Advogados de Trump divulgam informações falsas sobre empresas de votação eletrônica
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Advogados de Trump divulgam informações falsas sobre empresas de votação eletrônica

Ao contrário do que alegam Sidney Powell e Rudy Giuliani, Smartmatic e Dominion não têm relação; boato se espalhou pelas redes sociais com acusações de envolvimento com a Venezuela

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

25 de novembro de 2020 | 15h52

Mensagens no Facebook e no WhatsApp reproduzem alegações enganosas de que um software da Dominion Voting System, empresa responsável por fornecer tecnologia para o processo eleitoral em alguns estados dos EUA, teria sido criado para manipular eleições na Venezuela e estaria envolvido em fraudes na corrida presidencial americana. Isso não é verdade: autoridades eleitorais dos Estados Unidos não encontraram qualquer prova de fraude no processo de votação.

Os boatos espelham declarações de advogados da campanha do presidente Donald Trump, que alegam existir laços entre a Dominion e a empresa americana Smartmatic, que forneceu tecnologia para eleições venezuelanas entre 2004 e 2017. As duas companhias declararam ser concorrentes de mercado e negam haver nenhum tipo de vínculo entre elas. Já autoridades eleitorais dos Estados Unidos negaram haver evidências de fraude no processo eleitoral do país.

Sidney Powell e Rudy Giuliani, advogados de Trump, em coletiva de imprensa. Foto: REUTERS/Jonathan Ernst

Empresas não têm vínculo

Em entrevista ao canal Fox Business, a advogada da campanha de Trump, Sidney Powell, disse ter evidências que o software da Dominion foi criado para favorecer a votação de Hugo Chávez, que governou a Venezuela entre 1999 e 2013. Powell afirmou que a tecnologia foi negociada para interferir em eleições de outros países e acusou a empresa de ser influenciada por Cuba e pela China.

Ao mesmo canal, o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, alegou que a Dominion pertence à Smartmatic, e que o software usado pelas duas é o mesmo. Giuliani, que é ex-prefeito de Nova Iorque, afirmou ainda que ambas as empresas seriam controladas por uma terceira companhia, a espanhola Indra Systems.

As três empresas, no entanto, emitiram comunicados que desmentem as afirmações de Giuliani.

A Dominion afirmou que “não é, nem nunca foi, propriedade da Smartmatic” e negou usar a tecnologia da concorrente. A empresa disse ainda que não tem qualquer laços com a Venezuela ou Cuba.

O comunicado da Smartmatic destaca que a empresa “nunca foi proprietária de ativos ou teve qualquer participação financeira na Dominion Voting Systems” e nunca forneceu “qualquer software, hardware ou outra tecnologia” para a companhia.

Um porta-voz da Indra Systems afirmou à agência de notícias Associated Press que a organização não tem vínculos com nenhuma das empresas, nem com as eleições presidenciais americanas de 2020.

De acordo com a CNN americana, uma possível origem dos boatos sobre a Dominion e a Smartmatic remete a negociações em torno de uma outra companhia. Em 2005, a Smartmatic adquiriu a Sequoia Voting System, mas decidiu vender o ativo dois anos depois, quando parlamentares americanos questionaram o fato de a Sequoia ter recebido anteriormente investimentos do governo da Venezuela. Anos depois, em 2010, a Dominion comprou a Sequoia. Por causa disso, a Smartmatic entrou com uma ação judicial contra a Dominion.

Smartmatic suspendeu atividades na Venezuela

De acordo com o site da Smartmatic, a companhia foi fundada na Flórida, em 2000, e hoje possui sede em Londres, no Reino Unido. A empresa destaca que prestou serviço para mais de 15 eleições na Venezuela e que sua tecnologia foi certificada por entidades internacionais como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União Europeia. A companhia deixou de atuar no país após acusar a Comissão Eleitoral venezuelana de ter inflado a taxa de participação eleitoral no pleito de 2017.

“A empresa não poderia endossar a informação manipulada e decidiu suspender qualquer atividade naquele país”, diz a empresa. “A integridade das urnas e do sistema de votos não foi comprometida durante a eleição da Assembleia Nacional Constituinte da Venezuela. As autoridades apenas anunciaram uma taxa de comparecimento diferente da que o nosso sistema indicava.”

Segundo a Associated Press, nas eleições norte-americanas de 2020, a Smartmatic forneceu software somente ao condado de Los Angeles, na Califórnia.

Empresas são alvos de conteúdos enganosos

A Dominion também foi alvo de alegações enganosas do presidente Donald Trump. Sem apresentar provas, o republicano acusou a companhia de ter deletado 2,7 milhões de votos a seu favor. O discurso foi verificado pela Agência Lupa. Já o projeto Comprova desmentiu boatos de que a Smartmatic tenha vendido equipamentos para eleições municipais 2020 no Brasil.

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