relatório que informava que 150 mulheres foram traficadas do Iraque para a Síria para serem vendidas como escravas sexuais ou soldados.

A agência de checagem indiana Alt News encontrou vídeos e fotos do protesto de 2014 publicadas no Facebook. Veja abaixo. 

Como é a situação para mulheres afegãs

Desde que Taleban voltou ao poder no Afeganistão, teme-se que o grupo extremista volte a impor restrições draconianas às mulheres do país. Entre 1996 e 2001, período do primeiro regime do Taleban, meninas com mais de oito anos não podiam estudar, mulheres eram proibidas de trabalhar ou sair de casa sem um acompanhante do sexo masculino e o uso de burca (véu que cobre todo o corpo, deixando apenas uma tela para os olhos) era obrigatório. Acusadas de adultério eram apedrejadas ou açoitadas.

Na semana passada, o grupo anunciou que permitiria que mulheres trabalhassem, “respeitando os princípios do Islã”. A medida foi vista com desconfiança, já que, segundo relatos de agências internacionais, mesmo antes de derrubar o governo, o Taleban começou a aterrorizar mulheres e meninas com ameaças de casamentos forçados, sequestro de mulheres e violência física em territórios já conquistados.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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